Com as poucas alternativas, os programas noturnos preferidos dos jovens no interior são as reuniões particulares

A vida nas cidades de interior se difere em muito do dia a dia das cidades grandes. Seja por características peculiares, pelas opções de lazer, pelas dificuldades ou facilidades que o número populacional impõe, cada município possui uma maneira de lidar com seu cotidiano. A vida noturna, festas e reuniões entre amigos são alguns desses pontos que apontam particularidades dependendo da região.

Veja no mapa abaixo as cidades citadas nesta reportagem:


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Rosário do Sul, que fica na Fronteira Oeste do Estado, possui aproximadamente 40 mil habitantes e apresenta diversas dessas características interioranas. Festas escassas, mas divertidas, amigos que se encontram em todos os lugares e reuniões particulares que marcam época são apenas algumas delas. “Aqui, posso encontrar todos os amigos em um só local, o que torna tudo mais aconchegante. As opções de festas são poucas, mas boas”, diz Amanda Fialho, 17 anos, que cursa o Ensino Médio no Colégio Totem do município.

Muitos jovens reclamam das poucas opções de que dispõem, mas se apressam em ressaltar que as que existem são legais, como bailes gaudérios – outra peculiaredade da região -, festas em clubes tradicionais na cidade e nas poucas casas noturnas que existem. É o que diz Camila Baptistella, 22 anos, estudante de Administração na UNIPAMPA, que não é muito adepta da vida noturna agitada, saindo de duas a três vezes por mês. “Por causa das poucas opções de festas, muitas vezes as pessoas acabam por ficar em casa. A alternativa é curtir os amigos em alguma ‘junção'”, diz ela.

Camila cita o termo utilizado para as reuniões particulares entre amigos, que costumam fazer mais parte da adolescência de jovens interioranos do que as festas em si, sempre regadas a muitas risadas, histórias para contar e, quase sempre, bebidas alcoólicas – independente da maioridade, visto que nessas ocasiões não existe fiscalização.

Já Matheus Xavier, 25 anos, estudante de Administração – Empreendedorismo e Sucessão na PUCRS, saiu de Rosário do Sul em 2005 para estudar, mas segue visitando a cidade frequentemente e participa da vida noturna do local. “Vou uma vez por mês, no máximo, a festas em Rosário. O lado positivo da noite de lá é encontrar os amigos, tomar uma cerveja, dar risada. Porém, dificilmente a gente sai para ouvir uma boa música”, explica ele. “Considero festa boa aquela que estou com meus amigos, mas gosto mesmo de barzinho, lugares que tocam um rock, pop rock e tal. Em Rosário não tem um lugar do tipo”, ressalta.

Contudo, Matheus acredita que os tempos mudaram e na época em que morava no município era diferente. “Nao sei se é porque fiquei mais velho e perdi um pouco aquela vontade sem fim de ir pra noite, mas antes tinha mais lugares legais pra ir. Um bar onde toda noite oferecia uma banda de pop rock e a galera ia direto, hoje perdeu totalmente a sua essência”, analisa ele, reforçando, todavia, a ideia quase que geral das tais “junções”. “Isso segue até hoje e é, certamente, o melhor programa em Rosário”, conclui.

O sertanejo universitário tomou conta

Apesar de ainda existirem jovens que apreciam outros ritmos, não adianta, o sertanejo universitário tomou conta do estilo das festas oferecidas nas cidades do interior – e até mesmo muitas das metrópoles. Em Rosário do Sul não é diferente. As casas noturnas do município oferecem quase que a totalidade de suas festas voltadas para este gênero, às vezes alternando para o pagode e dificilmente para o pop rock.

“Prefiro o sertanejo universitário para dançar. No entanto, para assistir a shows e escutar gosto de um rock nacional”, diz Amanda Fialho, que costuma frequentar as festas oferecidas em Rosário e não é por falta de opção, pois, quando visita cidades mais populosas e repletas de outras alternativas, costuma ir a lugares semelhantes. Porém, ela cita o atendimento e algumas estruturas como detalhes que poderiam melhorar.

