A esquina dos remédios

Ponto histórico na Rua da Praia, conhecido por ter sido considerado o coração de Porto Alegre, hoje encontra-se tomado por farmácias

  • Por: Gabriel Bandeira (3° semestre) | Foto: Igor Janczura Dreher (3° semestre) | 15/05/2017 | 0
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A esquina, palco de muitas histórias da Capital, hoje transformou-se num ponto estreitamente comercial


O Largo dos Medeiros não é mais o mesmo. O nome é uma homenagem aos  irmãos Eugênio e Pantaleão Medeiros, donos da Confeitaria Central, localizado no Centro Histórico de Porto Alegre, no encontro entre a Rua da Ladeira e a Rua da Praia. Desde o início do século XIX, o ponto recebia as famílias que passavam as tardes nos cafés e em confeitarias. Hoje junta bancas de rua, vendedores ambulantes e uma multidão de pessoas que andam apressadas para suas casas, empregos e compromissos. Entretanto, outro fator chama a atenção no longo caminho de pedras avermelhadas: o aumento das farmácias nas últimas décadas é  notável. Além de marcar território, as drogarias dominaram o espaço antes conhecido como o ‘coração da cidade’, tornando o histórico largo em um campo de guerra da venda de remédios. Drogarias da mesma rede chegam a ficar metros uma das outras, estratégia usada para aumentar a visibilidade das marcas. Somente do ponto histórico até a esquina com a Borges de Medeiros, estão concentradas dez farmácias.

Cotidianamente, quem passa pelo pedaço esquecido da Rua da Praia não encontra os famosos negócios que marcaram a rua. Dos quatro pontos na esquina com a Rua da Ladeira, hoje, três estão tomados por farmácias de diferentes grupos. Estudantes conversam e fumam cigarros antes de voltar do intervalo do cursinho onde outrora diversos moradores da capital se reuniam para descer o calçadão repleto de glamour. Acima de onde ficava a Confeitaria Central, funcionava o Royal Salon, conhecida barbearia da época. Hoje, quem desafia a olhar para cima durante a corriqueira rotina da via encontra apenas placas de aluga-se.

A mudança na paisagem espanta quem está acostumado a frequentar as cercanias. Subindo pela Rua da Ladeira, antigo nome da Rua General Câmara, encontra-se um dos bares mais icônicos do bairro. Fundado em 1941 e com vista para o prédio em que funcionava a Confeitaria Central, o Bar & Chopperia Tuim procura manter as tradições de décadas passadas. Lá, velhos amigos se reúnem para conversar sobre as sortes da vida e relembrar acontecimentos de outrora, enquanto provam petiscos e bebericam nos deques do estabelecimento. Almoçando com um de seus amigos, Antônio Carlos Estrella, juiz de direito que completou 75 anos em janeiro, conta que não perde um início de tarde no bar. “Só não venho nos sábados e domingos porque está fechado”, graceja. Estrella cresceu e viveu a vida inteira em Porto Alegre. Dono de um escritório perto do local onde ficava a famosa confeitaria, Estrella conta que a via era a Broadway de Porto Alegre. “Tinha cafés, cinemas, confeitarias nas esquinas e a Confeitaria Central, onde as madames da high-society porto alegrense iam tomar o chá da tarde”.

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Antônio Carlos Estrella é advogado e a mais de 30 anos frequenta as o Largo. Ao seu lado, Mário Moreira, amigo de décadas, que também acompanhou as mudanças na Rua.

Estrella vê a mudança da rua como algo gradativo e natural, mas se espanta com o aumento no número de farmácias. “Tá horrível! Se alguém entrar em Porto Alegre vai pensar que essa população está contaminada”, brinca novamente, entre goles com um de seus amigos de época. Contando toda sua extensão, a Rua da Praia abriga 20 farmácias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que é necessário uma farmácia para cada 8 mil habitantes, porém, Porto Alegre apresenta uma farmácia para cada 2,1 mil habitantes, quase quatro vezes menos que o número recomendado. “Isto é saudável em um determinado sentido, pois a concorrência favorece o consumidor. Comprar em uma farmácia aqui é um preço, comprar no bairro Glória, onde eu moro, é tudo mais caro, porque não tem concorrência”, compara Estrella.

