Doação de órgãos une vidas

O Rio Grande do Sul avança, ano após ano, na questão da doação de órgãos. Ainda assim, 1.628 gaúchos vivem a angústia da espera por um transplante. O poder de fazer a diferença na vida destas pessoas está em cada cidadão, pois cabe à família a decisão sobre a doação, por isso é fundamental uma conversa familiar, deixando clara a vontade de ser doador de órgãos.

Muitas famílias temem a doação pelo mito de que o familiar possa ainda estar vivo. Assim, as equipes médicas informam que os procedimentos cirúrgicos só são realizados após a morte encefálica do paciente. A médica Samantha Oliveira afirma que os órgãos precisam ter condições de realizar as suas funções de forma saudável.

Conforme dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), no primeiro semestre de 2012, o Rio Grande do Sul chegou a 15,9 doadores efetivos por milhão de pessoas ao ano. Por trás destes números está a esperança de uma nova vida para quem precisa de um doador. Quando um transplante é bem sucedido, uma vida é salva e com ele resgata-se também a saúde física e psicológica de toda a família envolvida com o paciente transplantado.

Amizade além da fila do transplante

Daniela, Valéria e Mirian foram unidas por um acaso do destino, transformando o encontro fortuito amizade duradoura. As três foram diagnosticadas com Doença Renal Crônica (DRC) e estavam na fila para um transplante de rim. Os sonhos, questionamentos e desejos das amigas foram compartilhados, ao longo de meses, durante o tratamento “na máquina”, como elas chamam o aparelho que realiza a diálise, e hoje relembram e comemoram juntas a nova vida pós-transplante.

Daniela é a mais nova do grupo e destaca-se entre as amigas por seu jeito desinibido e falante. Gosta de estar perto das pessoas, de conversar e de ajudar, que inclusive fez questão que a entrevista acontecesse na sua casa.

O carinho pela família ajudou Miriam no tratamento

Tímida e delicada, Mirian relata que sempre se cuidou durante a diálise, não bebia muito líquido e eliminou totalmente o sal e açúcar da sua dieta. “Se alguém vai lá em casa me visitar eu tenho que sair para comprar açúcar e servir no café, porque eu não consumo mais isso”, conta. Os cabelos brancos indicam a idade, mas ela prefere brincar respondendo que nem lembra mais quantos anos tem.

O carinho com os filhos e netos motivou ela na busca pelo novo rim e nos cuidados para preservar a sua vida. Depois de anos na espera por um novo rim, deu mais importância ao convívio familiar. “Tento passar o máximo de tempo que posso com meus netos. Percebi que a doença não afetou somente a mim, mas a minha filha, por exemplo, é muito mais presente e preocupada comigo do que nunca”, revela.

Mirian começou a diálise em 2006, porque o seu rim foi prejudicado pela hipertensão. Preocupada com a saúde dos filhos, ela não quis doadores da família e entrou na fila do transplante. Mirian recebeu o rim de uma doadora da Bahia, provando que toda a esperança depositada em uma nova chance não tinha sido em vão.

Valeria conseguiu um novo rim após encontrar o 5º doador

Diferente de Mirian, Valéria tentou encontrar um doador na família, mas as restrições e os problemas de saúde de seus familiares fizeram com que ela também buscasse um doador desconhecido. Com apenas nove anos, já apresentava problemas renais. Com pouco conhecimento sobre os riscos da doença e sem as devidas prevenções, a situação ficou ainda mais grave aos 36 anos.

Ao longo da espera do doador compatível, seguiu fazendo diálise três vezes por semana. A médica Samantha afirma que quando há um doador familiar vivo compatível e disposto a doar um rim, o paciente renal crônico não necessita realizar sequer uma sessão de diálise. Se bem monitorados, ambos são preparados e a cirurgia é realizada.

Valéria conta que como em qualquer tratamento, o paciente sente-se um pouco mal, mas o desconforto é tolerável. Entretanto, segundo ela, a pior parte era a proibição de ingerir líquidos. “Eu sentia muita sede, não aguentava, por isso tive muitos problemas ao longo do tratamento, ficava muito inchada”, conta.

