Nem tão pop assim

A liberação de muitos tipos de agrotóxicos no Brasil e seu uso indiscriminado levantam questões de saúde e de meio ambiente

  • Por: Manuela Neves (5º semestre) e colaboração de Nádia Probst (4º semestre) | Foto: Marília Guilhermano (4º semestre), Nícolas Chidem (7º semestre) e Isabella Schmitt (1º semestre) | 05/06/2019 | 0

São 27 os tipos de agrotóxicos detectados na água que abastece 1396 municípios brasileiros em pesquisa feita entre 2014 a 2019. Destes, 21 são classificados como altamente perigosos ou altamente tóxicos pela Pesticide Action Network (PAN) e 16 como extremamente ou altamente tóxicos pela Anvisa. Algumas das cidades com contaminação múltipla são São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas. Ainda, a quantidade de tais químicos permitida no Brasil é bem superior ao autorizado na União Européia. Os dados foram divulgados em abril pela Pública, agência de jornalismo investigativo.

Certos agrotóxicos são reconhecidamente causadores ou possíveis responsáveis pelo câncer. O médico gastroenterologista Antônio Carlos Weston utiliza como exemplo o inseticida do tipo organofosforado. “É importante observarmos que os agrotóxicos podem representar riscos para a saúde em geral e estão relacionados à exposição crônica e por muito tempo. Em relação a um tipo, os organofosforados, utilizados em controles de pragas, podem causar dano hepático ou renal grave ou em alguns casos câncer”, explica Weston. No caso deste pesticida, os principais cânceres provocados são os ligados aos sistemas sanguíneo e linfático. No geral, há agrotóxicos passíveis de causar, além de câncer, malformação fetal e disfunção hormonal e reprodutiva.

No caso de trabalhadores, é possível que surjam doenças ligadas às vias respiratórias, tais como pneumoconioses, bronquites crônicas e doenças pulmonares crônicas, como explica Weston. Isso está relacionado especialmente à falta de uso dos equipamentos de segurança no momento da aplicação do produtos. A adoção dos equipamentos está prevista nas recomendações técnicas do Receituário Agronômico (documento emitido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia – CREA – de cada estado). Além disso, existem cursos e treinamentos específicos para o manuseio de agrotóxicos. No entanto, estes não são obrigatórios e não há monitoramento dos produtores.

Hildemar José Piber, de 65 anos, mantém uma chácara com plantação de pêssego, berinjela, bergamota, ameixa, tomate e nabo, na Zona Sul de Porto Alegre. O produtor rural trabalha em chácara desde os oito anos, seguindo seu pai. Hoje recebe ajuda de seus filhos, quandos estes não estão trabalhando, de um funcionário fixo e outro provisório. José Piber explica que o produto que mais utiliza é o Decis, que possui o período de carência ou intervalo de segurança de 10 dias. “Tem que ter controle. Se a carência é de dez dias, tem que deixar dez dias. Não cinco dias e já aplicar de novo”, salienta o agricultor. Quanto aos equipamentos de segurança, ele comenta que não veste alguns por relaxamento, como a capa. Contudo, sempre faz uso das máscaras e das botas, que, segundo o próprio produtor protegem as vias respiratórias da ingestão dos agrotóxicos e do contato direto com os pés. Ele explica que os agrotóxicos são necessários para a plantação, pois caso não os utilize suas frutas e verduras ficam “bichadas” e apodrecidas na hora da colheita.

Hildemar Piber guarda algumas máquinas e equipamento em seu “quarto da bagunça”

José Piber recebe as orientações e tira suas dúvidas no local onde faz as compras. Lá existe um agrônomo que escreve a receita do agrotóxico na própria embalagem. A agropecuária é também o lugar para o qual ele devolve as embalagens após aplicação. Para ele, deveria haver mais apoio aos agricultores por parte dos governos e mais participação, indo nas propriedades e indicando os químicos corretos, por exemplo. Mesmo sem esse cuidado dos órgãos governamentais, ele mesmo toma medidas de precaução, não aplicando de acordo com o vento ou próximo às casas da região. “É veneno, a gente que diz não é, mas é. A gente usa o termo defensivo, mas ele é um defensivo que se mata os insetos, ele sempre vai te prejudicar uma coisa”, defende o dono da chácara.

