Bandas independentes buscam espaço em Porto Alegre

Burburinho antes do show, pessoas rindo e falando alto com cervejas nas mãos. Muitas delas tatuadas, usando camisetas com serigrafias e nomes curiosos. Na frente do local, há um cartaz com o nome de algumas bandas estranhas que, mesmo não parecendo famosas, empolgam o público. Ao entrar no bar, é possível ver os músicos afinando os instrumentos, tocando os seus poucos acordes e juntando a galera. Quando o show começa, o pessoal se mexe para todos os lados. Essa é a cena de música independente em Porto Alegre, conhecida como underground.

Muitos dizem que a cena de Porto Alegre esteve morta, que não há lugares como antes, que ninguém presta mais atenção nas bandas daqui. Porém, novas oportunidades estão surgindo. Inúmeros grupos de São Paulo e outros estados fizeram turnês no Rio Grande do Sul (entre eles Futuro, Bandanos, Golden Jivers e Deaf Kids). Até mesmo os argentinos do Cabrocordero e do Altar marcaram presença em solo gaúcho.

O principal motivo para o ressurgimento da música independente são as redes sociais. Elas facilitaram o contato entre bandas e produtores, e a troca de informações tornou-se mais rápida. Diego Colvin, do Projeto Peste, relata que antigamente, quando a internet não era tão difundida, a sua banda saía nas ruas colando cartazes a noite toda: “Hoje não é tão necessário”, comenta. Nos blogs, são publicadas resenhas sobre shows, projetos e grupos, auxiliando na divulgação do que acontece no meio.

Entenda a queda

Nos anos 1980 e 1990, não apenas telefones e celulares eram caros, mas também não havia internet. Era necessário buscar em flyers, cartazes e estações de rádio as programações musicais. “A vida te obrigava a sair de casa”, relembra Daniel Villaverde, dono do selo Punchdrunk. Por isso, os shows lotavam. Apesar de não combinarem, os amigos acabavam se encontrando em bares como o Garagem Hermética.

No entanto, os que faziam ou amavam música envelheceram. Com filhos, responsabilidades e trabalho demais, deixaram os hábitos underground de lado. A geração seguinte, com o surgimento da televisão a cabo, internet e outras tecnologias, foi tomada pelo comodismo. Ficar em casa já não era mais entediante. As casas de show fizeram menos barulho. Além disso, o público das boates cresceu. “Antes o roqueiro ia aos shows, agora começou a frequentar festas de ‘rock'”, critica Daniel. Até que a internet passou a ser não o problema do distanciamento da cena, mas sim a solução.

Na entrevista abaixo, Michel Munhoz, baterista da Damn Laser Vampires, banda independente, conta sobre o antigo modo de vida Punk e o impacto das redes sociais na cena atual.

Métodos de divulgação

Além da internet, alguns meios antigos de divulgação voltaram como, por exemplo, os Zines, revistas caseiras que podem abordar temas pessoais ou a própria cena. Daniel Villaverde, assim como outros, ainda tenta divulgar seu trabalho colocando CDs à venda nos shows que realiza. Entretanto, essa prática raramente funciona, uma vez que as pessoas não têm interesse em comprá-los, mas Villaverde afirma que não desiste. Ele faz por paixão.

A banda F.A.R.P.A, também na cena, tocou até mesmo em outros estados com a ajuda da internet:

Quem está fazendo a nova cena

Com as redes sociais em alta, a cena musical independente se reinventa com a iniciativa de grupos como o Projeto Peste, organizado por Diego Colvin, Bruna De Bem, Thiago Kittler e Rodrigo Dias. O conjunto visa a apoiar artistas independentes de formas variadas. Um de seus diferenciais é o Blog oficial, que abre espaço para textos colaborativos de artistas e o público. Além de promoverem e apoiarem shows, estes jovens produtores ainda organizam eventos alternativos, como uma feira para zineiros, cartunistas e até bandas venderem seu merch.

