Aprendendo através de sinais

Conheça como é o ensino para deficientes auditivos em Porto Alegre

  • Por: Kamylla Lemos (6º sem.) | Foto: Guilherme Almeida (8º sem.) | 27/09/2016 | 0
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Alunos do colégio Concórdia sinalizando. Foto: Guilherme Almeida/Arquivo Editorial J, junho de 2014

No Dia Nacional e Mundial dos Surdos, 26 de setembro, quatro escolas especializadas de Porto Alegre registraram a data que marca a inauguração da primeira escola para deficientes auditivos do País. Em 1857, no Rio de Janeiro, o professor francês Eduard Huet criou o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). Por causa disso, esse mês é conhecido como setembro azul. A cor foi escolhida para lembrar a fita azul que os deficientes eram obrigados a usar nos campos de concentração, na época da 2ª Guerra Mundial.

As quatro escolas para surdos de Porto Alegre são a de ensino fundamental Frei Pacífico,  que completou 60 anos em julho de 2016; de ensino médio Professora Lília Mazeron; de ensino fundamental e médio Concórdia (com 102 alunos) e de ensino fundamental Salomão Watnick (70 alunos). A reportagem do Editorial J visitou as duas últimas.

O Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), a primeira escola fundada no Brasil, continua funcionando e é referência em educação na área da surdez. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que há 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no Brasil, sendo mais de 2 milhões deficientes auditivos.

Situada no bairro Intercap, a Escola Salomão Watnick é uma das duas públicas de Porto Alegre. O ensino é bilíngue, ou seja, a primeira língua é a de sinais e a segunda, o português. Além do ensino regular, também é oferecida a modalidade EJA, voltada para pessoas que não concluíram ensino médio ou fundamental. Durante o turno da tarde são oferecidas oficinas de robótica, informática e pequenos reparos.

Todos os professores da Escola Salomão Watnick são ouvintes. A diretora Thais Fernandes ressalta que o problema é que, como a escola faz parte da rede municipal, só atuam professores concursados e eles não têm a possibilidade de contratar alguém de fora. “O professor é um professor da rede, que faz concurso para geografia, história e que topa trabalhar numa escola para surdos”, explica. No início, ele é auxiliado por um intérprete, mas depois é aconselhado a buscar formação para se comunicar através de sinais.

Para a diretora, escolas só para surdos são o ideal. “Os alunos precisam ter a aquisição da língua e para isso precisam conviver com iguais. Não adianta ter um surdo e 500 ouvintes, não vai ter ninguém para interagir com ele”, reflete.

Como as demais escolas públicas do município, a Salomão Watnick tem problemas de estrutura. “Falta um gradil e revisão da parte elétrica”, conta a diretora. Também não há seguranças no portão da escola. “Não temos guarda municipal dentro da escola. Se vemos a necessidade, ligamos para eles”, explica.

De ensino particular, mas com 99% de bolsas, a Unidade de Ensino Especial Concórdia pertence à rede de escolas Ulbra e apresenta, assim como as outras, ensino bilíngue. Localizada no bairro Jardim Ipiranga, a escola recebe alunos desde os dois anos de idade, quando é priorizado a aquisição da primeira língua. “Quando os pais são ouvintes, eles vem sem nenhuma língua”, explica a orientadora educacional da escola, Gladis Fleck. Nesta escola, todos os funcionários sinalizam e os professores precisam ser fluentes em libras, ter licenciatura e a especialização em educação para surdos.

A escola oferece oficinas de teatro e dança aos sábados, dia em que a maioria dos alunos tem folga. As turmas são pequenas, o ensino infantil, por exemplo, conta com cinco alunos. Pela estrutura, a escola suportaria o dobro de alunos, mas faltam profissionais em certas disciplinas.

Dentre os alunos, nem todos são moradores de Porto Alegre. Devido à qualidade de ensino, muitas pessoas vêm de outras cidades e estados para a escola. Algumas mães trazem seus filhos de outras cidades e os esperam até o final da aula.

Pensando no futuro dos alunos do ensino médio, a escola encaminha, quando o alunos solicita, para programas como Jovem Aprendiz. “Como a gente trabalha com muitos alunos carentes, muitos precisam ajudar na renda da família”, relata Gladis. Também são organizadas visitas a faculdades e mostras de profissões. “O que a gente tem que dar é uma base boa pra eles. Ter alunos críticos, que levantem uma bandeira, saibam pelo o que estão lutando e possam continuar essa luta”, sustenta a orientadora.