Avião faz papel de pássaro em reflorestamento

A esperança para os cultivadores da araucária vem do céu. Trata-se de chuva, mas não é de água. Em julho de 2012, no norte do Rio Grande do Sul, um avião agrícola cruzou o céu de Campinas do Sul lançando à terra 1,6 toneladas de pinhão, na luta contra a extinção da espécie na região. Um processo que levaria meses para ser realizado de forma manual levou uma tarde para ser feito com um monomotor.

A iniciativa partiu do ex-diretor do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap), o engenheiro florestal Roberto Ferron. A redução das árvores do pinhão, tanto quanto a extinção e migração da gralha azul, responsável por semear a semente, foram os principais motivos para adotar a técnica de plantio, que já é usada, por exemplo, para semear aveia e trigo em diversos países.

Desmatamento e extinção da gralha azul

O gênero Araucária é composto por 19 espécies de ocorrências restritas ao hemisfério Sul na Austrália, Papua Nova Guiné, Nova Caledônia, Vanuatu, Ilha Norfolk, Brasil, Chile e Argentina. A espécie Araucária angustifólia é nativa do Brasil e possui uma ampla área de distribuição, contribuindo para que o pinheiro se diferencie nos ecótipos. Ou seja, uma araucária plantada numa zona litorânea sofre diferentes modificações que, por exemplo, outra plantada no planalto.

Conforme dados do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF), sua exploração indiscriminada colocou-a na lista oficial das espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção. Dos 20 milhões de hectares originalmente cobertos pela floresta de Araucária, restam, atualmente, cerca de 2% dessa área. No Rio Grande do Sul, a mata original chegou a ocupar 25% do território do estado, mas hoje não passa de 1%.

Assim como em todo o país, o desmatamento é o principal fator contribuinte para o desaparecimento das araucárias no Estado. “Na maioria dos casos, o desmate é realizado para uso de áreas para pastagem ou na monocultura de soja, eucaliptos e outras culturas de grande impacto na natureza”, explica o coordenador do projeto “Os Verdes no RS”, Julio Wandam. O ambientalista afirma que essas ações comprometem todos os ciclos naturais de subsistência, procriação e sobrevivência dos animais da micro à megafauna e da flora nativa, que acaba sendo aniquilada em seus habitats endêmicos. Além disso, prejudica nascentes, lagos, banhados e outros ambientes úteis aos animais.

Um caso típico é a migração da gralha azul, que ocorre devido a três fatores: desmatamento, busca de alimentos e a caça. “Quanto mais houver desmatamentos, maiores as chances destes animais migrarem para onde exista alimento, proteção de seus ninhos e possibilidades de conservação da espécie. A caça, mesmo proibida e ainda praticada, é outro fator de perdas enormes de espécies de pássaros, não somente gralhas”, justifica Wandam.

Descrição da Araucária

Araucária Crédito Mauro Guanandi - Creative Commons
Araucárias estão ameaçadas de extinção no Brasil. (Foto: Mauro Guanandi)

A Araucária é perenifólia, com altura variando de 10 a 35 m e DAP (diâmetro à altura do peito) entre 50 e 120 centímetros, quando adulta. O tronco é reto e quase cilíndrico, se ramificando em pseudo-verticilos, com acículas simples, alternas, espiraladas, lineares a lanceoladas, coriáceas, podendo chegar a 6 cm de comprimento por 1 cm de largura. Possui casca grossa (até 10 cm de espessura), de cor marrom-arroxeada, persistente, áspera e rugosa. (Fonte: IPEF)

O processo do projeto

A ideia surgiu, segundo Ferron, de forma inusitada. “Foi há muito tempo, quando vi uma gralha azul voando com um pinhão no bico e deixando-o cair na borda da mata nativa. Aquilo ficou na lembrança até que pudesse ser executado”, conta o ex-diretor do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap), que integra a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) do Rio Grande do Sul. Como forma de adotar um nome que convenha com a ação, foi escolhida a alcunha Gralha Azul.

A iniciativa não conta com qualquer auxílio financeiro de órgãos públicos. Nesta primeira fase, integrou a Tractebel Energia, que concedeu 40 hectares para o plantio; a Rio Grande Energia (GE), que doou 1,6 tonelada de semente, e a empresa de aviação agrícola Aerodinâmica, que realizou o trabalho aéreo.

