A repórter que gosta de se reinventar

Letícia Duarte, que recebeu bolsa de mestrado do Programa Jornalista de Visão, do Instituto Ling, conta como vive na cidade de Berkeley (EUA)

  • Por: Mariana Gomes Puchalski (2° semestre) | 21/06/2017 | 0

A jornalista gaúcha Letícia Duarte, depois de atuar por 13 anos em Zero Hora, período em que ganhou o Prêmio Esso em 2012 pela reportagem Filho da Rua, hoje está estudando Inglês na cidade de Berkeley (EUA). Ela se prepara para ingressar no mestrado, após ter sido selecionada pelo Programa Jornalista de Visão do Instituto Ling de Porto Alegre.

De Berkeley, onde mora atualmente, Letícia conversou com o Editorial J contando sobre a bolsa de mestrado recebida, sua nova rotina de estudante, as razões que a fizeram decidir ser jornalista e sua grande crença na profissão escolhida. A repórter que conquistou também o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, Prêmio Embratel e o Grande Prêmio Petrobras de Jornalismo com a reportagem Filho da Rua revela como se inspira para fazer investigação jornalística em profundidade e coberturas como o acompanhamento de uma família de refugiados na ilha de Kos, na Grécia, em 2015.

Letícia não aprecia a zona de conforto. Gosta de se desafiar e ver outras realidades, o que deu a ela prêmios em muitas de suas reportagens. Começou em 2002, quando ainda trabalhava no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul (RS), quando conquistou o Prêmio Esso de Jornalismo, na categoria Regional Sul, pela série Adolescência Prostituída.

Anos depois, trabalhando no jornal Zero Hora, conseguiu espaço para fazer matérias para o caderno Especial e seguiu com seu propósito de tratar de temas sociais. Veja a entrevista em detalhe:

Editorial J – Desde a faculdade, tu já imaginavas fazer jornalismo para contar e acompanhar a história das pessoas?

Letícia Duarte – Acho que cada um escolhe a faculdade de Jornalismo por algum motivo. Para mim, foi para fazer algo que fizesse as pessoas pensarem. Para fazer certas coisas que possam talvez mudar o mundo de alguém. Se a cada reportagem feita o leitor puder se dar conta de uma realidade que ele nunca tinha visto, a partir de um trabalho nosso, acho que é um jeito de termos um impacto na sociedade.

J – Em quem tu te inspiras para fazer reportagens com profundidade?

Letícia – Acho que vamos criando ao longo do caminho influências com pessoas que fizeram e que fazem jornalismo de qualidade, pessoas que dão sua contribuição para a sociedade. Temos muitos predecessores que vamos acolhendo para criar o nosso próprio estilo. No Brasil, temos o Caco Barcellos e a Eliane Brum. Acho que estes fazem jornalismo com um foco mais social, de tentar mostrar algo com mais sensibilidade, um caminho que eu tento seguir.

J –  Como foi esse período no interior de Moçambique, Missão de Magunde?

Letícia – Por ter isso muito pessoal de querer dar uma contribuição social, eu, muitas vezes, me questionava se o jornalismo era o caminho a seguir ou se eu deveria fazer algo mais mão na massa.Então, em 2006, eu tirei esse tempo que foi uma espécie de ano sabático no Interior da África. Era um trabalho diretamente social em que eu era professora voluntária numa escola pública em um povoado pequeno. Era uma realidade bem extrema. Quando eu cheguei lá foi uma experiência muito forte pessoalmente. Mas eu também sentia saudade do jornalismo porque tudo que eu olhava eu pensava que dava uma grande matéria.

J – Como surgiu a ideia para fazer a reportagem Filho da Rua?

Letícia – Eu já fazia alguns trabalhos nessa área social, acompanhava a questão das crianças nas ruas e um dos dados que sempre me chamava atenção nas pesquisas é que essas crianças tinham famílias. Eu pensava “porque será que isso acontece, em que momento se dá a quebra desse vínculo? Por que uma criança que tem família passa a ser uma criança de rua, porque elas não voltam para casa? Por que os programas sociais não conseguem tirar essas crianças da rua se eles têm uma família?”. Então, pensei que isso seria uma matéria. O nome original da matéria era como nasce um menino de rua. A Zero Hora abre espaço para os repórteres apresentarem seus projetos. Então eu apresentei esse projeto.

J – Você acha que nesse tempo de notícias rápidas é possível fazê-las com mais profundidade?

Letícia – Tem espaço para as duas coisas. Mas acho que o verdadeiro diferencial do jornalismo de qualidade cada vez mais será produzir esse tipo de conteúdo que seja perene, que resista ao dia seguinte. Acho que não é por acaso que revistas como a Piauí, por exemplo, se consagraram como uma referência no jornalismo porque tem público para esse tipo de profundidade, claro que não é todo mundo que vai ler essas matérias. Quem se interessa pelos assuntos para entender o mundo vai querer esse tipo de jornalismo e a gente tem que ser capaz de oferecer.