Os agrotóxicos que são usados em plantações não se resumem àqueles borrifados pelos agricultores. Os químicos também podem ser aplicados previamente em sementes, contendo ou não os mesmos princípios ativos que os outros. Ainda, é relevante ressaltar que as sementes tratadas com agrotóxicos são diferentes das transgênicas. As últimas são modificadas geneticamente, podendo posteriormente receberem agrotóxicos. De acordo com Bernardo Luiz Palma, engenheiro agrônomo do Conselho Regional de Engenharia e Agricultura do Estado (CREA-RS), as sementes que receberam agrotóxicos têm indicação na embalagem informando os produtos utilizados. Porém, mesmo com as indicações, a professora Betina Blochtein, da Escola de Ciências da PUCRS, enfatiza que os produtores nem sempre sabem desse tratamento.

Vale destacar que os riscos dos agrotóxicos não se limitam à saúde humana, afetando também outros seres e ambientes. De janeiro a março deste ano, 500 milhões de abelhas morreram por conta de agrotóxicos em quatro estados brasileiros, sendo 400 milhões somente no Rio Grande do Sul. Os dados são das Associações de apicultores, das secretarias da Agricultura e de estudos acadêmicos do Rio Grande do Sul, de São Paulo, de Santa Catarina e do Mato Grosso do Sul.  Os tipos causadores da mortalidade de abelhas em geral são os pesticidas, fungicidas e herbicidas. O contato desses insetos com o produto pode ser diretamente na plantação, ao irem polinizar plantas em floração, através de sementes previamente tratadas ou em razão da deriva – uma nuvem com pequenas partículas de agrotóxico. A deriva acontece por conta de uma corrente de vento ou quando a pulverização dos produtos é feita de uma altura muito elevada, podendo ir para a lavoura, detalha Betina.

Somente no Rio Grande do Sul há cerca de 600 espécies de abelhas nativas

No caso das sementes, a substância aplicada se espalha à medida que a planta cresce, chegando ao pólen e néctar e, por consequência, nas abelhas. Dependendo da dose de químicos recebida pela abelha, esta pode morrer ou sofrer intoxicação. Nesse último caso, tais polinizadores podem ficar desorientados, com dificuldade de locomoção e de retornar às suas colmeias.

No Brasil, conforme Palma, para um agrotóxico ser aprovado é preciso passar pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O engenheiro agrônomo detalha que “cabe ao Ibama a realização de um dossiê ambiental, no qual é avaliado o potencial poluidor do produto. Ao Mapa é atribuída a responsabilidade de avaliar a eficiência e o potencial de uso na agricultura, por meio de um dossiê agronômico. Enquanto isso, a Anvisa realiza o dossiê toxicológico, avaliando o quão tóxico é o produto para a população e em quais condições o seu uso é seguro”.

São proibidos os registros de agrotóxicos que o Brasil não disponha de métodos para desativação de seus componentes, de modo a impedir que os seus resíduos remanescentes provoquem riscos ao meio ambiente e à saúde pública; não possuam antídoto ou tratamento eficaz no país; revelem características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, de acordo com os resultados atualizados de experiências da comunidade científica; provoquem distúrbios hormonais, danos ao aparelho reprodutor. Também não são permitidos aqueles que, de acordo com procedimentos e experiências atualizadas na comunidade científica; se revelem mais perigosos para o homem do que os testes de laboratório, com animais, tenham podido demonstrar, segundo critérios técnicos e científicos atualizados; ou possuam características que causem danos ao meio ambiente.

No entanto, um problema no teste toxicológico feito pela Anvisa para avaliar o impacto especificamente em abelhas é o fato de ser realizado em uma espécie não nativa. A questão foi inclusive abordada em um documento do Ibama, visto que seria muito mais benéfico realizar o teste em abelhas nativas do Brasil, que são mais sensíveis comparadas a apis mellifera, utilizada atualmente.

