“A intenção não é falar de política, mas sim constranger pessoas, ofender, tentar humilhar”

Jornalista Vitória Famer, da Rádio Guaíba, revela os ataques sofridos em suas redes sociais, além da sua visão sobre a situação dos jornalistas numa época de polarização política

  • Por: Gustavo Barreto (3º semestre) | Foto: Alina Souza (Correio do Povo) | 04/07/2017 | 0
Divulgação/ Aline Souza (Correio do Povo)
Vitória Famer foi vítima de ataques virtuais – foto por Alina Souza (Correio do Povo)

 

Desde 21 de junho, quando produziu uma matéria sobre a detenção de pessoas envolvidas em uma briga com servidores municipais, a jornalista Vitória Famer, da Rádio Guaíba, tem recebido diversas ofensas pelas redes sociais. Os detidos eram Arthur do Val, membro do Movimento Brasil Livre (MBL) e dono do canal MamãeFalei do YouTube, e Márcio Gonçalves Strzalkowski, que supostamente trabalhava como segurança de Arthur. Junto a eles, estava Rafinha BK, outro suposto segurança do youtuber.

Márcio e Rafinha também produzem vídeos em protestos, semelhantes ao estilo do canal MamãeFalei. Os ataques direcionados à Vitória começaram após a divulgação de vídeos pelo canal e pelo Twitter do MBL, recheados de críticas ao trabalho da jornalista, além de um texto divulgado pelo deputado estadual Marcel Van Hattem (PP-RS), que aprovou a situação para trazer à tona críticas a uma matéria produzida pela jornalista há alguns anos. A partir disso, cresceram os ataques à Vitória nas redes sociais.

Ex-aluna da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, a jornalista detalha como ocorreram os ataques ao seu trabalho e a sua honra profissional. A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Editorial J – Você diria que a motivação dos ataques virtuais foi o clima de tensão política que o país tem passado?

Vitória Famer – A intenção não é falar de política, mas sim constranger pessoas, ofender, tentar humilhar. Infelizmente transcende as questões políticas e acaba inflando um clima que já é tenso na política, hoje tão polarizada no país. São intencionais esses tipos de perguntas e tipos de vídeos que eles fazem com questões pesadas.

 

J – Você já tinha sofrido algum tipo de ataque parecido em outra situação?

Vitória –  Referente à política nesse sentido, não. Às vezes, a gente recebe uma crítica à alguma matéria, as pessoas têm o direito de gostar ou não dela, mas nesse nível, através redes sociais, eu nunca tinha passado. Vi amigos jornalistas passarem por isso, até em outras questões, como a situação bem preconceituosa que aconteceu com a Maju (a apresentadora foi alvo de comentários racistas nas suas redes sociais em 2015) mas nunca tal situação foi tão próxima a nós.

 

J – Como você mesmo apresentou em seu Facebook com áudios brutos, houve várias edições na entrevista postada no canal MamãeFalei. Como você avalia essa atitude do youtuber Arthur do Val?

Vitória –  Infelizmente esse tipo de postura tem um nicho específico que assiste, que, entre aspas, se informa a partir disso. Mas, não é jornalismo, é uma tentativa de constranger as pessoas, pressionando para que ele saia como vítima de uma circunstância dessa, difamando tanto o meu trabalho quanto o de outras pessoas sem nunca ninguém ter acompanhando meus quase cinco anos de jornalismo. Ele é pago para fazer isso, sabe? Ele descobriu um nicho e ganha dinheiro com isso. Mas o que eu fico chateada mesmo é quando as pessoas se influenciam por esse tipo de método. Aquilo, para muitas pessoas, é jornalismo, mas não é.

 

J – Qual sua avaliação do comportamento de Marcel Van Hattem como deputado diante dessa situação?

Vitória –  Ele tornou a questão muito pessoal. Eu jamais ataquei ele. Todo mundo tem lado em muitos momentos, mas eu nunca agi assim com ninguém, publicamente muito menos. Nunca falei com ele sem ser por questões profissionais, para pauta ou para alguma reportagem. Assim, ele demonstrou claramente uma perseguição pessoal, um assédio profissional comigo, porque a postagem dele é, além de voltar à tona aquela matéria que eu fiz em abril de 2015, relatando o que envolvia esse incidente, simplesmente uma perseguição ao meu trabalho. Ele se aproveitou do episódio da edição desses áudios e dessas filmagens, dessa edição tendenciosa, intencional e difamatória, para tentar mostrar uma coisa que eu não sou, ser tendenciosa com um texto desse tipo, sendo que eu jamais recebi críticas sobre isso nesse sentido. Quando ele me atacou numa postagem gigantesca, com prints do meu twitter, já demonstrava que ficava tentando pescar qualquer coisa que ele achasse que fosse importante para tentar me difamar. Um post claramente me atacando, sem ter o mínimo de contexto. Ele demonstrou ter uma mágoa, acho que em relação à matéria, só que ele nunca questionou a matéria em todos esses dois anos que já passaram, nunca questionou “Ah, Vitória, eu acho que está errado isso aí, eu não disse isso, eu não disse aquilo”. Tem informações mentirosas no post dele

 

J – Quais os próximos passos agora? Qual sua contribuição para os próximos jornalistas que passarem por situações semelhantes?

