Cinco albergues públicos são disputados por mais de 1300 pessoas sem teto na Capital

Durante o inverno, é frequente a lotação máxima dos cinco albergues públicos que recebem pessoas sem casa. São mulheres, homens que procuram abrigo para fugir do frio e saciar a fome. Porto Alegre conta com os albergues Municipal, Felipe Diehl, Dias da Cruz e os Abrigos Marlene e Bom Jesus que são disputados pelas mais de 1.300 pessoas em situação de rua.

Moradores de rua e voluntária perto do albergue Dias da Cruz, na Avenida Azenha.

Por volta das 17h30min, começa a movimentação na frente dos albergues. Pessoas com seus carrinhos, cobertores, casacos velhos, humildes sacolas e acompanhados de cachorros se aproximam ansiosos. Alguns se sentam enquanto aguardam a abertura dos portões. Outros encontram conhecidos e conversam entre si. Enquanto isso, mulheres, idosos e deficientes que têm privilégios, entram primeiro.

Adriana, de 36 anos, é uma das privilegiadas. A moradora de rua já passou por diversos abrigos e relembra com convicção sua triste história. “Eu fui estuprada e fiquei grávida de trigêmeos. Meu pai não acreditou e me expulsou de casa. Duas crianças morreram. O que sobreviveu tem 17 anos e mora com ele”. Durante à tarde, Adriana lava roupa, desenha, faz curso de reciclagem e de bijuteria. Quando começa a escurecer se desloca para o Albergue Municipal. “Só queria que abrisse mais cedo. Temos que esperar na rua e quando chove isso é um problema”, relata.

Os albergues são limpos, arejados, calmos e confortantes para quem não tem onde morar. No entanto não perdem as características de um espaço coletivo, onde tudo é impessoal. Poucos gostam de tanta exposição e divisão. “O que faz com que as pessoas cheguem a esse ponto? Drogas, opção sexual? Eu ainda não me conformo. Acho muito pesado as pessoas abandonarem, romperem com as suas famílias”, expõe Franke Hendlel, de 44 anos, gerente do Albergue Municipal.

Mário, de 21 anos, é um exemplo desse rompimento familiar relatado por especialistas e que se repete na história de grande parte dos moradores de rua. Aos 12 anos, Mário saiu de casa por não ter um bom relacionamento com seus parentes. “Eu não me arrependo e nem sinto saudades”, afirma veemente. O rapaz quieto e desconfiado confirma o uso de maconha e revela que, há poucos dias, conseguiu um emprego de mestre de obras.

Ao contrário de Mário, Cristiano, 39 anos, diz se arrepender dos erros do passado que o afastaram da família. O ex-servente de obras, após ser preso por furto foi rejeitado pela família e, há mais de 17 anos, vive na rua. “Eu fico com muita saudade nas épocas de festas”, conta tristemente. Para a assistente social Rita Cardoso, é fundamental que os moradores de rua organizem sua mente para um possível recomeço. “Eles precisam de ajuda”, ressalta.

Regras e comida grátis mantêm pessoas na rua

Mesmo em noites de muito frio, há pessoas sem teto que rejeitam a proposta de se acomodar nos albergues. A recusa geralmente ocorre devido à exigência de se submeter à disciplina imposta pelas casas. “Temos regras e elas devem ser cumpridas. Se não for assim, não estaremos acrescentando nada à vida deles. Não há sentido deles reproduzirem a vida na rua aqui”, expõe o publicitário e gerente do Albergue Municipal, Franke Hendlel.

A dificuldade para estabelecer normas educacionais às pessoas em situação de rua que buscam ajuda também é ressaltada por Mauro Quadros, gerente do Abrigo Marlene. “Muitos não querem nem tomar banho. Sabemos que a grande maioria é usuário de drogas ou tem algum tipo de deficiência mental, e por isso compreendemos o desejo deles de não fazerem nada, mas incentivamos a modificação desse hábito”, explica.

Para Cristian Evandro da Costa, de 34 anos, perambulando nas ruas há mais de sete, a situação é diferente. Durante o inverno, ele procura algum albergue para passar a noite e concorda com quase todas as exigências. “Elas são importantes para o convívio, mas queria que os abrigos recebessem pessoas depois das 19h30min. Tem gente que sai do trabalho só às 20h e tem que dormir na rua.” O albergado confirma, porém, que não são poucos os mendigos que se recusam a procurar albergues por conta das regras. “Em alguns abrigos não se pode nem conversar alto. Tem gente que saiu de casa justamente para não cumprir regras e, por isso, não querem imposição.”