A mortalidade de abelhas também está ligada à perda do valor nutricional dos alimentos que dependem delas como polinizadores. Quanto melhor polinizado o alimento, mais nutrientes ele vai conter. Dessa forma, os agrotóxicos agem de duas maneiras na redução do valor nutricional: ao contribuir para a morte das abelhas e agindo diretamente nos alimentos. A nutricionista clínica e membro da diretoria da Associação Gaúcha de Nutrição (AGAN) Lisete Souza diz que “o valor nutricional de um alimento depende da sua composição, da quantidade de nutrientes que serão absorvidos e utilizados pelo organismo vivo que o ingere”. A nutricionista completa indicando diversos estudos que comprovam uma diferença expressiva entre a composição de alimentos orgânicos e convencionais em relação ao valor nutritivo.

As Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa-RS) fazem o monitoramento e a fiscalização dos produtos de hortifruti lá comercializados. Para isso, são recolhidas 200 amostras de produtores de 40 atacadistas a cada ano. Os alimentos selecionados variam todos os anos, sendo definidos pelo Grupo Técnico Alimento Seguro. “Dentro desse grupo, um dos trabalhos principais é manter os indicadores. Os indicadores são as análises laboratoriais de resíduos desses hortifrutigranjeiros. Então o grupo determina a cada ano um rol de produtos e se faz a coleta de amostras, a Ceasa acompanha”, ressalta Claiton Colvelo, gerente técnico da mesma.  

Além disso, os alimentos só podem entrar na Ceasa com nota fiscal e outros dados de identificação – quem é o produtor ou o vendedor, de qual cidade vem, etc. Dessa maneira, é possível realizar a rastreabilidade. Esse conjunto de informações permite identificar toda a cadeia produtiva de um certo insumo: produção, armazenagem, consolidação de lotes, embalagem, transporte, distribuição, fornecimento e comercialização, tanto dentro do território nacional como para importações. O processo auxilia na identificação das partes responsáveis caso algum alimento esteja fora dos padrões da Anvisa e punições precisem ser aplicadas. O rastreamento de produtos é detalhado na Instrução Normativa nº 2, publicada pela Anvisa em 2018, citando no final do documento as duas leis para possíveis punições. De acordo com Colvelo, na Ceasa as amostras que excedem o limite máximo de resíduos são os casos menos encontrados nas fiscalizações. O mais comum são produtos químicos não autorizados para aquele tipo de cultura. Mesmo assim, há a possibilidade de comprar alimentos com resíduos de produto.

É do pavilhão de produtores que as amostras para análise laboratorial são retiradas

A nutricionista Lisete destaca que entre não consumir frutas e verduras e consumi-las com agrotóxicos, o melhor é a segunda opção. Ela explica que há estudos indicando maior expectativa de vida para as pessoas que consomem esses tipos de alimentos, mesmo com a presença dos químicos, quando comparadas àquelas que não ingerem frutas e verduras. Isso acontece pois os alimentos têm presença de vitaminas, minerais e compostos bioativos necessários para reações químicas no organismo e essenciais para a detoxificação do fígado para eliminar diariamente compostos nocivos (agrotóxicos, medicamentos, poluição, etc).

Ainda, é possível reduzir de 60% a 70% os resíduos de agrotóxicos somente lavando adequadamente em casa. O recomendado é lavar primeiro em água corrente com uma esponja ou escova e depois utilizar água, vinagre de álcool e, dependendo do que será lavado, bicarbonato de sódio. Como cada alimento reage de maneira diferente, é preciso pesquisar o processo adequado de lavagem individualmente. Folhas verdes amarelam com o bicarbonato de sódio e certas frutas não podem ficar muito tempo de molho, por exemplo.

    Quanto à aplicação de agrotóxicos, Lisete alerta “que o uso indiscriminado como ocorre hoje não é mais possível, as consequências já estão sendo visíveis na saúde humana e no ambiente. Existe, sim, uma alternativa viável, mas é necessária muita vontade política e investimentos, principalmente em assistência técnica aos produtores rurais, que não dominam o sistema de produção orgânica e tem medo de grandes perdas”. Não existe uma solução a curto prazo, entretanto a produção orgânica cresce nos últimos anos, mesmo que ainda seja mais aplicável em pequenas propriedades e em plantações de frutas e verduras.

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