Celebração de mortes é reação natural ao terror e opressão, afirmam sociólogos

Em outubro deste ano, o ditador líbio deposto Muamar Kadafi foi capturado na sua cidade natal, Sirte, e morto, supostamente, durante confronto entre seus partidários e tropas do governo transitório. Vídeos amadores mostram rebeldes e opositores alegres, fotografando ao lado de um ex-líder ferido e acuado. Outros revelam cenas semelhantes captadas após a morte de Kadafi. As imagens da comemoração percorreram o mundo, causando espanto. Mas, e os valores humanos? Este questionamento foi feito por muitas pessoas que acompanharam o caso.

O sociólogo Alfredo Difini explica que esse tipo de atitude não deve ser vista como uma perda de valores. “Estaríamos considerando a afirmação de (Jean-Jacques) Rousseau, de que o homem é bom por natureza e corrompido pela sociedade. Mas é preciso lembrar que, antes de tudo, a sociedade é um agrupamento humano. Portanto, aquilo que corrompe um indivíduo não é criação de uma entidade distinta, e sim de seus semelhantes. Esses valores tidos como negativos já existiam”, sustenta. “Além disso, na grande maioria das vezes, não se trata de pessoas ruins, mas de pessoas que se deixam levar pela emoção e acabam cometendo excessos”, completa o sociólogo.

Se o caráter do homem não sofreu grandes alterações, não se pode dizer o mesmo do mundo que o cerca, principalmente no que diz respeito à tecnologia. Para Difini, essas manifestações coletivas estão amplamente relacionadas aos avanços no campo comunicacional. “As mudanças na transmissão de informações refletem nas formas de comunicar e de externar emoções. As pessoas têm maior percepção do contexto histórico e se sentem mais a vontade para demonstrar sua indignação”, esclarece.

De fato, celebrar a morte de um líder não é uma prática criada pelo homem do século XXI. Em 1945, o suicídio de ditador Adolf Hitler gerou comemorações nas nações inimigas da Alemanha – Inglaterra, Estados Unidos e França – na Segunda Guerra Mundial. O falecimento foi entendido como o fim, não oficial, do confronto que já se estendia por seis anos.

Dois dias antes do óbito de Hitler, o assassinato do então chefe do governo da Itália, Benito Mussolini, também gerou manifestações nas ruas. O acontecimento significou à população italiana o reforço do sentimento de independência, já obtida, mas pouco usufruída em razão do regime fascista que o país enfrentava.

Há cerca de seis meses, outro falecimento foi motivo de celebração. A morte do líder do grupo terrorista Al-Qaeda, Osama Bin Laden, durante operação chefiada pelos Estados Unidos no Paquistão, gerou manifestações efusivas por parte dos americanos. Empunhando bandeiras e cantando o hino nacional, uma multidão tomou as ruas de Washington e Nova York em celebração ao fim do inimigo número um do governo americano.

A captura e o assassinato do líder terrorista ocorreram quase dez anos após os atentados de 11 de setembro de 2001. Na data, dois aviões atingiram as torres gêmeas do World Trade Center, um terceiro o Pentágono e um quarto foi derrubado na Pensilvânia, vitimando 2.977 pessoas. O fato tornou-se o marco inicial da Guerra ao Terror, iniciativa militar que justificou a invasão do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003, em busca de supostas armas de destruição em massa, até hoje não encontradas.

Com a ocupação territorial, o ditador iraquiano Saddam Hussein foi deposto e preso, após um período de fuga. Acusado de participação no assassinato de 148 xiitas, ele foi condenado à forca pela Justiça país árabe. Em 30 de dezembro de 2006, a sentença foi cumprida. O período pós-execução foi marcado por atos de comemoração por parte das etnias xiita e curda.

Para o professor João Vitor Fagundes Brandão, especialista em História política e social, a data representa na História o dia em que se fez justiça em favor dessa parte da população iraquiana. “Muitas pessoas vêem esse episódio como vingança. Para um povo que sofreu opressão, foi perseguido por cerca de 25 anos, eu diria que, se vista por esse ângulo, é uma vingança humana, natural de quem quer mostrar que venceu, que sobreviveu”, compreende Brandão.

O professor recorda, ainda, que Hussein não chegou a responder pelo genocídio de mais de 180 mil curdos entre 1987 e 1988, situação que contribui para agravar a indignação e revolta dessa população.

Os reflexos sociais desses acontecimentos violentos que resultaram em mortes seguidas de celebrações, no entanto, ainda não podem ser apreciados, de acordo com Difini. “Isso exigiria uma análise durante um tempo determinado, o que, por enquanto, não é possível fazer, em razão de serem casos razoavelmente recentes na história da sociedade e que não ocorrem com uma certa frequência”, ressalta o sociólogo.

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