Pai de quatro filhos e ex-usuário de crack, Cristian da Costa, elege o albergue Felipe Diehl como o melhor dos muitos que já frequentou. “Eles têm muitas normas, mas lá tu comes bem e dorme bem”, relata alegre.  O morador em situação de rua trabalha em serviços gerais, como carga e descarga de produtos, e relata não ter coragem de voltar à família antes de conseguir uma casa para morar. “Se eu não vou ajudar, também não vou atrapalhar. Estou cansado da rua, sinto muita saudade dos meus filhos. Este ano pretendo sair desta vida, é muito sofrimento”, expõe com emoção.

A assistente social Rita de Cássia Gomes Cardoso conta que o rompimento de vínculos com a família e a sociedade, juntamente com o uso de drogas, faz com que muitos cidadãos acabem optando por morar na rua. “São muitas histórias marcantes”, revela. A assistente e o albergado concordam ao afirmar que grupos que distribuem alimentação à noite para o pessoal da rua, mais atrapalham do que ajudam, e acabam impedindo a ida dessas pessoas para albergues. “Sinceramente, eu acho isso a maior sacanagem. Eles (os sem-tetos) sabem que vão receber comida e, então, não se empenham para melhorar. Utilizam o pouco dinheiro que recebem com drogas”, conta Cristian. Rita vai mais além e afirma que “isso é um assistencialismo momentâneo. Não é só comida, tem que dar muito mais”.

Onde estão os albergues do município 

• Municipal
Horário: Diariamente, das 19h às 7h.
Vagas: 120 durante o ano e 150 no inverno
Endereço: Rua Comendador Azevedo, 215 – Bairro Floresta

• Dias da Cruz
Horário: Diariamente, das 18h às 7h.
Vagas: 100
Endereço: Avenida da Azenha, 366 – Bairro Azenha

• Monsenhor Felipe Diehl
Horário: A partir das 19h.
Vagas: 150
Endereço: Praça Navegantes, 41 – Bairro Navegantes

• Abrigo Municipal Marlene
Além do acolhimento, auxilia na reorganização pessoal e social dos abrigados.
Vagas: 100 durante o ano e 110 no inverno
Endereço: Avenida Getúlio Vargas, 40 – Bairro Menino Deus

• Abrigo Municipal Bom Jesus
Vagas: 78 durante o ano e 88 no inverno
Endereço: Rua São Domingos, 165 – Bairro Bom Jesus

• Serviço de Abordagem Noturna
Atende pelo telefone 3346-3238 e recebe pedidos de pessoas em situação de desamparo

• Diferença entre albergue e abrigo – o albergue é apenas para passar a noite. Abrigo serve como moradia para a pessoa por, no máximo, seis meses.

Texto e fotos: Karine Flores (1º semestre)

7 comentários

  • joao
    13:27

    porque o serviço social expulsa o morador de rua do albergue.

  • joao
    13:29

    porque o serviço social rxpulsa o morador de rua do albergue

  • sou psicóloga moro em são Jose dos pinhas estamos com um projeto de uma casa de apoio, gostaria de saber quais as normas e as regras que esses moradores de rua tem que cumprir, e quais as maiores dificuldades enfrentada pela equipe.

  • maria jose
    22:38

    Boa noite, prezados,

    Sou estudante de serviço social da faculdade Estácio do RN, e estou fazendo uma pesquisa falando sobre albergados. Motivo pelo qual gostaria que enviem material de estudo se possível,
    Desde agradeço.
    Maria Jose da Rocha Nascimento

  • Agradeço por deixarem meu irmao passar a noite ai pois sei ke nao esta dormindo na rua, eletem familia so k moram em outro estado , sou irma dele nos damos muito bem. ele so tem contato comigo, e as vezes com meus pais.Ele sempre comenta comigo ke e bem recebido as noites ke dorme ai meu telefone e` 77 99513822. Se precisarem estou a disposiçao.Muito obrigado de coraçao.

  • sergio
    15:36

    estou desesperado !

  • cheila
    19:24

    ACHO MUITO IMPORTANTE ESSE SERVIÇO ,POIS PARA QUEM PRECISA É MUITO,

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