Camuflados na pauta: quando o jornalista é o personagem

Claiton viveu sete dias na Vila Umbu, em Alvorada. Roberta, um dia na pele de quem trabalha atrás do balcão. Eduardo passou uma semana entre viciados. Nilton esteve entre a vida e a morte quando morou em uma favela carioca. O Editorial J conta a história de quatro jornalistas que se tornaram personagens de suas reportagens.

Na Vila Umbu

O hoje editor-executivo do Diário Gaúcho Claiton Magalhães viveu por sete dias em uma casa na Rua Iguaçu, nos terrenos da Vila Umbu, em Alvorada, com nove patos, um ganso e um cachorro. A escolha do bairro foi feita com o propóstio de mostrar que não é só de violência que a região vive.

Claiton morou uma semana na Vila Umbu para relatar os dilemas do local. Foto: André Feltes/ Divulgação

“A vizinhança de trabalhadores, as ruas de chão batido e o silêncio me chamaram a atenção. Do bairro, levo a impressão de que os moradores são vítimas de um preconceito social bem maior do que a violência que eles enfrentam”, conta Claiton.

Para colocar em prática a pauta, o jornalista fez uma extensa pré-produção. Entrou em contato com lideranças comunitárias locais e autoridades policiais. Sempre se apresentou como repórter e procurou deixar clara a sua condição nos dias em que morou na vila. Claiton conta que viver em uma região com altos índices de violência, sem tevê nem conforto, não foi tarefa fácil.

“Acho que essas privações fazem parte do trabalho de um repórter. Ainda é preciso desmistificar no Brasil a nefasta ideia de que quem mora em vila é tudo marginal. A maioria das pessoas que encontrei por lá eram trabalhadores. Tudo muito parecido com os bairros de classe média, só que, claro, sem a infra-estrutura destes”, revela o jornalista, para quem a presença física no local foi fundamental.

A reportagem foi publicada em duas edições do jornal em maio de 2006. Para o repórter, o mais satisfatório foi o retorno dos órgãos públicos. Segundo ele, a Brigada Militar ampliou as rondas na região, órgãos da prefeitura fizeram limpezas nas ruas, colocação de lâmpadas, capinagem, asfaltamento e uma praça foi revitalizada.

O perigo

Para investigar a ação de mílicias em favelas cariocas, uma equipe do jornal O Dia, do Rio de Janeiro, passou a viver, com identidades falsas, em uma confragrada região. Entre eles, estava o repórter fotográfico Nilton Claudino.

“Eu era fotógrafo de O Dia, em 2008, quando fui morar numa favela para fazer uma reportagem sobre as milícias. Fui descoberto, torturado e humilhado. Perdi minha mulher, meus filhos, os amigos, a casa, o Rio, o sol, a praia, o futebol, tudo”, escreveu o profissional na edição de agosto de 2011 da revista Piauí.

Nilton, uma repórter e um motorista do jornal carioca se mudaram para uma casa no Jardim Batan, uma favela encravada em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele se fez passar por alguém que aguardava ser chamado para trabalhar em Macaé, numa prestadora de serviço da Petrobras. A jornalista arrumou emprego de cozinheira e os dois fingiam ser um casal, sorrateiramente registrando cenas da região.

Após 14 dias na favela, foram descobertos e torturados, inclusive com sessões de choque, pelos milicianos. Até um vereador, filho de um deputado federal, estava lá para bater nos jornalistas, segundo relata Claudino no texto.

“Valeu a pena? Foi a profissão que escolhi. Mas o que mais dói é que fomos delatados por colegas da redação. Eu achava que nunca tinha tido inimigos”, concluiu Claudino. Para evitar perseguições, o fotógrafo não informa o endereço onde vive.

Entre viciados

No inverno de agosto de 2009, Eduardo Torres topou o desafio de conviver com internos de um centro de recuperação para drogados na zona rural de Gravataí. Em primeira pessoa, o texto mostrou porque muitos não conseguem largar o vício e como o Estado enfrenta este mal. Mesmo identificando-se como jornalista do jornal Correio de Gravataí, Edu realizou todas as tarefas normais da fazenda terapêutica comandada por um pastor da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Entre elas, muita oração.

