Bric do Didi está à venda

O Bric do Didi, loja de equipamentos de fotografia de Evaldir Garcia do Canto, vai mudar de dono. Devido à idade e à falta de herdeiros, o fotógrafo que se consagrou pelo trabalho e por ajudar colegas e demais amantes da fotografia a resolver problemas técnicos dos seus equipamentos, decidiu vender sua loja localizada na rua Dr. Flores, 231, sala 1. Ele quer vender para “alguém que conserve esse projeto. Tem muitas câmeras antigas, câmeras que estão desatualizadas, mas enfeitam e contam a história da fotografia. Então tô procurando alguém que possa continuar”, relata o fotógrafo.

“É amor. É o gosto pela arte fotográfica”, sorriu Didi, quando perguntado o porquê de ter iniciado a carreira fotográfica. Evaldir Garcia do Canto, 68 anos, é um exímio conhecedor de equipamentos nesse ramo. Desde 1970, Didi fotografa, mas somente em 1982 abriu a loja que mantém até hoje.

“Ia comprando máquinas e não ia gostando, daí ia revendendo”, contou o fotógrafo. Nesse momento, então, um amigo sugeriu que abrissem o bric em sociedade, que começou com apenas duas máquinas e dez filmes. Com o passar do tempo, a loja foi ampliada, conhecida e continua até hoje. Didi observa que, com os avanços tecnológicos, houve uma enorme mudança na arte fotográfica. “Antes das digitais, a gente se considerava artista, tinha que estudar fotografia, aprender a revelar, copiar, conhecer papel, conhecer químicos”. A diferença entre o passado e hoje está no fato de que atualmente não é necessário ter grande conhecimento para ser fotógrafo, pois as câmeras trabalham automaticamente. “A pessoa tem que apenas saber se colocar”, afirmou.

Didi, que há tempo trabalha na área do futebol, conta que fotografa desde times amadores quanto profissionais. Nessa hora, tem a ajuda dos auxiliares Miguel Noronha, fotógrafo há 14 anos, e José Carlos Goulart da Costa, que trabalha com Didi desde 1994, quando começou como freelancer. Noronha auxilia o fotógrafo na edição das fotografias. Diz que tem a intenção de fazer o proprietário do bric conhecer o novo mundo, fazê-lo trabalhar com novas tecnologias. Zé, segundo seu colega de trabalho, é quem conserta qualquer coisa. Ele quem cuida da parte eletrônica, que ajuda equipamentos e até mesmo compõe novos.

Como uma boa lembrança, Didi recorda de um concurso de fotos que participou em São Paulo. “Eu guardo essa imagem que recebi o primeiro lugar como base do meu trabalho”, conta. Era uma foto externa, de uma parte humilde da rua, que rendeu a medalha de ouro em uma edição nacional. O fotógrafo salienta que não foi fácil, pois na época se exigia qualidade do fotógrafo. “Antigamente tinha que ler a asa do filme, o diafragma, a velocidade e era mais difícil, não é como hoje em que existe um acerto de 100% no programa da máquina”, compara.

Preocupado com futuro do estabelecimento, ele explicou que é preciso ser prevenido. Sem ter para quem deixar o negócio, resolveu vender para ter garantia de que alguém conservará as raridades. Enquanto não surge um comprador, ele continua tocando o negócio, tanto o setor de venda quanto de conserto, que arruma qualquer máquina, digital ou analógica.

Uma referência

Para os profissionais que trabalham com fotografia, Didi é citado como uma referência, alguém que fez história no ramo. O professor da disciplina de Fotografia da Famecos Eduardo Seidl é um dos muitos admiradores do Didi. Seidl conta um pouco da convivência com este personagem:

Nem me lembro bem quando foi que conheci o Didi. O Bric do Didi sempre foi a referência para quem queria comprar, trocar ou ampliar acessórios do equipamento fotográfico na era da película. Um tempo em que os equipamentos tinham menos depreciação. Um fotógrafo passava a vida toda com a mesma câmera. Lembro que conversando com os veteranos de profissão, todos indicavam o Bric do Didi.

Referência também porque dividia a loja com o Japa, que era técnico e comerciante de ampliadores e equipamentos de laboratório, ali tinha tudo que tu precisava. Comprei em 2001, quando estava indo para meu segundo estágio em fotografia, uma lente 24mm f/2.8 para Minolta, que fiquei namorando um tempão, porque custava um salário inteiro na época. Comprei também, em 2003 ou 2004, uma Rolleiflex f/3.5, fabricada em 1957, que uso até hoje.

Quando começou o digital, o comentário era de que havia acabado o mercado para o Bric do Didi. Suspeitávamos que não haveria um comércio tão grande de câmeras digitais, mas não. O Didi conseguiu se adaptar e continuou referência para quem está começando na fotografia e busca equipamentos usados, precisa de pequenos consertos e limpeza de equipamentos.

É com extrema nostalgia que recebo a notícia que o Didi está se aposentando. Preciso fazer uma visita enquanto é tempo, fazer uma última foto lá dentro, das tantas que fiz testando equipamentos, ou reencontrando amigos. Talvez seja uma boa ideia, lançar uma chamado para que a comunidade fotográfica reúna todas estas fotos, feitas no entreato, durante uma visita ao Bric do Didi.

Não vou esquecer da voz de Didi quando chegava lá e pedia para falar com o Japa, dos equipamentos de laboratório e ele gritava para os fundos da loja: Japããããããooooo!!!!

Veja uma galeria de fotos da loja:

Texto: Eduarda Endler Lopes (1º semestre)
Fotos: Annie Castro (1º semestre)

3 comentários

  • texto muito bom. ótima pauta.

  • […] Editorial J publicou uma reportagem sobre o Bric do Didi, a loja de fotografia de Evaldir Garcia do Canto que está à venda. No local, um ponto de encontro […]

  • didi gomes
    21:54

    grande didi,tenho serteza que sera uma enorme tristeza para os amantes da boa fotografia,que tiveram o prazer de te conhecer,de lavar algum equipamento para concerto e saber que estava nas maos de um grande conhcedor,de ir ate ai olhar raridades nikon e bater aquele papo com um cara que sabe muito de fotografia,enfim so me resta te desejar ”uma aposentadoria ”maravilhosa a que tu merece,vou tentar passar ai para te dar um abraço,entao ate mais didi.

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