A rotina seguiu por um ano e meio e, durante este tempo, foi chamada cinco vezes para o transplante com doadores compatíveis. Por estar doente ou viajando no momento em que avisaram, o transplante só foi realizado com o 5º doador.

Valéria revela que ficou muito satisfeita e que hoje se sente com uma nova vida. “Eu imaginava que ia ficar sempre doente, mesmo depois do transplante, mas não é assim, me sinto renovada”, descreve. Com relação às amizades adquiridas durante o tratamento, afirma que, além do carinho pelos colegas da diálise, ela criou um sentimento muito forte com a clínica onde fazia o tratamento. “É impossível não se apegar aos médicos e enfermeiros, só tenho a agradecer por tudo que fizeram por mim”, afirma.

Daniela recebeu o rim do seu marido

Em meio à entrevista, o despertador de Daniela toca, as três se olham e comentam: “hora do remédio”. Mesmo sem os três encontros semanais de outrora, a rotina das amigas continua semelhante. Por um tempo a conversa foge para a quantidade de remédios que elas tomam no dia, basicamente os mesmos e nos mesmos horários. “No início eu me confundia um pouco com os remédios, mas a gente acostuma, afinal é pra toda a vida”, afirma Daniela.

Sendo a mais jovem do grupo, Daniela leva alguns puxões de orelha das amigas. Valéria e Mirian contam que ela não cuidava da alimentação durante o tratamento e que inclusive levava lanchinhos para a diálise. Hoje com 28 anos, Daniela relembra que ficou três anos na espera de um doador, porque os seus familiares não foram compatíveis.

Preocupado com a debilitação durante o tratamento, o marido de Daniela manifestou o desejo de ser o doador. Depois dos testes de compatibilidade e do transplante do rim, o casal fortaleceu ainda mais o relacionamento. Ela afirma que não tem palavras para agradecer a atitude do marido, pois já tinha perdido as esperanças de encontrar um doador. “Ele estava muito nervoso com o transplante, mas ao mesmo tempo não queria que eu sofresse mais e fez essa prova de amor que jamais esquecerei”, revela.

As três amigas finalizaram a conversa demonstrando que sabem o quanto são privilegiadas pelo transplante. Elas mencionam o exemplo de uma paciente que teve rejeição em dois transplantes e faz diálise há 30 anos. “Nós só temos que agradecer essa nova chance. Quando estávamos na máquina, nós sonhamos tanta coisa e agora é o momento de realizar e aproveitar a nova vida”, afirma Valéria.

O processo de doação

Extintas as funções cerebrais, o paciente permanece em coma. Os primeiros testes clínicos específicos são feitos para diagnóstico da morte encefálica. Dois testes são necessários, sendo que pelo menos um deve ser realizado por um neurologista, com intervalo de pelo menos 6 horas entre os dois.

Com a confirmação do diagnóstico, um exame complementar é realizado para  demonstrar a ausência completa de função cerebral. Se isso ocorre, está detectado o óbito e surge um potencial doador. A família é informada e questionada sobre a possibilidade de transplante. Se o paciente declarou em vida essa vontade, a decisão da família se torna mais fácil.

Médica acompanha a trajetória dos pacientes

Para a médica Samantha Oliveira, o transplante renal é o melhor tratamento disponível para a doença renal crônica terminal. Além da qualidade de vida, há melhora nos índices de sobrevida, em relação aos pacientes submetidos à diálise.

Cabe recordar que os familiares podem negar o transplante mesmo se o doador tenha manifestado este desejo durante a sua vida, através de cadastros ou informação nos documentos. Porém, comprovada a situação, a ajuda para outra vida até mesmo torna-se uma forma de manter a lembrança viva.

Nesta matéria, Miriam e Valéria tiveram as suas vidas renovada por outras que passaram. Assim, uma atitude simples significa o renascimento de alguém.

Texto: Kamyla Jardín (8º semestre)

 

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