Capitão Dunga relembra Inter nas Olimpíadas de 84

A primeira medalha do futebol brasileiro nas Olimpíadas é prateada e colorada. Em 1984, catorze anos após a conquista da Taça Jules Rimet no México, um grupo de jogadores do Internacional entrou para a história das Olimpíadas.

Naquele ano o Internacional não vivia sua melhor fase. Cinco anos haviam passado desde que o Colorado tinha levantado o troféu do Brasileirão pela terceira vez. E para piorar, nesse espaço de tempo o Grêmio conquistou o Brasil, a América e o Mundo. E, na sombra do título mundial do rival, boa parte do elenco do Inter foi chamado para representar o Brasil na competição olímpica.

Dunga, um dos símbolos daquela geração, lembra um dos motivos que levou a convocação do time. “O Brasil tinha uma seleção que não estava indo muito bem nos amistosos. Estava perdendo quase tudo e aí foi decidido que ia ser uma base de jogadores do Internacional e mais alguns atletas que já estavam na seleção”. Outro fator que colaborou para a escolha do time gaúcho foi a folga no calendário de jogos do clube. “Como era um período que a gente não ia ter nenhuma competição, foi uma grande oportunidade para todos nós”, conta.

O ex-zagueiro Pinga, que também participou da “SeleInter”, recorda da importância da escolha dos jogadores do clube, que estavam juntos há um bom tempo. “Tinha pouco tempo pra preparação e a gente vinha de um período só de treinamento, então qualificou mais o grupo, ainda mais com os outros jogadores que chegaram”, conta.

A delegação que viajou para Los Angeles era composta por onze atletas do clube. O goleiro Gilmar, o lateral-esquerdo André Luis, os zagueiros Pinga e Mauro Galvão, os meias Tonho, Ademir Kaefer, Milton Cruz, Paulo Santos e Dunga, e os atacantes Kita e Silvinho. O treinador era Jair Picerni.

O apelido “Seleinter” surgiu da torcida gaúcha, empolgada, que contrastava com a opinião de outros torcedores pelo país. Os fracassos do Brasil em edições anteriores – fantasma que persegue o futebol até hoje – aliado à convocação de um time que não mostrou bons resultados no certame nacional daquela época fizeram com que houvesse uma suspeita no ar. “Tinha desconfiança. As pessoas achavam que não ia acontecer nada. Vai colocar um time para jogar contra uma seleção? O Brasil nunca teve tradição em olimpíadas, nunca conseguiu bom resultados”, lembra o volante da seleção. Mas o eterno capitão do Brasil enfatiza o foco do grupo. “Era a oportunidade que cada um ali estava recebendo, participar de uma competição que poucos podem jogar”.

A convocação “em massa” de jogadores do Inter não era novidade. Em 1956, também para a disputa de uma Olimpíada, oito atletas do Colorado foram chamados para defender a pátria nos gramados, mas sem sucesso.

A campanha da “SeleInter” foi impecável. Na fase de grupos o Brasil obteve 100% de aproveitamento. Venceu a Arábia Saudita, Marrocos, e a poderosa Alemanha Ocidental, que mais tarde seria tricampeã do mundo. Nas quartas de final o adversário era o Canadá. Após empate no tempo normal e na prorrogação, o Brasil conquistou a vaga nas penalidades. Depois de passar pelos canadenses a vaga na grande final foi decidida contra a Itália, que havia ganhado a Copa do Mundo dois anos antes. O gol salvador de Ronaldo na prorrogação garantiu o Brasil na final e a primeira medalha olímpica de futebol. Só restava saber se seria de ouro ou prata.

Dunga recorda do alto nível dos adversários naquela competição. “Tanto o time italiano quanto o alemão eram a base para as seleções que foram campeãs mais tarde em Copas do Mundo. Foram jogos super decisivos”, afirma. Na grande final, o adversário da vez era a França, que fora campeã da Eurocopa apenas dois meses antes dos Jogos de Verão. O sonho dourado acabou na segunda etapa daquela partida. “A gente fez um primeiro tempo muito bom. Mas, no segundo nós bobeamos e acabamos sofrendo dois gols em sequência”, descreve Dunga.

Mesmo com a derrota na final, o feito daquele time já era inédito e digno de comemoração. O Brasil, país do futebol, conquistava a primeira medalha olímpica neste esporte. Dunga relembra daquela época com grande saudosismo. “A gente sempre comentava que era a nossa chance, nós tínhamos que ser os primeiros a conseguir uma medalha, porque isso fica marcado. Os outros até podem conseguir depois, mas nós seriamos os primeiros”. E foi justamente isso que aconteceu. Após o feito de 84 o Inter seguiu cedendo jogadores à Seleção para a disputa dos Jogos. Quatro anos mais tarde três atletas do clube repetiram o feito do grupo anterior e trouxeram outra medalha de prata na categoria.

Passados os anos, Dunga, agora fora dos gramados e da casamata, aposta tudo na atual Seleção Olímpica. “Essa Olimpíada é a grande chance do Brasil conquistar o ouro. Estamos num momento em que todos os jogadores da seleção são os principais dos seus clubes. É um momento único para a seleção”, explica. Independente da atuação do Brasil nas Olimpíadas de 2012, a medalha de prata conquistada em 84 está para sempre na história do futebol brasileiro.

Jogadores na foto: Luis Carlos Winck, Gilmar, Aloísio, Ademir, Mauro Galvao e André Luis. Agachados: Paulo Santos, Dunga, Kita, Milton Cruz e Silvinho.

Texto: Rodrigo Sartori (6º semestre)
Foto: divulgação Assessoria do Sport Club Internacional

1 comentário

Deixe um comentário