Crítica em falta

Para o cantor e professor de técnica vocal Ricardo Barpp, a imprensa que se propõe a falar de música vive somente de impressões

  • Por: Bruno Ibaldo (8º semestre) | Foto: Bruno Ibaldo (8º semestre) | 30/07/2015 | 0

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Ricardo Barpp é professor de canto e cantor de ópera. Começou a trabalhar com música aos 14 anos e, desde então, não saiu mais. Passou pela Sociedade de Cultura Musical, em sua terra natal, Caxias do Sul, e graduou-se em canto pela UFRGS. Em 2014, encerrou as atividades como professor de técnica vocal do Coro Sinfônico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa), onde desenvolvia um trabalho avançado para um coro amador.

Hoje, ele se considera mais professor de canto do que cantor. Dar aulas é um viés de segurança financeira para cantores, mas Barpp descobriu nisso uma maneira de também exercer sua vocação. “Eu nunca estudei para ser professor no sentido pedagógico. Descobri que podia dar aulas ao longo do tempo, através de sensibilidades, pela facilidade de me comunicar”, conta.

O papel mais marcante para ele foi o de Rocco, na única ópera de Ludwig van Beethoven, Fidélio. O personagem carcereiro foi o maior que já interpretou e também o que demandou mais tempo de estudos ao piano, em casa.  A apresentação aconteceu em 2013, no Theatro São Pedro, sob a regência do maestro alemão Carlos Spierer. O idioma alemão também representava uma dificuldade para o barítono, pela importância deste elemento na ópera. “Nós temos a obrigação de nos aperfeiçoarmos no idioma que vamos cantar. Não é possível se comunicar em uma língua estrangeira se não se sabe o que aquilo significa”, admite. À época, a repercussão foi favorável ao elenco que deu vida aos personagens.

Barpp tem uma visão pessoal incisiva sobre o universo operístico e sobre a crítica praticada em Porto Alegre. Em seu apartamento, que também é seu ambiente de aula, ele responde sobre suas experiências na Ospa, suas impressões sobre a imagem dos cantores e alguns pontos tratados como polêmica na ópera.

Em 2004, a cantora norte-americana Deborah Voigt foi afastada de uma produção da Royal Opera House por causa de seu peso elevado, conforme análise da imprensa na época. Dez anos depois, em 2014, a história se repetiu: a irlandesa Tara Erraught também foi criticada pelo seu peso. O Times a chamou de feia; o Independent, de roliça; e o Guardian, de rechonchuda. É um fato que a aparência tem tomado cada vez mais o mundo da ópera em detrimento da voz e da suspensão de descrença ou estas críticas são infundadas?
O mundo da ópera está mais distante da questão da música e do canto. O cantor, a orquestra e até o compositor estão postos como parte de um universo que eventualmente é dominado pelo visual. E quem leva o visual à ópera é o diretor de cena, responsável pelo que você vai ver, não ouvir. Neste sentido, começa a se procurar cantores que caibam nas ideias especificadas por ele. Então se o diretor deseja que uma Ariadne [da ópera Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss], que foi o caso da Deborah Voigt, seja esbelta porque a concepção dele é essa, começa-se a considerar que ela tem a voz, mas não o corpo. E do que a gente está falando? A gente está falando de ópera. E se dá importância para coisas que são, de fato, importantes, mas não são as mais importantes.

Mais importantes que a voz?
Que a música. Ópera, por mais que seja uma arte de multi-elementos – dança, teatro, música, arquitetura etc. –, é uma arte escrita, feita e idealizada para música através da voz. Estas situações que tu narraste têm a ver com uma necessidade comercial de estereótipos: a cantora de ópera que também é modelo, também é flexível, também é magra. Acho muito perigoso porque a gente está distorcendo uma realidade.

Em 2013, uma fotografia feita no Metropolitan Opera, em Nova York, mostrou o fio de um microfone preso às costas da cantora alemã Diana Damrau. Críticos e jornalistas se preocuparam em saber por que a necessidade deste equipamento. Um suposto caso de ampliação da voz era tratado como um escândalo. Depois, descobriu-se que era uma alternativa pouco usada para captar a voz dos cantores para transmissão via rádio. Apesar disso, que polêmica ronda o uso de microfones para ampliação da voz nos teatros de ópera?
Primeiramente, os espaços em que as óperas são executadas hoje em dia não são os mesmos em que eram executadas anos atrás. Os teatros e as orquestras eram menores. Tudo isso interfere na emissão, visto que a voz humana se modifica mais lentamente que a arquitetura dos teatros. Se Richard Wagner tivesse acesso aos cantores que cantam suas obras hoje, ele teria escrito outra música. A questão é que existe um apreço purista sobre o cantor na sua natureza, que tem só a voz como arma. Eu acho tudo isso muito discutível porque existem cantores excelentes com vozes específicas e não necessariamente potentes. Pode-se fazer uma lista de grandes cantores, grandes instrumentos, e que não são grandes no aspecto potência vocal. Então por que esses cantores devem se privar de cantar nos teatros de ópera onde as vozes deles naturalmente não preencheriam o espaço? Por que não utilizar tecnologia de ampliação? Claro, isso tudo deve ser pensado com muita qualidade, para não se perceber o que está acontecendo.

