Foto da urna eletrônica

Cargo em clube de futebol pode aumentar votos em até 2.798%

Levantamento exclusivo feito pelo Editorial J revela influência dos clubes de futebol no eleitorado político.

  • Por: Gabriel Gonçalves (5º semestre) | 25/06/2015 | 0

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Não é só para os atletas considerados ídolos por suas torcidas que os clubes de futebol se transformam em trampolim eleitoral para cargos públicos. Segundo levantamento exclusivo feito pelo Editorial J, ocupar um cargo na direção de um clube profissional de futebol pode aumentar em até 2.798% os votos de políticos. Com base no banco de dados disponibilizado no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi comparado o desempenho nas urnas de dirigentes esportivos, quando disputam eleições na condição de presidentes de clubes e quando as disputam longes dos holofotes do futebol.

Os casos analisados expõem um padrão estatístico: os cartolas obtêm seus ápices de votos quando concorrem sob o impulso de também deter um cargo na direção de um time, expondo a potencialidade que os clubes ainda possuem em termos de influência política. O exemplo mais extremo apontado pelo levantamento é do senador José Perrella (PSDB-MG). Ao completar seu sétimo ano sob a presidência do Cruzeiro, o político atingiu quase três milhões de votos nas eleições de 2002, elegendo-se senador pelo Estado de Minas Gerais. Em 2006, na primeira campanha política que promoveu após se afastar do futebol, Perrella obteve 69 mil votos. Na comparação entre as eleições que disputou sob a presidência do Cruzeiro, com as disputas eleitorais que participou enquanto esteve afastado do clube de Minas Gerais, a diferença de votos chega a 2.798%.

O levantamento ainda mostra que a exposição dos holofotes esportivos também pode ser negativa, dependendo do desempenho do político à frente do time. É o caso da ex-vereadora pelo Rio de Janeiro e ex-presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Até então conhecida pelo eleitorado político como uma ex-atleta olímpica do clube, a política do PMDB teve a chance de alavancar sua popularidade eleitoral sob a presidência do time com maior torcida na América do Sul. Mas a gestão marcada por conflitos com a torcida, além de acusações envolvendo seu gabinete municipal, ajudaram a reduzir em até 118% o eleitorado da ex-vereadora em eleições.

Segundo o professor de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Bernardo Buarque de Hollanda, a existência de personalidades que transitam entre a esfera privada do futebol e a esfera pública da política é relativamente comum na história brasileira do século 20. O cientista político lembra da criação da Confederação Brasileira de Desportos (CDB), em 1916, cujos bastidores tiveram ligações com o Ministério das Relações Exteriores, além do antigo Conselho Nacional de Desportos (CND), concebido em 1941 em plena vigência do Estado Novo, quando o governo federal passou a fiscalizar a centralização das federações e confederações esportivas vigentes. “Basta mencionar o caso de Berlusconi na Itália, catapultado de presidente de um clube de alcance nacional, como é o caso do Milan, ao topo do poder no país, para que possamos mensurar a influência do futebol na vida contemporânea”, afirma o professor.