Apenas a tecnologia não melhora o jornalismo, avisa Luli Radfahrer

Enquanto comia um xis e tomava suco de laranja, sentado no bar da Faculdade de Comunicação Social (Famecos), o publicitário, colunista da Folha de São Paulo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Luli Radfahrer conversou, com o Editorial J, sobre o papel da tecnologia no jornalismo, na sexta-feira, 09 de agosto. Palestrante convidado da aula inaugural da quarta edição do curso de Jornalismo Digital, Radfahrer disse que os jornais devem se preocupar mais em formar do que informar e que a internet, considerado por ele uma nova linguagem, ainda está em fase embrionária. Confira os principais trechos da entrevista:

Editorial J – Como a tecnologia pode contribuir para que o jornalista crie um conteúdo interessante sem perder a qualidade?
Luli Radfahrer – Eu acho que está tendo uma mitificação da tecnologia, porque a tecnologia em si não melhora o jornalismo. Se o jornalista não tem um bom plano, uma boa ideia, não vai ser a tecnologia que vai melhorar. A foto colorida não é uma foto melhor do que a foto preto e branco se você não tiver um excelente fotógrafo por trás. Então, na verdade, a tecnologia habilita o jornalista a fazer uma coisa mais bacana, mas se ele não tem um bom plano, ou uma boa estrutura editorial, não vai adiantar absolutamente nada.

O público está demandando tanto o uso de tecnologias diferenciadas?
O público não demanda, mas o público, quando começa a usar, não volta atrás. Às vezes você tem dois veículos, um começou a usar uma tecnologia diferente e o outro não. Dois, três anos depois, aquele que não usou corre atrás do primeiro, porque as pessoas simplesmente mudaram o hábito. A forma como você, hoje, consome, ninguém mais senta para ler o jornal durante meia hora ou quarenta minutos. Ninguém mais faz isso. E isso era uma coisa não muito estranha há 10, 20 anos. Esse é o ponto, a mudança, quando ocorre, ela é muito rápida.

O que o impresso pode fazer para se adaptar a isso?
Com o tempo, o impresso perdeu a sua essência. O jornal, no começo, há quase 200 anos, era um lugar que trazia opinião e informação. Hoje, a internet matou a informação, eu não preciso ter informação no jornal. Resultado: o jornal ficou meio esquisito, ele tem páginas demais, conteúdo demais, e boa parte dessa informação eu posso pegar na internet. O que o modelo editorial do jornal tem que seguir? Tem que seguir coisas como vocês [Editorial J] fazem, como faz a revista a Trip, ou como fazem algumas revistas específicas, que em vez de noticiar o que acontece, tenta buscar pontos particulares, ser mais opinativo e menos informativo, que aí sim tem lugar para o jornal.

Mas os grandes jornais vão resistir a isso?
Sim. Sabe por quê? Porque a sua opinião precisa partir de algum lugar. Você precisa de um ponto de referência e os grandes jornais são pontos de referência. O problema é que eles não entenderam isso. O jornal, desde a década de 1960 para cá, foi prostituindo seu modelo editorial em cima de um negócio com publicidade, e virou um grande veículo para anúncios de publicidade. Mas se você parar para pensar, você forma a sua opinião baseado nos jornais. Conforme o tipo de jornal que você lê, ajuda a formar a sua opinião, e você pode ser o cara com a opinião mais formada do mundo. Um bom jornal é aquele que se baseia no mesmo conjunto de valores que você tem, e te atualiza com alguns fatos novos. Isso é um editorial clássico, só que ninguém mais pratica isso.

Se o jornal passasse a ser menos hardnews, não tão informativo, isso não atrasaria a produção? É possível fazer um jornal por dia com conteúdo analítico em todas as páginas?
A questão é: você precisa de um jornal por dia? O jornal é do tempo que a informação era poder. Hoje, todo mundo tem informação. O que o jornal tem que ninguém tem? O jornal tem é um saber um pouco mais significativo. Duas semanas depois, um mês após as manifestações ocorridas no país inteiro, agora, é hora de se fazer uma bela análise de tudo o que aconteceu. Olhar tudo e dizer ‘ok, qual é a leitura que a gente faz disso?’.

A indústria criativa pode modernizar esse jornal? Como você define essa indústria criativa?
Pode, com certeza. Indústria criativa é um termo amplo demais. Você pode ir para várias áreas, todas elas funcionam muito bem. Quer ver uma coisa? Ninguém gosta de estatística, ninguém falava em estatística, pois era uma coisa superchata há pouco tempo. O que a indústria criativa fez pela estatística que mudou completamente a relação das pessoas com estatística? Começa com info e termina com gráfico, o infográfico mudou a relação que a gente tem com estatística. Se eu chegasse para você com uma tabela do Excel, você iria olhar aqueles números todos e não iria absorver. A indústria criativa simplesmente reformulou aquilo tudo em forma de infográfico e um monte de gente passou a compreender muito melhor.

