Esta terra produz

Em verdade, não é bem terra, é areia. Areia que gruda no calçado enquanto caminhamos por estradas estreitas, de difícil passagem, no assentamento Filhos de Sepé, no distrito de Águas Claras, em Viamão. Apesar de ser mais areia do que terra, ela é produtiva se bem cuidada – quem garante é Julieta Zang, agricultura de 62 anos, aposentada. Atrás da sua casa, uma estufa recém-construída pelo marido abriga hortaliças e ervas medicinais. Para garantir que as plantas cresçam, mesmo que o terreno não seja o ideal, esterco de cabrito forra o solo.

Por imposição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e por consciência dos próprios moradores, que defendem uma maior valorização à vida, nenhum agrotóxico é permitido no assentamento. A produção de arroz é orgânica, assim como a de frutas e legumes.

Criado em 1998, o assentamento Filhos de Sepé abriga 376 famílias, divididas em 4 setores. A vasta área, onde inclusive há uma reserva ecológica intocável, não tinha nada além de grama selvagem. Se hoje você pode escutar o som dos pássaros e caminhar entre frutíferas árvores, dificilmente imaginará que havia apenas duas delas quando os assentados chegaram.

Leonildo Zang, 63 anos, agricultor, ficou dois anos com sua família em um acampamento em Santo Antônio das Missões antes de conseguir o direito de ter uma terra para cultivar e garantir o sustento da família. Durante quatro anos, teve de morar debaixo de uma lona para somente depois poder erguer sua casa – dois anos no acampamento, mais dois anos como assentado.

O Incra ajuda, mas há sempre a habitual demora. No ano 2000, R$ 2,5 mil foram liberados para que as casas fossem construídas. Em 2005, R$ 12 mil foram repassados para a reforma das habitações. Depois de chegarem ao local, cinco anos se passaram até que a rede elétrica fosse instalada. Durante três anos os moradores deviam buscar a água com baldes – entre eles Cilone Zang, 33 anos, professora, que ia com uma carroça. Hoje a água límpida que vem do poço artesiano está em todas as casas e cabe à própria comunidade administrar o uso desse bem.

O que pode ser encontrado é uma pequena cidade, que tem como maior característica o fato de as famílias cooperarem umas com as outras. Para Cilone, uma das maiores recompensas é poder ver seus filhos viverem livremente. “As crianças têm que ter incentivo para ficar no campo”, afirma Leonildo, que ajuda a coordenar o centro de convivência da comunidade. Para isso, são realizadas atividades para os jovens, como aulas de capoeira.

Nas crianças reside a esperança de uma mudança na sociedade. Para que empreendimentos como a Cooperativa dos Produtos Orgânicos de Reforma Agrária de Viamão (Coperav), a qual administram, e a padaria ainda sem nome, onde oito assentadas trabalham para vender alimentos às escolas, se multipliquem.

Texto e vídeo: Douglas Roehrs (6º semestre)

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