Nascido na Capital, Moacyr Flores é historiador e estudioso da Revolução Farroupilha, acumulando 23 livros publicados. Com graduação e doutorado em história pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Flores constata que a rua perdeu a sua fama de ponto de encontro em decorrência das mudanças sociais. “A gente vinha para a Rua da Praia para ir numa confeitaria, num café, ir a um cinema. Era onde encontrávamos os amigos. Nos encontrávamos sem combinar. Apenas nos achávamos”. Para Flores, a ascensão dos shoppings nos anos 1970, somada à crescente onda de violência, expulsou o público das ruas. “Não se podia mais ir a pé, tudo era feito de bonde ou carro. A chegada da TV matou o cinema de calçada. O que estava na Rua da Praia se mudou para dentro dos shoppings. Foi uma mudança social”, explica

Dividindo mesa e idade com Estrella, Mário Moreira, cirurgião dentista nascido em São Borja, revela que sente falta da primeira impressão que teve quando chegou à cidade. “Quando as pessoas iam ao Cinema Cacique, elas se arrumavam. As mulheres iam perfumadas e com vestidos adequados. Os homens iam de terno, sobretudo e chapéu. Após a sessão, desfilavam na Rua da Praia. Mas isso também é evolução. Não dá pra dizer que aquele tempo era melhor que esse”, relembra. Também interessado pelo tema das farmácias, Moreira não perde a oportunidade de dar o seu palpite. Acreditando que as pessoas estão mais longevas e adoecendo mais, Moreira acredita que este fenômeno não se restringe apenas a Capital. “Em Santo Antônio da Patrulha, onde trabalhei em 1990, não haviam farmácias. Hoje há uma em cada esquina”. Atualmente, Porto Alegre ocupa a oitava posição entre as capitais brasileiras em número de farmácias por habitante. Segundo dados do Conselho Regional de Farmácia do Estado (CRF-RS), em 20 anos, houve um salto de 128%  na presença de drogarias em todo o Estado.

Na busca por um medicamento mais barato, moradores de diferentes bairros da cidade caminham pelas boticas da Rua da Praia à procura da melhor oferta. Saindo a passos lentos de uma das farmácias próxima a esquina com a General Câmara, não muito longe do ponto de encontro dos amigos de Estrella, Almiro Zago, colecionando 74 anos, morador do Centro Histórico há 12, conta que o jeito é sair com uma listinha de compras e passar de loja em loja. Logo em frente, Alessandra Silva acredita que as pessoas estão se automedicando em excesso e o setor farmacêutico acaba tirando proveito disso. Para ela, “o jeito é procurar uma farmácia que te dê a oferta mais em conta. Um verdadeiro leilão.”

Executivo do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos no Estado do Rio Grande do Sul (Sinprofar), Guilherme Leipnitz acredita que o segmento deve ser um bom negócio, ao contrário, não haveria tantas lojas abrindo. Conforme Leipnitz, quem abre as farmácias são os grandes conglomerados farmacêuticos, as grandes redes. Tanto que percorrendo a Rua da Praia, as pessoas não vão achar nenhuma farmácia de pequeno porte, independente ou que pertença a rede associativista – redes que mantiveram seu CNPJ e que se agregaram para suportar a competitividade no setor.

Leipnitz lembra que o setor dos medicamentos é o único da economia regulado pelo governo. Ele ressalta que há um preço fabricante e o Preço Máximo ao Consumidor (PMC), assim, a partir desses preços, as farmácias podem realizar a sua política comercial – que pode ser mais ou menos agressiva. Leipnitz  conta que havia perguntado para pintores que trabalhavam na reforma de um estabelecimento que estava fechado: “É farmácia que vai abrir aí?” E recebendo a resposta positiva, completou: “É, não é difícil saber.”

Os tempos mudaram e a vida boêmia da Rua diluiu-se em um comércio farmacêutico desenfreado e crescente. Entretanto, como afirma Moacyr “A melhor época para se viver é o agora. Muitas pessoas saudosas se prendem ao passado. Eu, como historiador, digo que o melhor momento que vivemos é o de hoje.” Talvez nunca mais se veja todo glamour que subia do Largo até a altura da Praça Dom Feliciano, porém, é inegável que a Rua da Praia continua sendo um forte ponto comercial da cidade. Concentrando milhares de pessoas, agora não conta só com seus cafés e confeitarias, mas também com suas farmácias.