Escândalo do Tamiflu reacende debate sobre transparência na medicina‏

A transparência nos processos de produção da indústria farmacêutica está novamente no centro do debate público. Um  estudo científico divulgado no dia 10 de abril pela rede investigativa Cochrane Collaboration, apontou a ineficiência do tratamento médico com o remédio Tamiflu, principal medicamento usado pela população mundial no combate à Gripe A.

Em 2009, quando o vírus H1N1 tornou-se uma epidemia mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou o medicamento para o tratamento da Gripe A, induzindo diversos países, como Brasil, Estados Unidos e Inglaterra, a investirem bilhões de dólares em estoques do produto. Após cinco anos de fabricação do remédio, a Cochrane Collaboration publicou o primeiro estudo científico com as informações necessárias para uma conclusão concreta sobre a eficácia do medicamento, após quatro anos de batalha com a Hoffman-La Roche, empresa fabricante, pela liberação completa dos relatórios. De acordo com o novo estudo, o remédio não melhora os sintomas dos infectados e não impede que o vírus se espalhe.

A nova pesquisa revela opiniões divergentes dentro da comunidade científica. Formada por redes de investigação médica sem fins lucrativos, como a Cochrane Collaboration, a BMJ Group e a Sense About Science, a Alltrials Registered reivindica a regulação da indústria farmacêutica através da divulgação completa dos relatórios de produção dos novos medicamentos. Segundo a organização, milhares de testes não são nem mesmo registrados pela indústria, induzindo a tratamentos deficientes e desperdiçando a oportunidade da praticar uma medicina de melhor qualidade.

Para o professor do curso de Farmácia da PUCRS e coordenador financeiro do Laboratório Analítico de Insumos Farmacêuticos (LAIF), Airton Monza, a omissão de parte de relatórios sobre a fabricação de remédios é uma prática comum e estratégica do ponto de vista comercial. Monza lembra que nenhuma indústria costuma revelar os dados completos de produção, devido à concorrência e à espionagem entre as empresas. Segundo o professor, a omissão não compromete a qualidade dos remédios, pois os fabricantes ganham mais com a comercialização de bons produtos no longo prazo, do que na fabricação de medicamentos sem qualidade, que podem ser rapidamente desmascarados. De acordo com Monza, o novo estudo não leva a uma conclusão imediata sobre a eficiência do remédio. A recente pesquisa deve estimular novos testes clínicos com o medicamento ao longo dos próximos anos.

No Brasil, o Ministério da Saúde investiu R$ 400 milhões em estoques do remédio. Em 2013, o então ministro da saúde, Alexandre Padilha, atrelou as mortes causadas pelo vírus H1N1 à demora dos pacientes em começar o tratamento com o Tamiflu. Até então, nenhum governo no mundo tinha acesso a todos os dados necessários para avaliação completa do produto. Professor da PUCRS e coordenador da LAIF, José Aparício Brittes Funck lembra que os órgãos governamentais de regulação têm o poder de exigir os testes completos das empresas.

O Ministério da Saúde afirma que o estudo da Cochrane Collaboration será avaliado. Segundo a Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, a comunidade médica está orientada para que o medicamento seja dispensado aos pacientes que apresentarem os sintomas da gripe H1N1. As principais redes de farmácia do Estado ainda vendem o Tamiflu, a um preço médio de R$ 200.

Texto: Gabriel Gonçalves (3º semestre) e Júlia Bernardi (3º semestre)
Foto: Wikimedia Commons

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