Democraticamente afastados da Casa do Povo

Conhecidos vereadores de Porto Alegre foram surpreendidos pelas urnas na última eleição e não conseguiram renovar seus mandatos. Em 2012, das 36 cadeiras no legislativo, 17 foram renovadas, e partidos como PT e PSDB perderam nomes importantes da sua composição na Câmara municipal. Adeli Sell, Carlos Todeschini (ambos do PT) e Luiz Braz (PSDB) foram algumas das “vítimas” dessa renovação. O tucano, por exemplo, teve mandato durante 30 anos e é o político que mais tempo ficou na Casa do Povo. A perda dos mandatos, no entanto, não significou o fim da linha na política partidária para os três.

E não é apenas o próprio político que é prejudicado pela derrota eleitoral. O partido também sofre desgaste. O PT, por exemplo, possuía sete vagas na Câmara da Capital e acabou perdendo duas (três não foram renovadas, e dois novos nomes assumiram). Com isso, o partido fica mais fraco para a campanha majoritária e tem mais dificuldades para obter quocientes eleitorais, necessários para eleger outros políticos das coligações.

Para o Doutor em Ciências Políticas (USP) e Professor em Políticas Públicas (UFABC) Sérgio Praça, não estar em evidência pode complicar as intenções eleitorais do candidato, independente do âmbito no qual atuava (municipal, estadual ou federal): “Depende muito do partido ao qual o político pertence e à imagem da sigla na ocasião. As pessoas e os financiadores de campanhas tendem a esquecer dele”.

Ainda de acordo com o cientista, o fato de muitos governantes não possuírem formação universitária e acabarem transformando a política partidária em carreira é pouco coerente. “O político tem como função representar, agradar bases eleitorais, mas também tem que entender um mínimo de algum assunto, seja lá qual for. Ele tem a ‘obrigação’ de buscar algo substantivo além da carreira política”, replica.

Faltou tradição

Eleito vereador pela primeira vez em 1996 e atual presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) em Porto Alegre, Adeli Sell manteve cadeira no Legislativo municipal até 2012, quando tentou se reeleger pela quinta vez consecutiva, desta vez sem sucesso. Formado em letras pela UFRGS, ele afirma que recebia apoio de muitas pessoas durante a campanha e imaginou que poderia voltar ao cargo com êxito, sendo, inclusive, o mais votado das eleições daquele ano: “Minha não reeleição foi uma surpresa total para a cidade inteira. Apesar de ter feito uma votação razoável, fiquei aquém do que eu imaginava que pudesse ter conquistado e do que as pessoas tinham de expectativa”.

Após o choque inicial, Adeli procurou centrar-se e planejar o futuro. Decidiu analisar propostas e possibilidades e aceitou trabalhar no Gabinete dos Prefeitos e Relações Federativas, que articula relações entre prefeituras e Estado em questões como busca por recursos. Ele atende prefeitos e vereadores e recebe muitas demandas, até mesmo em âmbito federal, desde 2 de janeiro de 2013. “Isso faz com que eu seja o sujeito que mais vezes possa abrir a porteira do Piratini, para que os prefeitos e vereadores demandem coisas, em busca de recursos para projetos. Estou achando esse trabalho extremamente gratificante”, comenta.

Paralelamente, Adeli trabalha com a mídia: apresenta o programa de TV Caminhando por Porto Alegre com Adeli Sell, no canal Store TV (27 – NET), é comentarista do Porto Alegre em Revista (20 – NET) e escreve artigos para jornais de bairro. Mantém escritório político no Centro, está reestruturando portal próprio na web e voltou a estudar temas de seu interesse, como Porto Alegre, gestão, marketing, turismo, mobilidade urbana e literatura: “Conversei com professores da UFRGS e da PUCRS sobre a possibilidade de fazer mestrado, mas ainda não me decidi”.

