Anna Karenina: mulher complexa e enredo trivial

Adaptações de consagradas obras da literatura para o cinema ocorrem com frequência e comparações com o original são inevitáveis. É com esse olhar que o Sala J de Cinema dessa semana se debruça sobre o filme Anna Karenina, do diretor Joe Wright, baseado no livro homônimo do escritor russo Liev Tolstói. Na sua sexta adaptação cinematográfica, a atriz Keira Knightley vive o papel da protagonista já interpretada por Sophie Marceau, Vivien Leigh e a lendária Grete Garbo.

O enredo trata sobre o drama de uma mulher que aparentemente possui tudo, uma família amada, beleza, riqueza e status, mas se sente vazia diante de um casamento sem amor com Alexei Alexandrovich Karenin, homem respeitável e admirado por todos. Ao conhecer o jovem Conde Vronsky, Anna abdica do seu conforto para se entregar a uma arrebatadora paixão e enfrentar todo o repúdio da sociedade tradicional da Rússia Czarista.

A história já é amplamente revisitada, mas ganha uma roupagem técnica nova, apropriada para os dias de hoje. As cenas do filme se intercalam em um ambiente teatral com cenários móveis. Toda a sociedade representa um teatro de modos e bons costumes da aristocracia russa do século XIX. No entanto, no decorrer do filme, em determinadas cenas, se perde esse padrão estético, parecendo apenas um exercício estilístico do diretor. De qualquer forma, a sincronia da passagem de planos e a bela fotografia do filme tornam esse, um efeito interessante.

Mais do que a costumeira narrativa envolvendo um triângulo amoroso, o que chama a atenção no filme de Joe Wright é justamente a beleza da fotografia e a perfeição dos figurinos, duas categorias ganhadoras do Oscar 2013.

Em tempos atuais, de penetração da mulher no mercado de trabalho e amplos direitos adquiridos, a história da controversa Anna Kerenina pode parecer pouco pertinente ao abordar o peso da entrega a um amor proibido em uma sociedade tradicional arcaica, onde o divórcio ainda era visto como uma aberração. No entanto, seus conflitos continuam causando opiniões divergentes. Não existe apenas um viés interpretativo para a personagem de Tolstói, Anna Karenina é vista por alguns como uma mulher ingênua, que idealiza o amor e busca a felicidade na figura do jovem e belo Conde Vronsky e, é tida por outros, como uma mulher corajosa e decidida. Para o professor de letras da PUCRS, Biagio D’Angelo, Anna Karenina engloba essa duplicidade e isso é o que a torna um personagem complexo e singular.

Contexto histórico

Anna Karenina gira em torno de São Petersburgo e Moscou no ano de 1874. O drama principal se passa no cerne da alta sociedade de uma Rússia Czarista em declínio, ainda com resquícios de sociedade feudal e altamente composta por uma classe crescente de campônios chamados mujiques.
Apesar de não ser o enredo principal, essa questão é tratada no livro e, de forma mais sutil, no filme.

Uma nova possibilidade de convivência com os mujiques é abordada na obra de Tolstói. No filme, a vida bucólica parece ser uma espécie de salvação do homem. Em uma das relações paralelas, após ser preterida por Vronsky, a fútil personagem Kitty aceita a segunda opção de casamento que lhe aparece, com o proprietário rural Constantine Levin. Apesar de não ser o casamento que sua mãe gostaria para a filha, o casal encontra a felicidade na vida simples, retirada dos julgamentos de conduta da sociedade e das grandes cidades, ao contrário de Anna, que insiste em enfrentar os cruéis valores citadinos.

Livro x Filme

É possível transpassar com plena fidelidade para o cinema todo o poder de um livro de quase mil páginas? Muitos acreditam que não. “São campos epistemológicos diferentes”, alerta D’Angelo. Se atendo ao filme Anna Karenina, obviamente diversos trechos do livro foram cortados na adaptação do roteiro visando não tornar maçante sua versão cinematográfica.

Por vezes, no filme de Joe Wright, grandes pulos são dados, como no caso da conciliação de Karenin com sua mulher após ela ter dado a luz ao filho do amante Vronsky e acreditar estar morrendo. O perdão de Karenin parece um tanto precipitado, cômico, quase tolo e sem sentido no filme se comparado a situação relatada no livro e à complexidade da personagem, o que pode levar Anna Karenina a ser percebida apenas como uma mulher aborrecida e egoísta.

Ficha técnica

Ano de lançamento: 2012

Gênero: Drama

Diretor (s): Joe Wright

Roteirista (s): Tom Stoppard e Leo Tolstoy

Produzido por: Tim Bevan, Liza Chasin e Alexander Dostal, entre outros

Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Kelly Macdonald, Matthew Macfadyen, Guro Nagelhus Schia e Holliday Grainger, entre outros

Duração: 129 minutos

Idioma (s): Inglês

País (s): Reino Unido

Filmado em: Inglaterra e Rússia

Cor: Colorido

Distribuidora: Universal Pictures

Produções anteriores

• Anna Karenina, filme de 1935
• Anna Karenina, filme de 1948
• Anna Karenina, filme de 1985
• Anna Karenina, filme de 1997

Texto: Marcelo Coelho de Souza

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