O compartimento do avião tem capacidade para 500 quilos. Foram lançados, para cada hectare, 40 quilos de pinhão, o que equivale a aproximadamente 5,5 mil sementes. Na preparação, os pinhões ficaram imersos em água por dois dias, garantindo a umidade necessária para a germinação. Também foram banhados em querosene, para impedir o ataque de animais. Com isso, as sementes germinam em até 10 dias, quando no processo natural isso costuma durar mais de 12 semanas.

O curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) está monitorando os resultados do plantio. Foram instaladas 25 parcelas de 5×1 metro em cada hectare. Após, foi realizada uma contagem, para verificar quantas sementes caíram dentro da parcela. Transcorridos 11 meses, a dispersão das sementes e forma como caíram no campo foi excelente, segundo o professor de Engenharia Ambiental Fabiano Fortes. “Assim, a técnica de utilizar avião para dispersão de sementes se mostra válida”, avalia.

No entanto, os organizadores do projeto não tomaram as devidas precauções quanto à aplicação do querosene nas sementes. “Esse líquido serve principalmente para que roedores não comam o pinhão. Mas, como a área é alagada, há capivaras, e elas acabaram comendo grande parte das sementes”, explica Fortes. A metodologia do processo será reestudada.

Segundo Ferron, com essa técnica é possível que lugares de difícil acesso possam ser reflorestados. “O avião pode sobrevoar terrenos acidentados, áreas de capoeira e florestas fechadas sem a dificuldade encontrada pelo homem”, observa o diretor, complementando que o custo é 20% menor do que o plantio manual.

Ainda neste ano, o Gralha Azul pretende lançar à terra mais 20 toneladas da semente da araucária. As localidades ainda estão sendo estudadas. “Por serem terras privadas, não há nenhuma escolhida por enquanto”, afirma Fortes. A expectativa do Defap é que dez milhões de mudas germinem nos próximos três anos, para que, enfim, a Araucária angustifólia seja retirada da lista de espécies da flora em extinção.

Mesma ação, outras espécies

No país, muitos estudos são realizados por entidades de pesquisa para conservação e manutenção das florestas. Um levantamento de espécies da flora em extinção no Estado deve ser concluído em breve. O último foi realizado em 2002, pela Fundação Zoobotânica (FZB) do Rio Grande do Sul. Além da araucária, constam nessa lista outras espécies como a canela, a figueira e o butiá. Conforme Fortes, o mesmo processo realizado com a semente de pinhão pode ser feito com outros tipos de semente. “É possível, sim, acho inclusive que teria mais êxito, por que os pinhões são muito atacados por roedores, diferente de outras sementes”, explica o engenheiro florestal.

A ideia já está em pauta no Defap. O departamento tem a pretensão de realizar, em 2014, uma chuva de sementes da palmeira jussara, na cidade de Osório, litoral norte do Estado.

Além do Gralha Azul

Para Wandam, o projeto Gralha Azul é necessário, mas ainda não é o bastante para que diversas árvores saiam da lista negra ambiental. “Assim como os pássaros fazem o processo, deveria ser adotado também pelos seres humanos”, pontua o ambientalista. Segundo ele, a criação e manutenção de projetos de florestamento, através de viveiros em escolas, prefeituras, empresas e entidades poderia levar milhões de árvores por ano a serem inseridas nos ambientes.

Recentemente na Nicarágua, na região de Masaya, o Movimento Ambientalista Guardabarranco plantou mais de três mil árvores nativas em apenas um dia, com ajuda de mais de 200 voluntários divididos em grupos e que ajudaram na revegetação de uma área de um parque nacional no país. “O governo deveria criar projetos simples de estufas e canteiros para produção de mudas de árvores nativas. Realizar parcerias com as escolas e promover a educação ambiental, estabelecendo elos com as comunidades e as pessoas, para ajudarem na coleta de sementes em épocas distintas e na criação de viveiros comunitários”, acredita.

Além disso, revegetar beiras de rios, lagos e outros ambientes degradados, estabelecer políticas públicas de incentivo à arborização urbana e a criação de praças e parques municipais traria diversos benefícios: “Além de ajudar o meio-ambiente, tudo isso representaria mais qualidade de vida para os humanos e as cidades poderiam investir, por exemplo, no eco-turismo.”

Texto: Adriano Pinzon (6º semestre)
Fotos: VRPF

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