Carreira musical de Raul Elwanger começou na militância política

Atualmente dedicado apenas aos seus shows, Raul Elwanger tem trajetória política iniciada nos anos de 1960, período da ditadura militar, quando foi vítima desta e se exilou fora do país por alguns anos. Em 1969, participava do grupo Colinas, formando a Var-Palmares, a mesma da qual foi membro a presidente Dilma Rousseff. “Na Var-Palmares, eu fazia trabalho advocatício, sindical, além de participar de reuniões com mais de 500 operários. Era uma coisa muito difícil, por conta disso fui levado à clandestinidade e, posteriormente, considerado um assassino”, resume.

Elwanger conta que sua família também foi espionada na época. “Lembro que, além de fazerem pressão dentro de casa contra minha irmã, os policiais também passavam o dia seguindo minha mãe”. Conforme o tempo passava, o militante subia na hierarquia do seu grupo clandestino tanto que foi convocado para participar do congresso da União Nacional Estudantes (UNE), de Ibiúna, em 1968. Na ocasião, a polícia invadiu o congresso, ele não foi preso por que não pode participar, pois tinha ficado doente.

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Quando foi morar em São Paulo, em 1970, junto com Carlos Araújo, ex-deputado e ex-marido da presidente Dilma Rousseff, Elwanger diz que as coisas ficaram mais difíceis. “Um dia o Carlos não apareceu no ponto de segurança, onde vivíamos. Preso, foi torturado e só aguentou três dias sem dizer onde morava, tendo até tentado se suicidar, se jogando sobre um carro”, relata. Com isso, o músico ficou sem casa e passou a perambular pela capital paulista, dormindo em ônibus, com dinheiro para comer apenas dois pães com manteiga por dia. Ainda assim escapou duas vezes de ser pego pela polícia.

Meses depois que chegou a São Paulo, a atividade clandestina estava muito perigosa, então, Elwanger se mudou para Chile, onde estudou Sociologia e assistiu a posse de Salvador Allende. “Era ótimo havia liberdade. Quando cheguei lá estava meio mal tanto que tive que fazer, por dois anos, intenso tratamento psicológico”, comenta.  Com o golpe que derrubou Allende, em 1973, o militante pegou um ônibus às pressas para Mendonza, na Argentina. Ele posteriormente soube os perigos dos quais escapou enquanto vivia na Argentina, onde ficou até 1977. 

Neste ano, regressou ao Brasil. Quando chegou ao aeroporto em Porto Alegre, a primeira pessoa que viu foi o delegado Pedro Seelig. Detido ilegalmente, esteve preso por 10 dias no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde foi submetido a tortura psicológica, tendo sido obrigado a ouvir os gritos de outros presos torturados durante à noite. “Eu passei muito frio e tive cálculo renal. Além disso, eles me ameaçavam dizendo que seria mandado a São Paulo, para ser torturado pelo delegado paulista e famoso torturador Sergio Fleury.”

 O que mais revolta Elwanger é a acusação feita, em 1979, por um oficial do Exército e que ganhou repercussão através de reportagem da sucursal de Porto Alegre do Jornal do Brasil. Na matéria, o oficial dizia que o músico, junto com Carlos Araújo, era responsável pelo assassinato de Kurt Kriegel, dono do bar Rembrandt, morto a tiros em 1969, em Porto Alegre. “Isso foi publicado no JB provavelmente a mando do Seelig, pois nessa época os serviços pesados queriam gerar fatos para a volta dos tempos mais duros da repressão“, acredita. 

Após este período, a música ganhou espaço na vida do ex-exilado. “Minha história com a música começou em um coletivo de cultura, chamado frente gaúcha de música popular, na mesma época dos grandes festivais dos anos 1960.  Nessa época, Elwanger conseguiu se qualificar para participar de três festivais de música da TV Gaúcha (hoje RBS) em 1967, 68, 69 e de dois festivais organizados pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  “Em um dos festivais da TV Gaúcha, eu fiquei em segundo lugar. Mas, quando me classifiquei para participar do Festival da Record, em São Paulo, em 1969, não pude ir por causa das pressões militares, e eu sabia que, se fosse, seria preso”, detalha o músico.

O mesmo se sucedeu no festival da Arquitetura, mas Elwanger não desistiu da música e voltou aos palcos em grande estilo em 1978, no teatro de Arena de Porto Alegre. Desde então, a música sido o motor de sua carreira. 

Texto: João Pedro Arroque Lopes (5º semestre)

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