O resultado inesperado no pleito aconteceu, segundo Adeli, principalmente por causa do clima de “já ganhou” entre muitos eleitores e pela campanha “anti-tradição” que adotou. “Fiz uma campanha muito limpa, com pouco visual externo, porque eu apostava no meu trabalho de 16 anos na Câmara e na qualidade do meu trabalho”, detalha. Apesar da adversidade, o cenário pós-eleição trouxe ao político apoio da população e da mídia e abriu novas portas a ele: “Sempre é um baque, mas eu recebi muita solidariedade, às vezes de pessoas que não tinham muita ligação comigo, e isso foi o mais importante. Não fiquei tão abalado como muitos quando perdem”.

Um dos sonhos do ex-vereador é ser prefeito da Capital. Ele continua com a ideia de ter um mandato político: “Não concorrerei em 2014, pois meu foco é Porto Alegre”. Para isso, ele reflete sobre a própria conduta: “Estando fora, vejo que muitas vezes se perde muito tempo com disputas sem importância, que não trazem muitos benefícios. Se eu voltar a ser vereador no futuro, vou mudar meu modus operandi: vou dar atenção para algumas questões macro, sem me perder nas disputas internas, que muitas vezes não levam a absolutamente nada”.

Luiz Braz ainda trabalha na Câmara, mas decidiu não mais se candidatar a vereador.
Fora do plenário, mas dentro da Câmara

“Sempre me vi como um comunicador”, garante Luiz Braz (PSDB), ex-vereador com três décadas de mandato, maior tempo de trabalho na história da Câmara de Porto Alegre. Formado em Jornalismo pela PUCRS e em Direito pela Ritter dos Reis (atual Uniritter), o político tucano foi eleito pela primeira vez em 1982, quando era apresentador do programa Comando Maior, na Rádio Farroupilha. “Fui eleito por causa dessa popularidade”, admite.

Após a derrota eleitoral, e com a reeleição de Mário Manfro (PSDB), Braz foi convidado pelo colega para assessorá-lo na bancada partidária. “Discuto projetos e CPI’s com o vereador Manfro, para auxiliar sua postura no Legislativo. Também o acompanho em agendas, quando sou solicitado”, explica.

Além de assessor, o político é presidente municipal do partido desde 2 de janeiro deste ano: “Sempre desejei presidir o PSDB em Porto Alegre”. O mandatário afirma que a legenda sofreu um baque após o governo Yeda Crusius, principalmente em Porto Alegre, e que sua política atual tem a intenção de recuperar o prestígio da sigla.

Paralelamente à presidência e à bancada, Luiz Braz auxilia o Comando da Cidade, programa que vai ao ar de terça a quinta-feira, na TV Urbana (canal 55 – UHF), e edita jornal de mesmo nome, com periodicidade mensal e distribuição dirigida e gratuita. “Sempre atuaria como político, o que mudaria seria a abrangência, pois poderia atuar junto a uma comunidade, ao meu bairro”, explica.

Apesar do constante sucesso em eleições, agora estando do lado de fora da vida pública, Braz acredita que as possibilidades de reeleição deveriam ser limitadas. “O político fica viciado, chega ao fim do mandato pensando em se reeleger, acaba sendo ‘empurrado’ para buscar novo ciclo. O trabalho seria mais natural se não houvesse preocupação em reconquistar o cargo”, comenta, sem temer parecer contraditório.

O político afirma que sua derrota eleitoral se deveu à repetição e à saturação do cargo em sua vida, além de questões sentimentais que o conduziram de forma equivocada durante a campanha: “Estava há muito tempo na Casa, e acredito que falte força no poder legislativo. Com isso, o mandato perde a importância para o vereador, que não o busca mais com tanta gana”.

