De técnica antiga a motivo de encontro, o tricô sai do limbo e conquista novas adeptas

Se para as gerações passadas a técnica do tricô era herança de mãe para filha, as de hoje podem adentrar por esse mundo de linhas, agulhas, pontos e receitas, apenas com alguns cliques. Na internet, não são poucas as comunidades de tricoteiras que ensinam suas técnicas através de blogs, com tutoriais autoexplicativos – em vídeos ou imagens. Além disso, ficou fácil encontrar linhas e agulhas especiais em lojas online.

Leia mais:

Essa reinvenção do tricotar mostra que a técnica, cada vez mais, vem tomando espaço na vida de jovens interessadas em moda e ávidas por manifestações estéticas de individualidade. Para a estilista e professora de tricô Cristiane Bertoluci, 28 anos, a rede é a grande responsável por essa retomada. “A internet permite uma troca maior de informações, o que faz criar uma curiosidade maior na técnicas e anima as pessoas a testarem com leituras diferentes”. A estilista é a criadora do blog Tricotarde, onde também é responsável por disseminar conteúdo sobre esse universo.

Todas no metrô (Foto: Lilian Oraggio)

Mas, assim como a maioria das tricoteiras, Cristiane aprendeu a técnica em casa. “Comecei aos 8 anos, pedi para minha mãe me ensinar. Aos 11 minha avó me ensinou crochê. Fiz coisas simples até a faculdade, quando trabalhei como estilista de tricô em uma empresa de Caxias do Sul, onde me formei, e vim a São Paulo trabalhar com tricô manual.”

 

Além da própria mistura de pontos e fios, a estilista busca inspiração na Web para criar suas peças. “A internet ajuda muito a pesquisar novas peças”, conta. Também não são poucos os designers que desenvolvem um trabalho interessante a partir do tricô. Sob a ótica do estilo, a blogueira destaca o trabalho de Sandra Backlund, Lucas Nascimento e Helen Rödel. Já pela técnica, ela admira as receitas da Elizabeth Zimmermann, que vem colocando em prática. “Ela é super engenheira em tricô e desenvolveu receitas super legais que envolvem muita matemática e muito tempo perdido até descobrir o que vai sair daquela explicação”.

No entanto, a estilista é contra a aplicação do estigma de “cool“ ao tricô. “As técnicas manuais são tradicionais e o máximo que aconteceu é que foram esquecidas por algumas gerações, como a de nossas mães e mesmo a nossa”, destaca. Para ela, o que tem acontecido é apenas um resgate desse tempo perdido. Além de servir como base principal de jovens estilistas, o tricô também vem aparecendo em algumas marcas que não trabalham propriamente com ele. É o caso da Neon, que no último São Paulo Fashion Week desfilou um vestido tricotado por Cristiane. Para confecção da peça, foram necessárias mais de 12 horas de trabalho.

Cool ou não, a verdade é que o tricô vem se transformando em motivo de encontro para muita gente. No dia 16 de junho, o Tricotarde e o Clube do Útero, outro blog desse segmento, se reuniram para comemorar o “Dia do tricotar em público”. O encontro começou no metrô de São Paulo. “Fomos da estação Paraíso à Estação Tucuruvi e depois voltamos para a Estação da Luz, na Pinacoteca. Sentamos no café e ficamos tricotando por algumas horinhas. Foi ótimo pois a Folha noticiou, e isso fez com que pessoas bem distantes dos nossos convívios participassem” conta.

A troca de experiências é um dos pontos mais bacanas, segundo frequentadoras desses encontros. A estilista Letícia Baranhano, 28 anos, começou a se reunir com  tricoteiras há pouco tempo, mas a experiência tem agradado. “A gente sempre conhece pessoas novas e bacanas, troca experiências e receitas de tricô. Ela conta que, a cada reunião, aumenta o número de participantes, de todas as idades e profissões. “Acho que está muito forte este movimento do feito à mão, resgate às origens, fazer suas próprias peças ou para presentear alguém querido.” Além do tricô, também há participantes que fazem crochê e bordado. Mas, para Letícia, o importante mesmo é se reunir, conversar e tricotar!

Texto: Priscila Vanzin (6º semestre)

Foto: Walter Lunardi Kinder

Deixe um comentário