As dificuldades para as bandas emergirem no cenário gaúcho

As bandas gaúchas, que estão surgindo no cenário independente do Rio Grande do Sul, estão tendo que conseguir outros meios para serem valorizadas

  • Por: Carolina Vicari (2º sem.) | 15/12/2016 | 0
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Foto: M.B. Ourique

Embora tenham encontrado na internet uma boa ferramenta para a divulgação de seus trabalhos, artistas musicais independentes ainda enfrentam uma série de problemas para se desenvolver. De acordo com músicos da cena independente de Porto Alegre, os principais obstáculos dizem respeito a casas de show e ao público. Segundo Pedro Mariano Wortmann, baixista da banda Cartolas, essa situação teve aumento principalmente após os acontecimentos da Boate Kiss, quando muitos lugares tiveram de fechar. Diante disso,  a quantidade e qualidade dos lugares disponíveis ficou prejudicada.

As principais reclamações de artistas junto bares e casas de show em Porto Alegre são relacionadas a pagamentos, infraestrutura e disponibilidade. ”As casas sabem que nós dependemos delas e, assim, acabam por não se esforçar para melhorar o cenário” conta Leonardo Braga, baixista da banda Alpargatos. Os ambientes da cidade que têm uma preparação para receber bandas são muito limitados e, em sua maioria, concentram-se na Cidade Baixa.

Para receber shows ao vivo, um estabelecimento precisa arcar com muitos custos diferentes, em razão da quantidade de pessoas necessárias para o funcionamento razoável do local, desde o operador de som ao garçom.  Desse modo, alguns preferem não executar os pagamentos, ou deixam de investir em infraestrutura, por saberem que os grupos não conseguirão tocar em outro lugar. Eles tendem também a preferir bandas covers, com a justificativa de que o público é maior. As próprias bandas autorais recusam convites em casas que pedem que metade do show seja tributo a um artista.  

A banda Cartolas está presente há 15 anos no cenário gaúcho. Em outubro de 2016, quando tocou na Argentina e Uruguai, notou que a principal diferença  dos cenários foi a receptividade do público. “A gente ficou impressionado que as pessoas estavam animadas com as nossas músicas, sendo que muita gente foi só para o show da banda principal que estávamos abrindo.” ressalta Pedro Petracco, baterista da banda. Esse mesmo fato ocorreu com a banda Fire Department Club, que tocou em festivais nos Estados Unidos e Canadá. “As pessoas vibravam com a gente sem nem nos conhecer”, conta Gabriel Gottardo, tecladista da banda. “Os principais problemas das pessoas da nova geração são irem para o bar, ficarem bêbados e não apreciarem a música ao vivo que toca”, completa o estudante e professor de Música.

Para continuar no cenário, muitos grupos musicais estão tendo que tocar em conjunto para conseguir se sustentar. Eduardo Comerlato, guitarrista da banda Bordines, comenta que isto não é necessariamente um problema: “Nós acreditamos que a união apenas beneficia para todos, principalmente no cenário atual. Ficamos muito felizes quando vemos alguma banda amiga conquistando algo ou fazendo show, por nos sentirmos parte de uma cena, que muita gente diz que não existe, mas tá aí.” Esse acontecimento está ligado ao fato de que quanto mais bandas, maior é o público, principalmente de amigos (que são os maiores frequentadores dos shows, de acordo com integrantes das bandas). Isso facilita as bandas a pagarem despesas do show e terem um maior espaço com diferentes audiências

“Música não dá dinheiro”, enfatiza o baterista da banda Great Way To Get Money, Eduardo Cury Teixeira. “Para ganhar dinheiro no Brasil com isso, ou você vira professor de música, como o baterista da banda Cachorro Grande (Gabriel Azambuja), ou conhece alguém famoso que te ajuda a crescer. Começar do zero é muito difícil”, completa o músico que faz parte de três bandas e, mesmo assim, tem um trabalho na área de engenharia elétrica. A ausência de lucro acontece pelo fato de a estrutura das bandas normalmente ser cara, necessitando de fotógrafo, assessor de imprensa e locação do estúdio para gravações e ensaios. Além de, muitas vezes, terem de arcar com a infraestrutura que falta do local onde apresentam os shows, como cabos e técnicos de som.

Atualmente, para serem reconhecidos, os conjuntos têm de empenhar-se em pelo menos um EP para a banda ter conteúdo na internet. Mesmo o CD sendo mais valorizado, eles precisam se lançarem nas plataformas digitais especializadas em música, como o Spotify e YouTube. Elas têm sido a principal forma de difusão do conteúdo musical, pela facilidade de acesso. Elas remuneram artistas em dinheiro com base em número de reproduções de músicas, no caso do Spotify e em um valor a cada mil impressões de anúncios (CPM), no caso do YouTube. Porém, essas plataformas não geram muito lucro se o músico não for muito popular e, quando são, a remuneração pode vir, também, em forma de ajudas. De acordo com a banda Cartolas, o pagamento para o show em São Paulo foi feito pelo Spotify.

Alguns afirmam que estes casos na verdade são representativos de todo um contexto em que falta incentivo à música. “Isso é a ponta do iceberg de algo muito maior, que diz a respeito ao papel da música e da cultura na sociedade. O quanto isso é incentivado na escola, pelos governantes, por exemplo. Nosso país não tem um grande encorajamento para isso. Você recebe mal pra tocar, não se aperfeiçoa porque não vai deixar tua vida depender daquilo e, assim, vira um ciclo vicioso.” explica Felipe Kautz, guitarrista da banda Dingo Bells, presente há mais de 10 anos no cenário gaúcho.

Para contornar todos esses episódios, as bandas estão diversificando seus modos de apresentação. Estão optando por espetáculos em locais abertos, como festivais e feiras de parques, onde as pessoas conseguem desfrutar da música por estarem em um ambiente mais agradável. As próprias bandas, muitas vezes, se unem e organizam o evento, acreditando que, desse modo, é maior a receptividade, o engajamento do público e o tempo de apresentação, aumentando o número de bandas e o de pessoas que comparecem. “Estamos organizando shows mais diversificados, fazendo festivais em locais abertos, como os eventos com Food Truck. Onde conseguimos um foco maior para a nossa música e as pessoas conseguem apreciá-la” explica Afonso Antunes, guitarrista e vocalista da Alpargatos