Você acha que as redes sociais estão enfraquecendo por que não são mais novidade?
Elas têm um ciclo de vida, são como relacionamento. No caso do relacionamento humano, você pode ter uma namorada por dois meses e acabou, porque não tinha nada para tirar daquela relação, ou pode ter um namoro que dura cinco anos e ainda está se redescobrindo. As redes sociais são a mesma coisa, elas simplesmente criam um espaço para você se encontrar com os seus amigos. Enquanto não aparecer ninguém mais fascinante, você meio que se acostuma.

A linguagem utilizada pelo twitter, como o personagem Pinguim, da Ponto Frio, que trabalha muito com bom humor e com as referências dos jovens na internet, você acha que ela vai abranger também o jornalismo? Por exemplo, a revista Capricho e o jornal Zero Hora usam linguagem da internet.
Do mesmo jeito que a linguagem é uma coisa viva, mutante, a mídia precisa interagir com as pessoas, se não se torna distante e morta. Se todo mundo usa hashtags, é natural que a mídia use hashtags também. Quando as pessoas pararem de usar hashtags, a mídia vai parar de usar hashtags. A mídia, normalmente, reproduz a gíria da época. Se você pega um texto escrito nos anos 1960, que não seja clássico, um texto mais ou menos mais leve, de comportamento, digamos, de um show que tenha acontecido em Porto Alegre nos anos 1960, você vai morrer de rir, pois o texto é hilário, porque está escrito em uma língua que você não fala mais. É muito importante sobre qualquer tecnologia você pensar um pouco antes para que eu quero isso. Por que faço essa revista? Porque as pessoas têm essa necessidade que eu quero suprir e porque o meu objetivo é suprir necessidade. Se o objetivo for melhorar o mundo, você já está muito errado, você não está fazendo jornalismo, porque você não tem um foco específico. Se você vai para os principais veículos de comunicação, de tevê, rádio, jornal, internet, e pergunta para que serve esse veículo, vai descobrir que ninguém sabe. Os caras, muitas vezes, estão completamente perdidos ali dentro.

As faculdades conseguem conscientizar os alunos em relação a isso?
Varia conforme a faculdade, e, principalmente, conforme o aluno. Muitas escolas não entenderam ainda a riqueza do mundo em volta, porque não é difícil você fazer uma escola para preparar o cara para o dia de hoje, essa escola só precisa ser centrada no valor e não no objeto. Quer dizer, como eu preparo um jornalista? Dando para ele ler excelentes textos e entender o que é a prática jornalística. Na hora que ele sabe isso muito bem, aí você dá para ele todas as ferramentas e ele faz qualquer coisa com elas. Agora, a escola não precisa ensinar Twitter. Quanto mais amplo, quanto mais rico e mais confuso for o mundo, como está hoje, mais importante se ter um centro. As pessoas mais bem-sucedidas em qualquer área sabem muito bem o que fazem. Se você pega os caras, por exemplo, do Porta dos Fundos, que fazem aquele excelente programa no Youtube, eles não são especialistas em YouTube, são especialistas em roteiro, fazem um roteiro maravilhoso, trabalham muito bem o ator, aquilo poderia ser cinema, teatro, quadrinhos. Por que o cara faz bem? Porque aquilo seria bom em qualquer meio.

A ideia de criar conteúdo voltado para internet, como Porta dos Fundos, e dizer que é uma mídia só para um determinado público é correta? Afinal, a web funciona como uma linguagem, uma plataforma ou uma mídia?
Ela pode ser todas as coisas, mas, essencialmente, o digital é uma linguagem. E não é só web, o ambiente digital tem todas as características linguísticas, é extremamente maleável, completamente dependente do sujeito, do objeto, claramente um ambiente linguístico, mas também pode servir como ferramenta. Se você já usa muito bem a língua, só precisa de um canal. Ele também pode servir muito bem de formato para emendar uma coisa a outra, mas a essência dele é uma língua. Se você não entende que o digital é uma língua, o máximo em que você pode chegar é o Porta dos Fundos, que é muito bom, mas é a teatro filmado com uma estética boa, não vai além daquilo. Quando você olha, por exemplo, o Psy fazendo Gangnam Style, aquilo é completamente diferente. Aquele coreano entendeu o que é a essência do vídeo de música. Ele pegou essa essência de uso e criou toda uma estética em cima disso. Essa estética é tão ultrajante que chega a ser divertida, parece que o vídeo bate na sua cara a todo o instante, você se acostumou com aquela garagem, o cara de terno amarelo, e aquela Ferrari, e aparece o cara em um elevador dançando e outro embaixo da perna dele. É sensacional. O Psy faz um vídeo fenomenal porque fala assim, ok, como consigo fazer isso em uma quantidade que alegra, mas não choca, isso é linguagem. O cara entendeu a linguagem da web e fez alguma coisa diferente. (A internet) É um meio muito novo, se você for pensar em mais ou menos 20 anos é normal que você ainda não tenha uma maturidade.

