Memória da ditadura é lembrada com mais comoção e protestos na Argentina do que no Brasil

Na segunda-feira, 24 de março, cerca de 500 mil pessoas ocupam as ruas de Buenos Aires para comemorar o fim da ditadura militar e lutar pela memória dos mais de 30 mil mortos e desaparecidos. O “dia nacional da memória pela verdade e justiça” é feriado na Argentina e marca o aniversário do golpe militar que derrubou Isabelita Perón em 1976. No Brasil, nem o dia 31 de março, nem o 1º de abril estão no calendário oficial.

Veja fotos do protesto em Buenos Aires

As manifestações em Buenos Aires foram acompanhadas pela aluna de Jornalismo da Famecos Júlia Franz, em intercâmbio naquele país. Ela ficou surpresa com o tratamento das questões políticas na Argentina, que difere bastante do que acontece no Brasil. “Na Argentina há muito debate, muita reflexão, muitos cursos e palestras, com mais chance de as pessoas se informarem. Isso faz com que o povo seja mais consciente e se dê conta do quão grave foi a ditadura”, relata. Julia conta que se emocionou ao presenciar pessoas de todas as classes sociais unidas na luta por um mesmo ideal.

Enquanto um protesto contra o regime autoritário reúne meio milhão de argentinos nas ruas de Buenos Aires, não há grandes manifestações de rua marcadas para o aniversário do golpe militar no Brasil. Em vez disso, houve uma tentativa de reedição da Marcha da Família com Deus em diversas cidades.

No Brasil, a proporção de desaparecidos e mortos foi muito menor do que nos demais países da América Latina, argumenta Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH). “Dentre 70 e 90 milhões da população brasileira naquele período (décadas de 1960 e 1970), apenas 366 pessoas foram registradas como desaparecidas. Este é um dos motivos que geram a pouca adesão da população aos movimentos ou marchas no Brasil. Já na Argentina, é difícil uma família não conhecer alguém que tenha desaparecido durante a ditadura. Logo, a comoção é muito maior”, explica Krischke.

Outro fato relevante relacionado à conscientização dos argentinos é a maneira como este período se instaurou. “Na Argentina a ditadura foi massiva, enquanto no Brasil foi seletiva e psicológica”, afirma Jair. Também no Brasil prevalece a questão da impunidade: 425 militares argentinos foram condenados por seus crimes, enquanto no Brasil eles seguem sem punição.

Para assinalar os 50 anos do golpe, o MJDH elaborou uma programação – em conjunto com a Assembleia Legislativa – para debater questões da ditadura militar. Os eventos se iniciam no dia 2 de abril.

Texto: Amanda Di Giorgio (3º semestre) e Sofia Schuck (1º semestre)
Foto: Julia Franz

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