J – Como foi quando você descobriu que iria ser correspondente do jornal Zero Hora para cobrir a Guerra na Síria em 2015? Como surgiu a ideia de acompanhar a família?

Letícia – Foi algo inesperado porque eu não era acostumada a fazer coberturas internacionais. Na reunião com os editores no jornal, conversamos que não seria possível cobrir tudo, pois era algo muito amplo. Então, surgiu a ideia de acompanhar uma família. Refugiados que estavam saindo e não exatamente na Síria, fazer esse caminho da jornada de fuga. O jornal me deu carta branca para ir até onde fosse possível. Na ilha de Kos, na Grécia, encontrei a família que acompanhei e, para minha felicidade de repórter, consegui chegar com eles até Alemanha com alguns percalços no caminho.

J – Você sentiu medo em algum momento nessas duas reportagens, Filho da Rua e Refugiados – Uma história?

Letícia – Sim. Acho que faz parte nesse tipo de trabalho. Eu brincava que tinham vários tipos de medo. Na matéria dos Refugiados era totalmente desconhecido como questão da língua, da cultura, de não saber para onde ia. Na Filho da Rua, muitas vezes, eu achava que tinha perdido o menino, porque ele não tinha paradeiro fixo. Teve o adicional de entrar em pontos de tráfico, locais onde se sabe que têm armas e crack. Então, teve medos de reportagem e medos concretos.

J – Tu tens contato com o menino da reportagem Filho da Rua e a família de Refugiados – Uma história?

Letícia – Sim, mantenho contato porque eu acredito que a matéria não se esgota quando é publicada. Ainda mais esse tipo de matéria que criamos vínculo com as pessoas, que se acompanha por muito tempo. Eu me sinto comprometida com aquela realidade.

J – Nessas reportagens que envolvem emoção, é possível separar o pessoal do profissional?

Letícia – Eu acho que temos que ter uma postura profissional. Mas, nesses tipos de matéria não tem como não ter envolvimento. Tento estabelecer uma relação honesta, de deixar claro que o meu papel ali é como jornalista. Acho que tem como separar certas coisas, principalmente quando eu estou escrevendo. Esse tipo de matéria só é possível porque conseguimos passar a emoção que a gente está vivendo junto.

J – Após os anos de experiência trabalhando com reportagens que envolvem contar histórias das pessoas, o que você tira de lição?

Letícia – As nossas histórias vão ser melhores quando a gente conseguir ir além dos números. Dar rosto e sentimento para as estatísticas. Jornalismo é sobre a vida das pessoas e como dar alma para isso. Eu acredito que o jornalismo deve ter alma e acho que isso é capaz de emocionar alguém.

J – Como foi passar por várias editorias da Zero Hora?

Letícia – Gosto de me reinventar e experimentar novos formatos. Acho que quando a gente vê que pode fazer coisas diferentes, estamos sempre aprendendo. Isso me motiva. Fiquei um tempo na editoria de geral, depois na política. Os personagens e os assuntos mudam, mas a essência do fazer jornalismo é sempre a mesma. A gente está ali tentando mostrar o que tem de verdade naquilo e buscando respostas.

J – No jornal Zero Hora você tinha liberdade para fazer matérias que levam mais tempo?

Letícia – Foi um caminho que veio sendo construído. À medida que se conquista confiança se consegue ganhar mais espaço para fazer as coisas. Eu fiquei 13 anos na Zero Hora e passei a ser repórter especial em 2012. Então, consegui mais tempo para produzir esse tipo de matéria por ter mostrado no Filho da Rua que eu era capaz de fazer isso.

J – Como você recebeu a notícia da seleção pelo Instituto Ling? Como foi essa seleção?

Letícia – Foi em 2016, entre maio e junho. Fiquei muito feliz. Essa seleção acontece por indicação de jornal. Tem várias etapas. Como escrever matérias, dinâmicas. É bem concorrido, porque a seleção acontece com jornalistas e repórteres do Brasil todo.

J – Como funciona o programa Jornalista de Visão do Instituto Ling, que te escolheu para a bolsa de mestrado?

Letícia – É um programa para jornalistas e tem diferentes tipos de bolsa. A bolsa de mestrado que ganhei é de livre escolha, mas como posso escolher qualquer universidade tenho que fazer os exames acadêmicos exigidos para entrar nas universidades. Quando eu for aprovada, o Instituto cobre os custos do mestrado.

J – Como foi a saída da Zero Hora?

Letícia – Foi bem emocionante e difícil porque era minha casa. Mas, achei que era o momento que eu tinha que aproveitar essa oportunidade de fazer outras coisas.

J – Você sente falta da rotina de redação?

Letícia – Está sendo bem diferente, mas é bacana poder estudar e estar mais livre. Acho que eu precisava esse tempo para ter novas ideias. Isso também alimenta minha visão jornalística de outros ângulos.