Disputa eleitoral intensifica casos de agressão a jornalistas

ABRAJI registra mais de 130 casos de violência contra jornalistas em contexto político-eleitoral neste ano

  • Por: Rafaela Pfeifer (1º semestre) | Foto: Bernardo Speck (6º semestre) | 18/10/2018 | 0

A violência contra jornalistas havia diminuído significativamente se comparada com o ano anterior, em 38,51%, segundo relatório publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), em 2017. Entretanto, os profissionais “continuaram sendo vítimas de agressões, ameaças, atentados, detenções arbitrárias, ações judiciais, com o claro objetivo de cercear a liberdade de imprensa, e foram obrigados a conviver com censuras internas nas redações, manipulação dos fatos, meias-verdades e até mesmo mentiras”, diz o relatório. Envolta em polarizações, a eleição de 2018 representa uma intensificação neste tipo de violência, apontam especialistas. Conforme o diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), Daniel Bramatti, a situação é grave e impede o trabalho da imprensa, inclusive frente à quantidade de informações divulgadas online.

No cenário político eleitoral do Brasil, o aumento da tensão e dos conflitos ideológicos deixam em alerta os profissionais ligados a área da comunicação. Dia 7 de outubro, em Recife (PE), uma jornalista foi agredida verbal e fisicamente e ameaçada de estupro por dois homens, após sair do local no qual acabara de votar, conforme nota divulgada pela ABRAJI. A Associação destaca ainda outros dois casos (http://abraji.org.br/noticias/abraji-registra-mais-de-130-casos-de-violencia-contra-jornalistas-em-contexto-politico-eleitoral): o primeiro dia 11 de outubro, em São Carlos (SP), em que o jornalista Jeferson Vieira foi agredido com socos e um chute, além de ter sido insultado, pelo vereador Leandro Guerreiro (PSB). Já nodia 12 do mesmo mês, João Paciência (PDT), prefeito do município de Governador Jorge Teixeira (RO), foi acusado de envolvimento na tentativa de assassinato do radialista Hamilton Alves.

A ABRAJI registrou mais de 130 casos de violência contra jornalistas em contexto político-eleitoral neste ano. O presidente da associação, Daniel Bramatti, afirma que é de extrema importância que todas as agressões sejam registradas com boletim de ocorrência e também comunicadas à Associação, para que seja possível manter um acompanhamento dos casos e que as devidas providências possam ser tomadas e também cobradas das autoridades. “É evidente que a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão ficam comprometidas em um ambiente de intimidação em que o jornalista está sujeito a agressões. Se o jornalista se sente ameaçado de alguma maneira, fisicamente, virtualmente, moralmente, ou se ele sofre algum tipo de assédio, isso evidentemente vai ter reflexos no trabalho dele e isso precisa ser combatido.” Ainda ressalta que “existe uma tentativa de setores políticos de deslegitimar a imprensa, isso às vezes vem da esquerda e às vezes vem da direita”. Essa deslegitimação, segundo Bramatti, é considerada muito danosa tanto à sociedade quanto à democracia, pois quando o papel da imprensa é diminuído e “quando tentam fazer com que o trabalho da imprensa se equivalha a esse amontoado de notícias falsas e a esse conteúdo de má qualidade que circula, cria-se uma confusão; gente que ganha politicamente com a dúvida das pessoas. Eles querem que as pessoas duvidem de tudo e não acreditem em nada, pois quando acontecer alguma denúncia que os envolva, ou alguma reportagem que demonstre que eles estão fazendo alguma coisa errada, eles dirão simplesmente que isso é fake news. Isso está acontecendo muito nos Estados Unidos, é muito alarmante e tememos que em um contexto de autoritarismo no Brasil, isso vire uma prática generalizada”.

Os ataques contra jornalistas cresceram no início dos anos 2000, relata o ex-presidente da FENAJ, Celso Schröder, “ao ponto de nós termos construído, com o governo Dilma, um protocolo de proteção aos jornalistas. Isso significava um observatório nacional dos números da violência, acompanhando denúncias e todos os processos para não redundar em impunidades”. Esse observatório, anunciado pelo Ministério da Justiça, tiraria o país de situações como a do México, explica Schröder, o qual é permeado pelo crime organizado, onde nada é investigado, ou seja, os jornalistas continuam sendo mortos.

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