Dois anos de criação da Comissão da Verdade na visão de ex-presos políticos

Há dois anos, a presidente Dilma Rousseff sancionou a Comissão da Verdade, criada para investigar violações aos direitos humanos ocorridas no País entre 1946 e 1988. Para isso, foram e continuam sendo convocados para prestar depoimentos vítimas e acusados das violações. Após ser sancionada, em novembro de 2011, a comissão foi instalada oficialmente em 16 de maio de 2012, com prazo que se encerra em maio do próximo ano para apresentar resultados.

A Comissão da Verdade é uma grande conquista para a democracia brasileira, mas também “uma bagunça”, na opinião do músico Raul Elwanger, que foi militante e exilado político. Elwanger critica a comissão por não fornecer as informações que deveria prestar. “Eles têm um grau muito ruim de informações que, infelizmente, gera um desconforto brutal”. A comissão deveria ter uma espécie de súmula bimestral que ajudaria a apressar o trabalho. Apesar de possíveis avanços, o músico não está otimista com o trabalho da comissão e teme que suas falhas repercutam no movimento social.

Leia: Carreira musical de Elwanger começou na guerrilha

Menos exigente quanto ao desempenho da comissão até aqui, Antônio Losada (na foto), último preso político a ser liberado no Rio Grande do Sul, apontou, em entrevista ao Editorial J, o quanto foi difícil conseguir a Comissão da Verdade. “Na atual conjuntura foi o máximo que conseguimos”. Para Losada, a comissão só se concretizou porque houve uma denúncia contra o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos e mesmo assim não é o suficiente. “Eu tenho ajudado a comissão através do trabalho feito no comité Carlos de Ré, com a marcação dos locais que serviram de tortura em Porto Alegre, como o prédio da antiga Febem que serviu de prisão em 1964”.

Além deste “dever cívico”, Losada tem no seu passado a motivação para fazer este trabalho. Comunista desde a juventude, ele era líder sindical bastante atuante antes do golpe de 1964, ao ponto de ter sido preso diversas vezes em anos anteriores a queda de João Goulart. Losada ajudou a fundar, em 1969, o grupo Var-Palmares, em que participava realizando ações como pegar um caminhão de alimentos e levar a uma favela, buscar recursos, armas e papéis. Quando foi preso, em 1973, em Porto Alegre, ele já estava há quatro anos na clandestinidade.

Após a prisão, Losada lembra que foi levado ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), onde ficou três meses apanhando dia e noite: “Após três meses, fui enviado ao Presidio Central, mas fui trazido diversas vezes de volta ao DOPS, onde sofri forte pressão psicológica”. Das torturas a que foi submetido no DOPS, Losada se recorda de ter sido colocado no pau de arara, sofreu choques elétricos em todo corpo e em áreas especificas como orelha, língua e até no pênis. “O tempo em que fiquei no DOPS foi sempre encapuzado”, conta. Losada lembra que, nos interrogatórios mais fortes, havia assistência médica para que o preso não morresse do coração. “Eu não tinha noção se era noite ou dia, aquilo era para destruir a pessoa. Além disso, eles abusavam sexualmente das mulheres, colocavam várias coisas nos órgãos genitais delas, enquanto deixavam o rádio no último volume, para evitar que os gritos fossem ouvidos fora.”

Quanto ao período em que viveu no Presidio Central, o ex-guerrilheiro recorda que estudou e ajudou os presos da maneira que podia. “Eu me preocupei em fundar uma escola de primeiro e segundo graus, junto com freiras da Igreja Católica, e como nunca tinha estudado na vida, fiz minha graduação, com autorização da auditoria militar”. Um dos episódios mais tristes do período no Central foi quando teve autorização para fazer vestibular na Unisinos, foi aprovado, mas descobriu depois que só poderia frequentar o curso se tivesse, dentro da sala de aula, a escolta de dois policiais. Com isso, ele se negou a fazer o curso.

Sobre as sequelas, Losada diz que é impossível esquecer a tortura e conta que, às vezes, tem pesadelos, dá pontapés e cai da cama. “Eu sinto uma coisa muito forte quando passo pelo Palácio da Polícia (onde era o DOPS), tanto que tomo remédios para depressão e tenho dificuldade para dormir”. Com a anistia em 1979, ele foi solto e recebeu uma proposta de emprego. Livre, Losada continuou combatente. Nos anos 1980, lançou uma lista com nomes de torturadores e foi chamado de mentiroso pela Associação dos Delegados de Polícia. Ingressou na política, participou da fundação do PT, concorreu a deputado estadual em 1982 e foi vereador pelo PT nos anos 90. Atualmente, ele é aposentado pelo INSS, faz trabalhos comunitários e participa da Associação José Martin de Solidariedade a Cuba e do comitê Carlos Ré.

Texto: João Pedro Arroque Lopes (5º semestre)
Foto: Gabriela Cavalheiro (6º semestre)

1 comentário

Deixe um comentário