Economizar água é tão urgente quanto separar o lixo

Não adianta tentar colaborar com o meio ambiente gastando água para lavar o pote de iogurte que será jogado no lixo. O cuidado com a separação dos resíduos deve ser associado a outra preocupação sustentável dentro de casa: o uso racional da água.

Em Porto Alegre, a orientação oficial é retirar os restos de comida dos recipientes recicláveis apenas superficialmente, com guardanapos já utilizados ou folhas de jornal. “Nós não podemos desenvolver um trabalho de educação ambiental fazendo com que as pessoas utilizem água para ajudar na reciclagem”, afirma o diretor da Divisão de Projetos, Reaproveitamento e Reciclagem do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), Jairo Armando dos Santos.

De acordo com o DMLU, os únicos resíduos que não podem ter nenhum tipo de contato com o material reciclável são a gordura, borra de café e erva-mate. Se um copo de isopor sujo de café for jogado no lixo seco, por exemplo, pode tornar o papel na mesma lixeira inutilizado para a reciclagem. Nesses casos, a recomendação é abrir mão do reaproveitamento e encaminhar os materiais sujos ao lixo orgânico.

Outra solução seria deixar os potes e latas dentro da pia para aproveitar a água que escorre ao lavar a louça. Aí, porém, o Departamento Municipal de Água e Esgotos lembra que a maioria das pessoas está acostumada a desperdiçar muita água na cozinha, assim como no chuveiro. O DMAE recomenda que as torneiras só sejam abertas para enxaguar rapidamente o que já foi ensaboado. “Uma torneira aberta por um minuto gasta três litros de água. Isso é mais do que a recomendação de ingestão diária de líquido por uma pessoa, de dois litros”, ressalta o diretor-geral do órgão, Flávio Presser.

Além disso, os resíduos gordurosos podem se tornar uma fonte de poluição dos recursos hídricos. Conforme estimativas, um litro de óleo como azeite ou manteiga pode contaminar entre 10 e 25 mil litros de água. Ao lavar potes de iogurte ou latas de óleo, o cidadão pode acabar causando mais prejuízo ao meio ambiente do que os benefícios da reciclagem.

Porto Alegre não sofre com racionamentos de água como algumas cidades da Região Metropolitana, como Viamão e Gravataí, que são abastecidas por outras bacias hidrográficas. Mesmo assim, a mudança do gosto da água potável durante os períodos mais quentes e secos é um sinal de que o recurso não pode ser tão esbanjado também na capital. “O que acontece com a baixa do nível do Guaíba é a proliferação de algas, que leva ao gosto de barro na água. Produtos que a gente adiciona garantem que a água continue própria para o consumo, mas a orientação é sempre economizar”, aconselha o diretor do DMAE.

Tecnologia para transformar o lixo

A mistura de restos de comida ao lixo seco não seria um problema se a coleta seletiva determinasse a separação de papeis, plásticos, vidros e metais em diferentes cestos. No entanto, segundo o diretor Jairo Armando, essa opção se tornaria inviável economicamente. “O caminhão carrega qualquer resíduo reciclável para as unidades de triagem, onde os trabalhadores são responsáveis por destinar cada material para a indústria específica. Separar papel de vidro, em casa, não evitaria a necessidade de depois separar entre os tipos de vidro, plástico verde, plástico transparente, e por aí vai”, justifica.

O modelo de dois tipos de cestos de lixo é utilizado na maior parte do mundo. A diferença é que, aqui, boa parte do que é encaminhado à coleta seletiva não chega a ser reciclado. Plásticos de salgadinhos e de bandejas de comida congelada são alguns dos materiais que precisam de uma tecnologia mais avançada para o reaproveitamento. Algumas indústrias adotam o sistema em São Paulo, mas os custos não compensam o transporte.

Lixo é dinheiro

A estimativa da Prefeitura é de que apenas cerca de 7% do lixo produzido diarimente em Porto Alegre se transforme em novas matérias-primas. Para o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, além da falta de investimento em tecnologia, o poder público não dá conta de recolher tudo o que é descartado. O sociólogo e ex-catador Cristiano Benites de Oliveira aponta o aumento de mais de 25% na produção de lixo na última década no país. “O DMLU não sabe o que fazer com o lixo que tem se proliferado em focos de deposição irregulares. Com a oferta de crédito, a economia e o consumo em alta, maior é a geração de resíduos da modernidade. A gente vive cercado de coisas e a maioria delas acaba sendo descartada”, analisa o representante do MNCR.

Por isso, os catadores argumentam que a criminalização do uso de carroças e carrinhos de reciclagem, proposta pela Prefeitura de Porto Alegre, pode atrasar as políticas de destinação correta do lixo. Para Cristiano, a solução não é pensar em outras profissões para os carroceiros, e sim num modelo de qualificação para que eles se tornem agentes da reciclagem. “O catador pode ajudar a humanizar a coleta, ajudar na educação ambiental porta-a-porta. Os contêineres tornam a coleta mais fria, não ajudam em nada a conscientizar a população sobre a separação do lixo”, destaca.

A instalação dos contêineres, há dois anos, evidenciou que muitos porto-alegrenses ainda não incorporaram a separação do lixo à rotina. Umas das estratégias do DMLU, nos últimos meses, é tentar advertir os moradores que misturam material reciclável ao lixo domiciliar. Fiscais têm procurado por documentos com nomes e endereços para autuar aqueles que não colaboram para o reaproveitamento do lixo.

Porto Alegre foi a primeira cidade do Brasil a implantar a coleta seletiva através do poder público, há 23 anos. Hoje, todas as regiões da cidade têm recolhimento do lixo seco ao menos duas vezes por semana. O material é levado para as 18 unidades de triagem credenciadas pela Prefeitura, onde trabalham 700 catadores. Pelo menos outras duas mil pessoas tiram o sustento do material reciclável encontrado nas ruas da Capital.

Texto: Bibiana Borba (8º semestre)

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