Eu, Carolina

A luz pisca sem parar enquanto Carolina Schults bate cabelo em cima do seu salto plataforma de oito centímetros. O público acompanha a apresentação dela e de outras drag queens aos gritos, na noite de domingo, no Vitraux. O domingo sempre é a noite mais movimentada e, consequentemente, a que dá mais lucro. Carolina recebe entre R$ 150 e R$ 200. O dinheiro não é o suficiente para se manter, até porque ela geralmente faz suas performances duas vezes por mês, mas é uma valorização do seu segundo trabalho – que, na verdade, é encarado como uma diversão.

A roupa vermelha que ela veste é cravejada de pedras, as quais comprou com o dinheiro das apresentações e do seu trabalho como cabeleireiro e maquiador, tarefa realizada durante os dias da semana, quando se chama Cássio dos Santos Rezende. Ele, homem tímido de 29 anos, há quatro resolveu deixar o preconceito de lado e “se montar” pela primeira vez, após manter para si a vontade de fazer isso durante seis anos.

Cássio mora com sua mãe, Ana Maria dos Santos Rezende, formada em Educação Física, nos fundos da academia da família, em Jardim Vila Nova, zona sul de Porto Alegre. Vê seu pai cerca de uma vez a cada três meses, desde que ele se separou da sua mãe. O irmão e a cunhada aparecem com frequência em casa. Toda a família sabe que ele é homossexual, e aceitam tranquilamente, contudo nenhum deles sabe que ele é uma drag queen. Ele tem medo de contar para eles.

Drag queens são homens que, independente da sua orientação sexual, transvestem-se de mulher para realizarem performances que geralmente são de dança e dublagens de músicas. A maioria dos shows ocorre em ambientes LGBTs, porém algumas drag queens também são animadoras de festas e casamentos.

Para que a família não descubra, boa parte das roupas fica na casa de um amigo que mora no mesmo bairro. Seu companheiro também se apresentou na noite de domingo, com o nome de Mellany Vogue. As perucas e as roupas femininas que Cássio guarda em casa, diz ser da Mellany.

Quando a questão é relacionamentos amorosos, o fato de se apresentar é um empecilho. Muitos gays têm preconceito com a sua profissão. “(Os relacionamentos) Sempre foram bem difíceis pelo fato de fazer show. Existe um preconceito no mundo gay com isso”, lamenta Cássio.

Ele não costuma sair dos trajes femininos na rua. Entretanto, quando sai, sempre em grupo, a maioria das pessoas tem aceitação, alguns até pedem para tirar fotos. Já outros chegam a atravessar a rua para não passar por eles. Cássio não se lembra de alguém que tenha sofrido agressões físicas. No entanto, agressões verbais, como “Vai botar uma cueca, putão”, são uma constante.

Em dezembro, Carolina gastou cerca de R$ 700 na confecção de uma roupa e concorreu ao Top Drag Vitraux. Havia dito para si mesma que, caso ganhasse, iria se revelar para a mãe. Acabou o concurso na terceira colocação e sentiu-se desmotivada a falar a verdade.

A diferença é grande entre Carolina e Cássio: “Boto uma peruca na cabeça e mudo, até na questão de personalidade”. Ao trocar de roupa, o tímido Cássio sai de cena e dá lugar a extrovertida Carolina: “Não parece que o Cássio está por baixo da Carolina, parece que só existe a Carolina. E aí sou muito mais espontâneo, muito mais divertido. Falo muito mais com as pessoas”. Quanto ao futuro, tão incerto, Cássio tem a certeza de que quer continuar se apresentando. “Não largo isso porque gosto muito”, conclui.

Texto e Produção: Douglas Roehrs (7º semestre)

1 comentário

  • Cassio/Carolina, adorei o artigo!
    Tu merece amore!
    A loucaaaaa!
    Ti amu!

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