“Eu não gosto de fazer previsões futuristas”, diz cofundador da Apple Steve Wozniak

Na quinta-feira (6), a PUCRS promoveu evento com o empreendedor e inventor Steve Wozniak e o profissional de marketing digital Neil Patel

  • Por: Samira Rodrigues (4º semestre) | Foto: Igor Dreher (4º semestre) | 12/07/2017 | 0
Co-fundador da Apple palestrou em evento ocorrido no Centro de Eventos da PUC-RS
Co-fundador da Apple palestrou em evento ocorrido no Centro de Eventos da PUC-RS

Em milênios, o domínio da linguagem passou da mão de poucos, como os escribas no Antigo Egito, para a de muitos por meio de processos de impressão e reprodução de símbolos. Hoje, segundo o sociólogo e filósofo francês Pierre Lévy, a nossa civilização tipográfica está dando lugar a uma fundamentada em algoritmos e do processamento e análise de dados.

Na noite de quinta-feira (6), a PUCRS recebeu o cofundador da Apple Inc. Steve Wozniak e um dos mais reconhecidos profissionais de marketing digital da atualidade, Neil Patel, em um evento de divulgação do novo MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing (GEM), da Escola de Negócios da universidade. Wozniak e Patel, entre outros grandes nomes do mundo do empreendedorismo, serão professores convidados da modalidade à distância do curso, a qual a PUCRS promove em parceria com Uol Edtech.

O público contou um pouco antes das palestras o que esperava do evento
O público contou um pouco antes das palestras o que esperava do evento

Expectativa

“Eu acho que todo mundo veio para cá esperando uma receita de bolo”, afirma a jornalista Deysi Cioccari, que compareceu às palestras para entender como Steve Wozniak e Patel chegaram onde estão. “O Neil Patel é um cara muito novo. Como ele consegue tão cedo ser tão influente? Às vezes, a gente trabalha anos e não consegue desenvolver metade do que ele desenvolveu”.

Pai e filho, Robinson e João Pedro Rosa têm expectativas diferentes para o evento. “É importante ouvir o que este tipo de pessoa tem para dizer, porque de certa forma eles dominam o mundo hoje, e também pode me ajudar a escolher o que eu vou querer ser no futuro”, conta o estudante de 15 anos, João Pedro. Já Robinson, que é empresário, tem trabalhado na área de marketing digital em sua corretora de seguros e procurava, na palestra, inspiração: “A gente está enfrentando muros e muros, e eu não enxergo uma luz. Eu acho que o Neil Patel vai me trazer essa luz, que eu espero que seja uma loucura. Mas é de uma loucura que se encontra a saída”.

A professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) de Brasília Márcia Mello acredita que “nesta troca, ouvindo pessoas que fazem a diferença, a gente aprende muito, muitas vezes mais do que lendo teoria”. Márcia conta que palestras com grandes ícones sempre podem trazer algum insight à audiência. “De alguma coisa que eles dizem, cada um consegue fazer uma conexão com o dia a dia, com os seus desafios. Estar perto de uma pessoa que fez e faz a diferença motiva qualquer pessoa de qualquer idade”, afirma.

Neil Patel

Neil Patel falou na primeira parte do evento
Neil Patel falou na primeira parte do evento

Por volta das 18h40 da tarde, Neil Patel esgueirou-se ao palco com o microfone desligado, dando início à sua palestra sobre criação e monetização de conteúdo em blogs. Influenciador digital e cofundador de duas empresas de metrificação para sites, o CrazyEgg e o KISSmetrics, Patel começou sua apresentação de slides classificando essa última plataforma como um fracasso em sua trajetória. “Só porque alguém fala em um palco não quer dizer que eles sempre tiveram sucesso”, brinca o palestrante.

Entre dicas e estratégias para melhorar a qualidade e o faturamento do conteúdo de blogs, Neil Patel, considerado pela Forbes um dos 10 melhores profissionais de marketing digital da atualidade, falou sobre o potencial do Brasil para o empreendedorismo digital: “De todos os países do mundo, eu já estou atuando nos Estados Unidos. Qual vocês acham que é o segundo país do mundo em que eu estou focando agora? Brasil, porque eu acho que há mais potencial aqui do que em qualquer outro lugar atualmente”.

Reconhecendo a complicada condição financeira em que se encontra o país, o empreendedor acredita que “daqui a cinco ou seis anos, o Brasil vai estar completamente diferente. Está mudando rápido”. E complementa: “Recessões são o melhor momento para começar um negócio. Não tenham medo desta turbulência econômica. Vocês vão superá-la e vão sair dela mais fortes”.

Steve Wozniak

Steve Wozniak entrou com estilo no palco da palestra
Steve Wozniak entrou com estilo no palco da palestra

Ao som de We Will Rock You, de Queen, interpretado pelo Coral da PUCRS, Steve Wozniak subiu ao palco escoltado por seguranças. O engenheiro elétrico que fundou a Apple Inc., juntamente com o Steve Jobs, iniciou sua conferência em um tom bem-humorado. “Quando nós começamos a Apple, nós queríamos fazer pessoas desabilitadas, como as pessoas cegas, serem equivalentes àquelas que têm visão”, conta Wozniak. “Olhando para trás depois de todas estas décadas, nós tivemos sucesso. Porque, em todo o lugar que você vai, as pessoas estão todas cegas ao mundo”, brinca Wozniak, fazendo referência às pessoas que se escondem atrás de seus celulares, alheias ao mundo à sua volta.