Leonardo Fialho, 27 anos, designer gráfico e gerente do República Pub, uma das casas noturnas mais frequentadas do município, confirma a teoria da predominância do sertanejo universitário. “Tentamos colocar pelo menos uma vez por mês um pop rock, mas o público cai relativamente. Temos uma queda de cerca de 30% e os frequentadores também mudam”, conta ele, complementando que o local recebe pouco público às sextas-feiras, mas os sábados estão sempre lotados. “Festas durante a semana somente em vésperas de feriados ou particular, do contrário não temos frequentadores”, conclui.

A banda Arde Rock, de Santa Maria, é uma dessas exceções que surgem em meio ao domínio do sertanejo universitário. Acostumados a tocar em cidades com no máximo 80 mil habitantes, os músicos sentem essa divisão de estilos, mas acreditam que exista espaço para todos. “A gente procura fazer o que gosta. Apesar dos outros estilos, não notamos um distanciamento. Por onde passamos somos bem recebidos pela galera e observamos muita gente jovem neste público”, reflete Simone Sattes, vocalista.

Em Rosário do Sul, o grupo já tocou duas vezes e pretende retornar. Simone diz ter notado pessoas que foram no primeiro show comparecerem ao segundo e ainda levarem amigos, o que significa que a apresentação agradou.

Apesar de existir público para ritmos como o rock, o sertanejo universitário ainda é o mais lucrativo e os proprietários investem em cima do gosto da maioria, visto que a margem de lucro é muito baixa para esse tipo de negócio no interior, segundo o gerente Leonardo.

Diferentes regiões, mesmas opções?

Outras cidades com população semelhante ou menor que Rosário do Sul parecem apresentar as mesmas características que na Fronteira Oeste, mas o que se observa é certa diferenciação denpendendo da região do Estado.

Em Osório, por exemplo, município da região Metropolitana de Porto Alegre, que também possui cerca de 40 mil habitantes, as opções são igualmente diminutas. Porém, o Litoral Norte e suas praias fica logo ali, e os jovens se deslocam ao encontro das festas em cidades vizinhas com facilidade.

Segundo o jornalista Renan Sampaio, 23 anos, só há uma casa noturna de grande porte no município e a programação se limita aos fins de semana ou vésperas de feriado, assim como Rosário do Sul. Para completar, após a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, o local em questão passa por remodelação e reformas e ainda não reabriu.

Renan ressalta também o costume das concentrações antes das baladas na casa dos amigos, além de pequenos bares e restaurantes que servem como pontos de encontro. “Como é uma cidade do interior, todos se conhecem desde criança. Às vezes, nem é preciso ir a algum lugar para se divertir. Uma reunião na garagem de um amigo já pode garantir a festa”, conclui ele.

Do outro lado do Estado, na região Noroeste Rio-grandense, São João da Urtiga possui ainda menos habitantes, não contabilizando nem 5 mil. Como era de se esperar, a cidade guarda o ambiente de bairro e, consequentemente, o número populacional é proporcional à quantidades de opções de lazer oferecidas – ou seja, também são pouquíssimas.

Bruna Martello, 25 anos, bacharel em Direito, mudou-se para Porto Alegre para estudar, mas segue frequentando sua cidade natal sempre que possível, principalmente em feriados. “As festas mais comuns são bailões com músicas de bandinhas alemãs e algumas vezes eletrônica”, conta ela, explicando que estes eventos na verdade acontecem na zona mais rural no município.

No entanto, os urtiguenses precisam procurar nas cidades vizinhas – ao exemplo de Osório – as baladas mais atraentes, como em Sananduva – que por si só é interiorana, com cerca de 15 mil habitantes, mas ainda possui mais alternativas que São João.

Para não fugir à regra, o programa mais realizado pelos jovens também é a reunião de amigos. “O pessoal bebe na frente dos postos de gasolina, ou de São João ou de Sananduva. Tudo se resume a isso”, conclui Bruna.

Texto: Caroline Motta (8º semestre)

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