E esse cuidado, por si só, não representa um problema?
Não acho que seja um problema, desde que se saiba qual o propósito do espetáculo: é entender que aquele cantor é um grande musicista ou é perceber que ele pode fazer mais ou menos som? A discussão que gira em torno do tamanho da voz me incomoda muito. Existem dez cantores no mundo que podem dizer que têm vozes estratosféricas, que realmente são muito potentes. A maior parte dos cantores do mundo inteiro tem voz média, normal. Muito bem trabalhada e desenvolvida artisticamente, mas média. Uma vez que estes cantores vão ser julgados apenas pelo tamanho da voz, a gente já está cometendo um grande erro. A gente passa a julgar música em função de um elemento, o que não deixa de ser muito parecido com a questão estética que falávamos antes.

Como é a vida de um cantor de ópera no Brasil?
Eu falo parcialmente, por impressões minhas conjugadas com a de pessoas que conheço. O Brasil é um lugar onde a tradição de ópera é algo muito vago de se falar, porque, apesar de existirem cidades que têm temporadas de ópera, é muito difícil você ser exclusivamente um cantor. Quem consegue fazer isso são cantores que se consagraram na ópera fora do país e depois voltaram. Eu vejo duas realidades entre os meus colegas: os que dividem o repertório de ópera com outros estilos musicais e os que dão aula, que são quase todos. Eu não sei dizer agora um cantor que não dê aulas.

Algum exemplo de cantor que dê aulas vem à mente?
Eliane Coelho, que foi uma grande cantora de ópera em Viena, está no Brasil e dando aulas. Ela ainda canta, considerada uma das mais importantes cantoras brasileiras, no Brasil e no Exterior, e ela dá aulas. Ou seja, em algum ponto de vista, dar aulas pode ser considerado alguma coisa menor, mas, na realidade, não é. Muitos cantores desses que a gente compra disco, que estão aí estourando, dão aulas. Porque eu também acho que faz parte do interesse de um artista ensinar o que aprendeu. No Brasil, há entre cantores a necessidade financeira de ter fontes paralelas, sendo que lecionar é uma delas.

Em 2014, encerrou-se o trabalho que você fazia no Coro Sinfônico da Ospa. Você já havia trabalhado com algum grupo deste porte?
Não. Eu tinha trabalhado com outros coros. Comecei muito cedo a trabalhar com técnica vocal de coro, em Caxias do Sul, antes mesmo de me graduar. Na época em que eu fazia faculdade de música, também trabalhava com coros menores e não profissionais, com uma demanda musical não tão exigente, no sentido de dificuldade de repertório. Trabalhei cinco anos com a Ospa, foi um aprendizado absurdo, principalmente porque, neste coro, havia demandas profissionais onde os cantores são, em sua maioria, amadores. E isso é bom por um lado e não, por outro. É bom porque eu acho fascinante a ideia de a comunidade participar desse tipo de experiência, então é legal ver pessoas amadoras fazendo algo às vezes até com um nível artístico muito alto.

E é ruim por quê?
Porque vem a dúvida: será que tendo profissionais em um coro, a gente teria um resultado ainda mais incrível? Como seria bom se as pessoas, os órgãos ou os governos realmente pensassem que essas coisas são importantes, no sentido de investirem e fomentarem ambientes profissionais onde, inclusive, as pessoas que estão escolhendo viver de música possam atuar com mais dignidade. Porque, querendo ou não, o mundo das artes em geral é um ambiente em que as pessoas muitas vezes passam a vida em sobrevivência, mas não conseguem fazer outra coisa porque, na verdade, isso é o que a vida diz que é o que elas têm de fazer.

Como você trata a crítica que recebe?
Falar de crítica é um pouco complicado, principalmente em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, porque, na verdade, ela não existe. Há impressões. Quem escreve sobre canto, se é que alguém escreve, em geral não tem background para falar especificamente sobre voz.

Mas você lê alguém que escreve impressões?
Leio quem escreve sobre música em geral e que, por vezes, não tem nem formação no assunto ou alguma profundidade musical. Particularmente, é claro que é legal se ver citado e referenciado por um trabalho bom, mas como estas coisas são mais impressões do que crítica, eu sei que aquilo não é fundamental para a minha carreira. Por outro lado, tem a crítica negativa, que raramente acontece. E, nesse sentido, também não há verdadeiramente uma crítica porque quem escreve sobre música em Porto Alegre acha tudo bom. No máximo criticam uma ou outra coisa. Porque como criticar um ambiente onde as pessoas mal conseguem viver daquilo? Quem é que vai abrir a boca para escrever em uma mídia algo que pode ser muito negativo para um cantor quando se sabe que ele está fazendo das tripas coração para viver daquilo? Então o ambiente onde o músico atua não é favorável para que o crítico possa atuar. O crítico não encontrou em si o estofo suficiente para poder falar sobre canto.

E quanto isso afeta você pessoalmente?
Acho isso muito ruim porque a crítica é educadora. Também para mim, quando leio alguma coisa que não é positiva e me faz pensar. Sofro quando falam alguma coisa que eu não esperava, não só em crítica, às vezes até em uma conversa, em uma impressão dirigida pessoalmente a mim. Porque se quer fazer o melhor possível e nem sempre acontece.