Antissociais: o transtorno por trás de sua incapacidade afetiva

Com a sua falta de sentimentos, os antissociais não sentem remorso algum

  • Por: Manuela Neves | 27/03/2018 | 0

Muito conhecidos pelo termo psicopatas, esses indivíduos são classificados
dentro de outra terminologia: antissociais. São “pessoas que tem uma dificuldade ou
uma intolerância em aceitar regras sociais. Por exemplo, são pessoas que não têm
problema nenhum em roubar, em ultrapassar os limites de velocidade, em furar fila”, diz
a psiquiatra Malu Macedo. Importante ressaltar que todos os psicopatas são antissociais,
mas nem todos os antissociais são psicopatas – tanto que os casos mais leves podem ser
encontrados no meio político e em altos cargos empresariais.

O Transtorno de Personalidade Antissocial tem como principal característica a
falta de culpa. Assim, a pessoa não se apresenta remorso ao desconsiderar os outros para
atingir seus objetivos, ferir fisicamente ou até mesmo matar. Desse modo, o antissocial
é alguém desadaptado socialmente e que faz jus à expressão “coração de pedra”, pois
“tem o afastamento do afeto e da capacidade de sentir a dor do outro e suas próprias
emoções”, nas palavras do psicólogo Leonardo Cabral. Além de não sentir compaixão
pelo sofrimento alheio, também é possível que apresente sadismo, ou seja, apreciar a
dor e sofrimento dos demais.

Através de estudos de imagem e ressonância ao longo dos anos, foi possível
perceber que a região cerebral prejudicada em tais indivíduos é o córtex pré-frontal,
responsável pelo juízo crítico. Consequentemente, também são ótimos em mentir, visto
que a noção de certo e errado não é algo que os antissociais conseguem absorver. Com
sua habilidade de enganar, tais pessoas podem parecer interessantes e atraentes e não
apresentar traços de algum transtorno. No entanto, dificilmente mantêm relações com
outras pessoas, a não ser que seja de poder, pois precisam sempre estar no comando. Tal
necessidade de estar acima dos demais deve-se ao fato de que os indivíduos com o
transtorno se veem como superiores. A partir desta noção, não obedecem às leis.

Os traços do transtorno podem ser percebidos desde a infância e adolescência,
porém o diagnóstico só é feito a partir dos 18 anos. Quando crianças e adolescentes, já
desafiam pais e professores, são agressivos com colegas, maltratam animais e roubam.
É durante a faixa etária dos 15 aos 18 anos que se tem o maior cuidado em observar os
traços mencionados, que configuram um transtorno de conduta. Assim, não é algo
repentino, estrutura-se com o tempo na personalidade. No entanto, é possível que essa
conduta seja amenizada caso a criança viva em um ambiente amoroso com uma família
cuidadosa – como é igualmente possível que o quadro seja agravado em ambiente de
violência doméstica e de abuso à criança. De acordo com a psiquiatra Malu, “existem
fatores genéticos e ambientais e é a interação dos dois que acaba formando o transtorno
de personalidade”. Assim, o ambiente é capaz de ajudar a sublimar os traços do
transtorno em algo positivo, como por exemplo tornar-se um neurocirurgião, uma
profissão na qual é preciso certa frieza. Fatores genéticos também estão envolvidos. O
quadro antissocial é mais comum nas pessoas que têm parentes de primeiro grau com o
Transtorno de Personalidade Antissocial do que na população em geral.

O diagnóstico do Transtorno de Personalidade Antissocial é complicado pelo
fato de que os portadores do transtorno nunca procuram ajuda médica, pois para eles seu
comportamento não apresenta nada fora do normal. Portanto, para se chegar até um
antissocial é normalmente pelo intermédio de um juiz, quando o indivíduo está no
sistema prisional, ou quando adolescente, por intermédio da família do paciente.

Para ser realizado o diagnóstico, o indivíduo deve apresentar pelo menos quatro
características de tal transtorno descritas no manual DSM-5. Resumidamente, estes
critérios são: desrespeito e violação dos direitos alheios (neste critério estão inclusos
sete outros), ter no mínimo 18 anos de idade, ter apresentado Transtorno de Conduta
antes dos 15 anos de idade e que a ocorrência do comportamento antissocial não seja
fruto exclusivo de episódios de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco. Tendo preenchido
essa primeira avaliação, o profissional irá fazer uma entrevista com o antissocial, a fim
de avaliar o juízo crítico, o juízo de realidade e as funções do ego deste. Todavia, o
psiquiatra Carlos Augusto Ferrari diz que, neste momento, esses entrevistados tendem a
contar uma história muito mais “cor de rosa”, pois, em suas palavras, o antissocial “tem
uma interpretação de que os outros é que estão errados, os outros é que estão o
ameaçando, o estão provocando”. Logo, alguns traços são percebidos a partir da fala dos
familiares e daqueles que vivem próximo ao paciente.

Dependendo da situação na qual se encontra o indivíduo, no seu diagnóstico
podem estar envolvidos psiquiatra, psicólogo, assistente social, pedagogo, juiz e
assistente do juiz, obtendo vários olhares distintos que se somam. Infelizmente o
transtorno não possui cura ou tratamento eficaz e por isso os que apresentam casos mais
graves precisam ficar em ambientes de controle extremo como penitenciárias, pois
podem ser perigosos para outros.

Deixe um comentário