Argo retrata episódio que provocou o início da crise entre Estados Unidos e Oriente Médio

O Cine J começa a dissecar contextos históricos abordados nos cinemas com a obra que arrebanhou três estatuetas no último Oscar, incluindo a premiação de melhor filme. O americano Argo, produzido e estrelado por Bem Affleck, é praticamente incontestável como obra cinematográfica. O enredo bem construído relatou um conflito internacional de maneira envolvente e conquistou as academias de Golden Globe Awards e Critics’ Choice Award, além de fãs pelo mundo. Mundo que, passado o fervor pós-Oscar, se perguntou: qual a veracidade dos fatos abordados do filme?

Ouça o Cine J de Cinema sobre o filme Argo

Apresentado em um contexto de efervescente crise entre Estados Unidos e Oriente Médio, o filme conta o fato que que deu ponto de partida às relações nada amistosas entre americanos e iranianos, inimigos políticos até os dias de hoje. Amparado em arquivos da CIA revelados apenas no final dos anos de 1990, Affleck apresenta em 121 minutos a história de seis diplomatas americanos que tentam escapar de um país em ebulição, onde toda a população os considera inimiga da nação.

A obra inicia em quatro de novembro de 1979 quando uma onda repressora de militantes islâmicos invade a embaixada norte-americana na caça dos diplomatas, que conseguem escapar e ficam hospedados na embaixada canadense até serem salvos por um agente da CIA. Interpretado por Affleck, o infiltrado consegue retirá-los do país alegando na imigração que o grupo pertence a um elenco de um filme de ficção científica.

A história baseada em relatos documentados pela CIA não causaria estranhamento, não fosse envolver outros dois países nada satisfeitos com a abordagem dos fatos. Tanto canadenses quanto iranianos fizeram duras críticas à superprodução. O governo do Irã chegou a afirmar que processaria Hollywood pelo que consideram um “retrato irreal” da cultura islâmica.

Embora revelados para os produtores de Argo, ter em mãos o conteúdo descrito no documento revelado pela CIA é privilégio de poucos. Diferir com exatidão o que realmente ocorreu em naquele período em que eclodia a revolução islâmica do que foi fruto da imaginação de Ben Affleck é quase impossível. Contudo, segundo o professor de sociologia da PUCRS, Hugo Arend, a obra não se propõe a isso. Na sua visão, o filme representa um olhar unilateral e americano dos fatos e tem por objetivo aventar um debate: qual a responsabilidade do estado sobre sua população?

“Nos filmes com o contexto histórico nos Estados Unidos o que normalmente acontece é que o contexto é usado como pano de fundo para uma questão que será abordada. No caso do Argo, o que está em questão não é veracidade da revolução iraniana ou como os reféns foram tirados do Irã. O clímax do filme é quando o governo americano corta a operação e o protagonista diz que eles tem responsabilidade sobre aquelas pessoas”, afirma o professor.

Um conflito de reflexos internacionais

Recém derrubado pela revolução iraniana, o xá Mohammad Reza Pahlevi, que governava o país sob forte influencia americana desde um golpe de estado financiado pela CIA em 1953, havia ganho asilo político nos Estados Unidos quando a embaixada foi tomada por militantes, irados com seu refúgio. A lacuna deixada pela descentralização do poder terminou quando o aiatolá Ruhollah Khomeini retornou de seu exílio na França para liderar uma massa insuflada a derrubar qualquer influencia ocidental que passasse sobre seus olhos.

As revoltas foram um grito de liberdade de uma população que há anos era governada de maneira opressora e obrigada, forçosamente, a se ocidentalizar. O país vivia uma forte crise econômica e a inflação subia a galopes. No princípio dos anos de 1970, quando escândalos de corrupção já eram de conhecimento do povo, a opressão aumentou nas ruas e a revolta encorajou a população a lutar contra então regime. A situação governista se tornou praticamente insustentável e em 1979 Pahlevi deixou o país substituído por Shapour Bakhtiar, que veio a permanecer no poder por pouco mais de um mês. A partir da retirada de Bakhtiar, Argo começa a ser contextualizado, no período de maior fervor dos movimentos populares em Teerã

Eleições americanas decididas no Irã

O insucesso do então presidente norte-americano Jimmy Carter na primeira tentativa de deportar os reféns do Irã, denominada operação Operação Eagle Claw, pode, segundo analistas políticos, ter sido uma das causas de sua derrota política para republicano nas Ronald Reagan na eleição presidencial de 1980. O fracasso deu ares derrotistas aos últimos dias de Carter no poder.

Uma revolta de todos

Historiadores dividem a Revolução Iraniana em momentos. O primeiro, da tomada ao poder, é considerado um movimento verdadeiramente popular, com a integração de líderes de diversos segmentos sociais na tentativa de derrubar o xá. Grupos religiosos, intelectuais e líderes de esquerda se reuniram para realizar uma série de manifestos – dentre eles o apresentado no filme.

Após a tomada do poder o país foi liderado por aitolás dando início a uma revolução verdadeiramente islâmica e de oposição radical aos Estados Unidos.

A maioria não escapou

Apesar do retorno dos seis diplomatas aos Estados Unidos, a maioria dos que trabalhavam na embaixada não conseguiram escapar da casa cerca de iranianos no dia 4 de setembro de 1979. Dezenas dos que trabalhavam na casa ficaram sob poder dos iranianos, que os massacraram e torturam por 444 dias.

Khomeni no poder até 1989

Ruhollah Khomeini permaneceu como liderança política e religiosa no Irã até falecer em 1989. O Aiatolá teve grande influência religiosa sob a população e os primeiros-ministros que governaram o país. Fundador do Estado Islâmico, Khomeini é idolatrado até os dias de hoje no país como uma figura simbólica da libertação iraniana de um governo ocidentalizado.

Mahmoud Ahmadinejad, atual presidente do Irã, é da religião xiita, liderada por Khomeini no passado, que hoje tem na figura do Aiatolá Ali Khamenei sua grande liderança viva.

Conheça mais o Oriente Médio nos livros:

• Arabia Without Sultans (Fred Halliday, especialista britânico em Oriente Médio)
• O Oriente Médio – Do Advento do Cristianismo aos Dias de Hoje (Bernard Lewis, britânico com obras de visão neo-conservadora)
• A Crise do Islã (Bernard Lewis)
• Pobre Nação: As Guerras do Líbano no Século XX (Robert Fisk, correspondente do jornal The Indepent no Oriente Médio. Pro-Árabe, Fisk é um dos maiores conhecedores da região)
• Orintalismo (Edward Said, um dos autores mais renomados da área)

Texto: Vinicius Fernandes (7º semestre)

1 comentário

  • bianka
    14:22

    gostei de tudo isso ensina bastante tendeu ><

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