Braz conta que tomou decisões baseadas em sentimentos momentâneos, que o fizeram mudar o eixo de atuação, historicamente fixado no Partenon, para o Menino Deus: “Foi o primeiro bairro em que morei e sinto vontade de voltar a morar”. Segundo ele, a mudança de comunidade foi determinante para a derrota, mesmo com o investimento de R$ 75 mil na campanha – maior valor já investido por ele, mas ainda assim, bem abaixo do aplicado pelos concorrentes: “É difícil competir com campanhas que beiram R$ 1 milhão. Pelo menos 10 candidatos eleitos gastaram muito dinheiro”.

Apesar do discurso de saturação, Braz sentiu-se frustrado com resultado na eleição de 2012. “Disputei para vencer, com um sentimento semelhante ao de pessoas que fazem concurso público sem estudar. Sempre há esperanças de vencer, ou ser aprovado, no caso do concurso”, compara. Contudo, o ex-vereador diz ter assimilado rapidamente a derrota e logo tratou de agradecer à equipe e aos parceiros que historicamente o acompanharam.

Quanto a tentar novo mandato no Legislativo, ele é categórico: “Não pretendo mais ser candidato. Apenas oriento outros políticos”.

“Vitimado” pelo poder econômico e questões partidárias

Vereador eleito por duas vezes consecutivas (2004 e 2008), o engenheiro agrônomo Carlos Todeschini (PT) começou sua trajetória política em 1983, como militante do movimento estudantil e presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Participou de campanhas e mandatos petistas, como a primeira gestão de Tarso Genro como prefeito da Capital, quando foi assessor-engenheiro. Tentou se reeleger em 2012 e focou a campanha em conceitos e ideias sobre administração: “O meu entendimento é que a gestão faz a diferença na política”.

Carlos Todeschini mudou o ambiente de trabalho e hoje trabalha com o governo petista em Canoas.

Após o insucesso na eleição, Todeschini mudou o local de atuação e, em 2 de janeiro de 2013, assumiu a Secretaria de Engenharia e Arquitetura de Canoas, município comandado pelo PT. “Sempre se tem um impacto, porque você está ambientado a uma rotina. Acontece um impacto pessoal, mas nada que depois de uma semana a gente não esteja se ambientando e entendendo como funciona, para render ao máximo”, explica. Além de manter atuação junto à sigla, ele integra colegiado composto por 12 pessoas (prefeito, vice-prefeito e dez secretários mais próximos ao mandatário) e, no fim de setembro, aceitou convite para ser secretário do Meio Ambiente da gestão.

O petista acredita que a derrota eleitoral se deve a práticas ilícitas teriam feito parte do pleito. “Meu mandato tinha uma qualidade muito significante. Pessoalmente, me sinto confortável com isso, pois todas as ações que a gente abomina conduziram os vereadores eleitos aos cargos. Foi um baque político geral”, afirma.

Além de citar supostas irregularidades no pleito passado, Todeschini não considera que sua campanha tenha sido errada e concentra suas justificativas, também, na postura do Partido dos Trabalhadores durante as eleições, o que influenciou a redução do número de cadeiras na Câmara (passou de sete para cinco): “O partido errou na estratégia. O PT deveria ter tido a humildade de reconhecer que não poderia ter um candidato próprio”. Questionado se tomaria decisões diferentes durante a campanha, caso pudesse mudar o passado, Carlos direciona a resposta novamente à sigla: “Ainda reivindico uma autocrítica do partido pelos equívocos cometidos. Não se deve ter postura hegemônica, tem que olhar para os parceiros, prever alternância de liderança no poder, como, por exemplo, a Frente Ampla faz, no Uruguai”.

Todeschini pensa em voltar a se candidatar, mas não sabe quando: “Se um dia puder concorrer a um cargo executivo maior, eu pediria preferência. Não pensei em atuar por Canoas. Em primeiro lugar, tenho que fazer o melhor trabalho. Essa experiência é que vai proporcionar a confiança para um cargo político, mas não coloco como foco um projeto de candidatura. Ele deverá ser um projeto fruto de uma decisão coletiva”.

Texto: Alysson Mainieri
Fotos: Divulgação

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