“Em 15 dias de atividades diárias, são praticamente cinco orando ou lendo a Bíblia. Ou seja, trocam a droga por um outro vício”, revela Eduardo.

O jornalista conta que teve muito medo na hora de dormir, já que passava pela sua cabeça a ideia de que algum daqueles viciados poderia entrar em surto psicótico a qualquer hora. Menos mal que nos dias em que viveu na fazenda, ninguém chegou a este ponto.

“Como experiência de repórter foi ótima, diferente, acho que fiz o leitor entrar dentro do local. E ainda constatei a falta de maior ação do Estado nestes centros de recuperação. Não há médicos, psicólogos e o local é carente”, diz o jornalista.

Um dia atrás do balcão

Era época de Natal e a pauta nasceu da vontade de apresentar por quais situações quem trabalha no comércio no período de maior movimento no ano passa: a temporada de compras de final de ano. Para o desafio, o Diário Gaúcho escalou, em dezembro de 2007, com a repórter Roberta Schuler.

Eduardo Torres e Roberta Schuler. Foto: Tiago Rech

“Já havíamos ‘vivido’ outras profissões – a colega Aline Custódio, hoje repórter do jornal Extra, do Rio, tinha ‘trabalhado’ como gari – e eu pensei que renderia boas histórias atuar em uma loja popular do Centro da Capital”, conta Roberta.

Inicialmente, só a gerência sabia que a vendedora de número 17 era, na verdade, uma jornalista – à medida que fazia entrevistas, Roberta se identificava como repórter. Ela escreveu em primeira pessoa e além de observar reações, entender a rotina, conversar com vendedores e até mesmo com o proprietário do comércio, teve de colocar a mão na massa e vender. A profissional conta que 29 pessoas compraram com ela (a venda total da repórter, no dia, foi de R$ 989,27 e, com a comissão de 0,5%, ela ganhou R$ 4,94.

“Mais que falar sobre o ofício, o interessante da reportagem, que foi manchete da edição de final de semana, foi reconhecer a importância desses profissionais, dar rosto e dar o recado aos consumidores: ‘tenham bom senso, todos precisam fazer suas compras de Natal, o mês é atípico, com lojas lotadas, mas ficar irritado e descontar as dificuldades nas pessoas que estão no comércio só piora o clima que era para ser de festa'”, conclui a jornalista.

Roberta conta na reportagem que teve de discutir com uma vovó sobre o tamanho de uma cueca para o esposo, atuou como uma produtora de moda de uma estudante que procurava uma blusa para uma festa. No texto, cita desde a vendedora responsável pelo seu treinamento à vendedora de doces para os funcionários.

A palavra do sindicato

Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado, José Maria Nunes, fazer uma matéria investigativa sempre é complicado, é muito tênue a linha entre o que é ético e o que não é. Por isso, é necessário um respaldo da empresa e que ela pense, em primeiro lugar, na segurança do seu funcionário.

“Defendo que o profissional tem de se identificar como jornalista. Se não se identificar, está sofrendo a possibilidade de ser penalizado”, afirma.

Nunes relembra uma situação bem comum no passado. Em situações de assaltos com reféns, muitas vezes os criminosos exigiam a troca das vítimas por jornalistas.

“Somos totalmente contrários a isso. Estamos ali para cobrir o ocorrido como jornalistas e não para servir como moeda de troca para bandido”, esclarece.

O código de ética dos jornalistas profissionais tem uma cláusula (13ª, de consciência) que determina que o profissional se recuse a realizar tarefas que afrontem os seus princípios, as suas convicções, segundo Nunes.

“Hoje em dia, na falta de uma mobilização da categoria, se o profissional alegar a cláusula de consciência e se negar a escrever a reportagem, a empresa provavelmente irá demití-lo. Mas ele pode até entrar com um processo por dano moral. Pena que a maioria dos jornalistas desconhece o código de ética da categoria. Infelizmente, para eles, só importa o código de conduta da empresa”, diz Nunes.

Texto: Tiago Rech  (6º semestre)

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