É uma linguagem em desenvolvimento?
Como a fotografia. A fotografia colorida passou 30 anos sendo fotografia P&B, só que agora com cor. Nada que foi feito, dos anos 1960 aos anos 1990, com fotografia colorida, não poderia ter sido feito com fotografia P&B. Por exemplo, o Instagram é um exemplo clássico de uma linguagem diferente. O Instagram não é fotografia, é uma relação diferente com o sujeito, uma relação diferente com o hábito de fotografar, parece uma mistura de uma polaroid com uma ilustração. A linguagem da internet ainda está descobrindo o que ela é. E a gente, talvez, tenha produtos que sejam mais interativos.

Não dá para dizer que a linguagem da web é uma apropriação de todas as outras linguagens?
Quando uma linguagem está em vários estágios, é porque ainda não amadureceu. Quando suas opiniões são ou as do seu pai, ou as da sua mãe, você ainda não tem opinião própria. Se você chega a essa conclusão, que as coisas na web são apropriação das outras, é porque ainda é imatura. A televisão surge nos anos 1940 e até a MTV, tudo o que estava na tevê poderia ter sido feito no rádio. A tevê era rádio filmado, até aparecer a MTV. A MTV passou a ser uma coisa tão diferente. Depois veio o CNN, que começou a enfiar câmera em tudo quanto é canto. Al-Jazira, ok, isso eu não consigo fazer no rádio. É sempre assim, o rádio era o jornal durante 30 a 40 anos, até que ele virou rádio. A tevê era rádio durante 30 a 40 anos, até que virou tevê. É meio normal isso. (A internet) Ainda não tem uma forma, tudo o que a gente está vendo são reciclagens de formas, porque a gente está ficando cada vez mais rico, cada vez mais poderoso, mas tudo isso aqui ainda é embrião para aquilo que pode ser realmente legal. Enquanto você ver uma mídia que pode ser reproduzida na mídia anterior, é que ela ainda não exerceu o seu potencial completo.

Onde vai terminar esse estágio embrionário?
O que é fascinante na internet é que ela é um veículo para a manifestação de ideias, que são, por sua natureza, infinitas. O que vai acontecer? A gente vai chegar num limite, e, ao mesmo tempo, inventar uma tecnologia que possa esticar esse limite. Quer ver uma coisa? Hoje em dia, você conhece cada vez mais aquele cara que é músico e sociólogo. É muito louco. Na minha geração, se eu falasse que um cara é músico e sociólogo, em um dos dois ele é uma merda. Ou ele nunca foi bom músico, ou ele não é um grande sociólogo. Hoje é normal porque a geração cresceu com a internet, então cresceu com uma riqueza de estímulos muito grande. Você olha para todos os caras que admira, Meryl Streep é só atriz, o Bono Vox é só músico, que merda. No máximo, o cara é modelo e atriz. Imagina que legal a hora que a gente começar a consumir um tipo de mídia feito por um cara que é sociólogo e fotógrafo, e o cara faz um filme. Como é um filme feito por um sociólogo fotógrafo? Deve ser muito louco. O primeiro deve ser uma merda, agora imagina a hora que tiver uma categoria de 100 mil sociólogos fotógrafos, daí você vai ter um gênio no meio deles. Você vai ver uma coisa que nunca viu antes. Por isso é muito difícil colocar um limite, porque a gente está expandindo. É muito ridículo achar que a máquina vai substituir a mente humana. Não vai.

Como fica a mente humana no meio disso?
A mente humana precisa de um psicólogo. Mas eu acho que nunca foi tão legal. Seria uma mistura de duas coisas, seria mais poderes e mais demandas. Se você aumentar os poderes e se você desconectar o modelo da demanda, você vai ter mais poderes com menos demandas, você vai poder fazer mais coisas, vai ser muito legal. O problema, hoje, não é que o excesso de informação, mas é o que guardar de informação. A gente vai passar a ter uma relação mais leve com as fontes de conteúdo na hora que a gente souber que elas estão ali mesmo. Aquilo que nos olhos de hoje parece uma futilidade em relação ao conteúdo, na verdade será uma abordagem para você não ficar louco. Existe muito conteúdo disponível que estará disponível o tempo todo, na hora que eu quiser eu me aprofundo. Qual é a minha primeira visão? Visão mais ampla. Sabe aquela história do momento em que você toma consciência de que não precisa saber tudo, só o suficiente. A própria ideia de saber tudo é arrogante, ultrapassada e errada, você não vai saber tudo.

Texto: Anna Fernandes (8º semestre) e Douglas Roehrs (6º semestre)

1 comentário

  • Parabéns pela entrevista.
    É sempre bom ler as idéias e opiniões
    do Prof.Luli Radfahrer

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