Sua apresentação ocorreu na forma de uma conversa com o jornalista e mediador do evento, Marcos Piangers. O inventor dos computadores Apple I e II respondeu a 15 perguntas pré-selecionadas por sua produção. Falante, ‘Woz’ divagava: falava sem parar até perder-se e perguntar confuso para o moderador: “Qual foi a pergunta mesmo?”.

Vale do Silício e educação

Quando questionado sobre o potencial de inovação do Brasil e sua capacidade de formar líderes no mundo tech como os Estados Unidos, Steve afirmou que encontra essa questão em quase todo o lugar no mundo que visita. “Todo mundo quer capturar o sucesso do Vale do Silício”, fala. Wozniak conta que, na atualidade, conhecimento está disponível e está em todo o lugar. “Nós nos estendemos para fora do vale. Hoje em dia, [o que importa] é software mais do que hardware”, aponta o ícone do Vale do Silício da década de 70. “Hoje, a maioria das coisas que afetam sua vida são software”, diz. “É bem fácil começar empresas de software em qualquer lugar no mundo. Você não precisa do mesmo nível de recursos [que uma empresa de hardware]”.

“Eu adoro conversar com pessoas em colégios ou em universidades, pois foram nesses momentos na minha vida que eu tive liberdade, eu tive independência”, revelou Wozniak. “Eu podia ter ideias e pensamentos e podia estudá-los mesmo se eles não estivessem nas aulas”. E complementa: “Educação está em todo o lugar na sua vida. Você tem que permitir que a sua mente tenha liberdade intelectual ou você não vai criar as grandes coisas que mudam a vida”.

Steve é um grande crítico do sistema de educação atual. “No meu mundo, você deveria escolher o que te interessa e estudar somente isso”, idealiza o engenheiro. “Mas não dá para fazer isso, porque há um professor para trinta alunos. Todos eles devem aprender a mesma coisa no mesmo ritmo. […] O que nós precisamos é um professor por aluno”.

 Previsões

Steve Wozniak conta que, quando trabalhava na Apple, sabia exatamente como seriam os próximos anos em termos de tecnologia, pois ele próprio estava trabalhando nos produtos que moldariam o futuro. Hoje, já não tem mais essas certezas: “Eu não gosto de fazer previsões futuristas. Coisas que vão acontecer, se conseguiremos transportar nossa sociedade para Marte, coisas assim”. E ainda adiciona: “É fácil ser futurista, porque você nunca é responsabilizado ou julgado no presente”. O inventor revela preferir ler sobre o futuro em livros de ficção-científica.

Wozniak diz que, por ser um engenheiro, gosta de manter seus pés no chão, por isso fala sobre tecnologias mais realistas, aquelas que já existem, mas que têm um potencial de se desenvolverem mais ainda no futuro. Ele cita plataformas de realidade virtual: “Realidade virtual permite que você se coloque em um mundo em que você não está de fato. É uma ótima oportunidade de visitar o mundo, de experimentar coisas em lugares em que você não está presente”. Embora hoje tenha mais apelo na indústria de jogos eletrônicos, ‘Woz’ acredita que o VR (Virtual Reality) é tão “emocionalmente eficaz” que se estendera para outros campos.

Outra tecnologia em que o cofundador da Apple vê muito potencial é a realidade aumentada. Ele acredita na capacidade dessa ferramenta de transmitir informações adicionais sobre o mundo em que vivemos. “Eu poderia, na teoria, usar óculos que me dizem o seu nome, o seu histórico de navegação, tudo o que você comprou, e com quem você se comunica”, afirma Wozniak, mas logo revela estar brincando quanto ao nível de especificidade da tecnologia.

Depois do evento

O evento excedeu as expectativas do público
Evento excedeu as expectativas do público

No fim das conferências, a atmosfera do público era de deslumbramento. A jornalista Roberta Fofonka se surpreendeu com o viés mercadológico da palestra de Neil Patel. “Foi muito legal pensar, sendo alguém que produz conteúdo, como é que o meu conteúdo vai virar renda para mim […], porque o grande problema da comunicação hoje é saber como ganhar dinheiro”, diz.

A professora da FGV de Brasília, Márcia Mello, exaltou a humildade de Steve Wozniak, dizendo que sua simplicidade faz com que qualquer jovem na plateia acredite que pode trilhar os passos do cofundador da Apple. “Ele começou de uma forma simples, não pensou em se tornar o que ele é. Ele foi atrás de um sonho. Não precisa ser lá no Vale do Silício. Pode ser aqui, no vale da PUCRS, na TECNOPUC”, declara.

A fundadora do grupo Blue Tree Hotéis, Chieko Aoki, que também será professora convidada no novo MBA da Escola de Negócio da PUCRS, afirma que o evento superou suas expectativas, principalmente por causa da fala de Wozniak. “Ele é essencialmente voltado à tecnologia, mas a parte humana dele é muito maior do que a tecnologia. Isso eu achei fantástico”. E completa: “Afinal, o que importa é ele pensar como a tecnologia pode ser útil às pessoas. O foco dele é as pessoas, a tecnologia é um meio”.