Maurício Knevitz, 17 anos, faz parte da nova geração atraída pelo mundo underground. Foi membro de algumas bandas e se apresentou em shows. O estudante ainda é minoria entre as pessoas da sua idade. “Do meu colégio eu não posso dizer nada porque o pessoal de lá é uma galera meio boçal”, ironiza. Entretanto, acredita que, mesmo assim, há um crescente número de jovens interessados pela música independente e antigos amantes estão voltando à ativa. Prova disso seria a maior quantidade de eventos ocorrendo. “Pelo menos uma vez por mês vou em um show. Em 2010 ou 2009, isso não tinha isso. Era uma vez por trimestre”, destaca.

A banda Dévil Évil surgiu em setembro de 2011. O trio é composto pelo guitarrista e vocalista Luiz Bruno, pelo baixista Cadu Peixoto e pela baterista Gabriella Tachini. O grupo é influenciado por bandas da No Wave, movimento artístico que surgiu na metade dos anos setenta em Nova York. Música underground, cinema, performances artísticas e arte contemporânea faziam parte da cena nova-iorquina. Entre as bandas do movimento, destacaram-se: Teenage Jesus and the Jerks, DNA e o músico Glenn Branca.

Luiz Bruno, mais conhecido como Lule, reclama da decadência da cena musical independente em Porto Alegre: “É um marasmo, a galera não vai aos shows”. O músico afirma que há poucos lugares disponíveis na cidade. Um desses locais que eles tocaram no ano passado desistiu de ser espaço para shows de rock e se tornou uma casa de festas. Segundo Lule, no início dos anos 2000 a cena era mais ativa, havia maior número de bandas se apresentando, “agora elas tocam mais em estúdio”.

A banda faz, em média, um show a cada dois meses. O público geralmente é composto por pessoas próximas dos integrantes da banda: “Temos muitos amigos que gostam de nós, então sempre rola legal”. A internet é fundamental para a divulgação de shows. Lule afirma que é preciso empenho para conseguir mostrar o trabalho da banda: “Tem que fazer mil posts no Facebook, ter Twitter, mandar e-mails…”. Os shows acontecem por indicação: “É o jeito que funciona, por meio do who do you know”. Foi também por recomendação de uma amiga que Lule passou a apresentar o programa na Rádio Elétrica, um projeto online criado pela radialista Kátia Suman. Todos os domingos, às 13h, ele apresenta músicas de sua preferência no programa PiCniC Elétrico, disponível no site da Rádio Elétrica

Lule lamenta as dificuldades enfrentadas pelos músicos independentes: “Não se ganha grana aqui no Brasil”. Porém, resigna-se: “Eu não tenho pretensões, faço música porque gosto”. A Dévil Évil participará do Grito Underground, um festival que acontecerá em Butiá (RS) nos dias 27 e 28 de outubro. No evento, além dos shows das bandas, haverá stands de tatuadores e de artistas plásticos, além de sorteio de material de bandas independentes.

O CD da Dévil Évil está disponível na íntegra no Soundcloud da banda, confira:

Assista também ao vídeo da Dévil Évil tocando a música Eu Sempre Me Frustro, em uma apresentação realizada no dia 10/01/2012 no Eclipse Bar, em Porto Alegre:

Sem dúvida, as redes socias facilitaram a vida dos músicos independentes. O contato virtual é fundamental para promover shows e mostrar o som da banda para quem busca a música feita fora da cena mainstream. Na visão dos integrantes das bandas, há muito o que melhorar: além da falta de apoio das grandes gravadoras, eles ainda enfrentam o desinteresse dos donos dos poucos lugares disponíveis para shows em Porto Alegre. Sem perspectivas de ganhar dinheiro com isso, eles continuam na ativa por amor à música.

Texto: Helena Lukianski, João Paulo Wandscheer, Nathália Harth e Rodrigo Luz

Reportagem originalmente produzida para a disciplina Jornalismo Online I, sob orientação dos professores Andréia Mallmann e Marcelo Träsel

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