Entre idas e vindas

Seu nome é Vilmar Fraga da Silva, mas todos o conhecem por “Beleza”. Foi a partir desse apelido que ele se tornou um personagem de Porto Alegre. Com 50 anos e apenas 10% de visão, Vilmar ganha a vida vendendo loteria nos ônibus. O apelido surgiu quando em um dia comum de trabalho um motorista se despediu dele dizendo “beleza”.

É de impressionar a sua popularidade. Enquanto está nas paradas, motoristas abrem a porta, cobradores se viram e puxam a janela, tão somente para gritarem a ele: BELEEEZA! E ele retribui da mesma maneira e com um largo sorriso. O carisma torna-se seu grande diferencial. Em sua abordagem, antes de percorrer o corredor do veículo, transmite mensagens de boas energias e felicidade. Acaba cativando os passageiros, que não resistem à oferta de sorte. Mesmo depois de ter finalizado as vendas, não desce logo em seguida. Agradece, deseja boa sorte, e canta, para contagiar – ainda mais – quem está no ônibus. No repertório, músicas do cantor Roberto Carlos, como “Detalhes” e, mais recentemente, “Esse cara sou eu”.

Foi assim que encantou àqueles que encontra dia sim, dia não. Também assim conquistou a esposa, cobradora de ônibus da empresa Carris. Conheceram-se enquanto os dois trabalhavam e há seis anos estão casados. “Ela é maravilhosa, mas muito ciumenta. No início do relacionamento, até pediu para eu procurar outro serviço. Atendi ao desejo dela, mas não deu certo. Minha vida é essa, assim que sou feliz. Depois de um ano e oito meses, conversei com ela e voltei a fazer o que gosto e o que sei”, detalha.

Desde 2001, com exceção do período em que esteve afastado da atividade por motivos de ciúme da esposa, entre 2008 e outubro de 2009, a rotina de Beleza se resume a apostar todos os dias, de segunda a sexta, as mesmas cinco dezenas. A escolha da compra acontece de acordo com as vendas e onde ele está no momento. Faz uma pausa às 13h30min para o almoço, retorna uma hora depois e finaliza as vendas do dia às 17h, após embarcar em aproximadamente 70 ônibus permanecendo por no máximo duas paradas em cada um deles. Como resultado, um lucro que gira de R$ 75 a R$ 90. E algumas gorjetas. Mesmo sendo um trabalho árduo e cansativo, acredita que seja compensatório.

“O que mais me satisfaz é o retorno que recebo das pessoas, demonstrado no carinho, na admiração, no respeito.” Conquistar isso não é fácil e manter é mais complicado. “Por exemplo, há algum tempo os vendedores se reuniram pra combinarem de vender a R$ 2 o bilhete. Eu me recusei. Já ganho 100% em cima vendendo a R$ 1,50, acho injusto e desrespeitoso com quem compra. Me tornei conhecido justamente por respeitar qualquer um que esteja ao meu redor”, desabafa.

Vilmar consegue revender todas as apostas. Sobrar, tanto quanto acertar o jogo é praticamente um milagre. Quando chega a acontecer, é apenas mais uma chance de ficar rico. Suas cinco dezenas ainda não foram sorteadas, para deleite de quem possa encontrá-lo no cansativo dia a dia.

Texto e Vídeo: Evelyn Heinrich (6º semestre), Fernanda Tatsch (6º semestre) e Gabriel Araújo (7º semestre)

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