Vitória –  A gente precisa tomar cuidado com o que mexe. Não posso baixar a cabeça, não vou deixar de fazer o que eu faço, mesmo incomodando alguém. A intenção não é incomodar, mas ir atrás dos fatos. Quem precisa responder vai lá e responde, com certeza. Quem tem algo a esconder, vai tentar atacar outras pessoas. Hoje, está muito pessoalizado. As pessoas na política, fazendo uma comparação, não discutem mais ideias. Discutem simplesmente ofensas, tentando reduzir o outro ao mínimo. Precisa-se debater mais sobre isso, do que dá ou não pra melhor no país. Com certeza os jornalistas não podem tentar achar que estão errados em relação a isso, tendo que aceitar uma diminuição tão rasteira de algumas pessoas que tentam difamar nosso trabalho.

 

J – O clima atual de tensão é desfavorável para a atuação dos jornalistas em eventos como esse?

Vitória –  Na América Latina, isso é considerável. Os jornalistas sofrem muito pela perseguição. Em regiões mais ao norte do país, centro-norte do Brasil, por exemplo, é muito perigoso fazer jornalismo. O clima de tensão com certeza é desfavorável para nossa atuação. Eu acabei sendo vítima de uma questão bem polarizada em torno dessa tensão, só que as pessoas, às vezes, precisam se dar conta que a questão acontece de uma forma focada, porque alguém está ganhando de algum lado. A intenção, como eu falei, às vezes, não é discutir a política nem nada, mas esses movimentos são empresas. Eles ganham com camisetas, ganham com pessoas que patrocinam. Ninguém viaja sozinho, como se diz: “Não existe almoço e janta grátis”. O problema é ter a consciência e a convicção de que se está fazendo um trabalho correto, não se deixar abater.

 

J – Rafinha BK e Márcio Gonçalves também estavam envolvidos na situação. Houve algum tipo de ataque posterior vindo deles também?

Vitória –  Olha, confesso que eu não conhecia eles. Inclusive com o próprio MamãeFalei, enquanto eu estava no deslocamento para a delegacia, tive que procurar imagens na internet porque eu nunca tinha visto nenhum vídeo deles. Eu não conhecia muito menos esses dois, que também fazem vídeos. Não teve ataque nenhum porque eu também não fui procurar coisas sobre mim. Descobri depois, falando com um deputado, que a deputada Juliana Brizola já fez um BO contra o Rafinha BK porque ele a perseguiu desde o Centro Histórico até a Assembléia Legislativa. Inclusive parece que ele a agrediu. Ele está impedido de entrar na Assembleia por conta disso. Não foi só comigo, foi com uma deputada estadual, sabe? Não tem cabimento. Isso não é jornalismo, isso não é nada que deva ser valorizado. Ninguém faz um trabalho decente fazendo esse tipo de tentativa de coagir alguém. A mim, fisicamente, não teve nada.

 

J – A instituição MBL contribuiu de alguma forma para incentivar ataques a sua pessoa?

Vitória –  A Instituição MBL, após o vídeo divulgado do MamãeFalei, que tem o logo no vídeo do MBL, ou seja, não digo que sejam todos ruins, mas o Arthur do Val ainda é sim membro do MBL, como ele mesmo disse. Então demonstrando puramente que era uma perseguição a mim assim nesse sentido, se favoreceu dessa divulgação nacional desse canal MamãeFalei e pegou um trecho que era somente comigo, para tentar mais uma vez fazer um assédio profissional comigo e com o meu trabalho. Então teve uma representação significativa porque repercutiu, eles querendo ou não tem milhões de seguidores e pessoas que assistem a esse tipo de trabalho e repercutiu mais uma vez bem negativamente, foi na sexta que eles divulgaram o vídeo de um minuto e pouco, o vídeo maior foi na quinta-feira à noite, divulgado pelo canal MamãeFalei, daí na sexta, o MBL, com a repercussão, acho que se deu conta de que, entre aspas, valeria a pena fazer um menor e repercutiu novamente.  Então as ofensas a mim continuaram, muito mais forte, em função dessa edição deles. A repercussão, óbvio, como eu falei, a onda de solidariedade e o apoio foram muito significativos, só por isso eu acho que eu estou bem forte.