Expansão imobiliária ameaça a preservação da natureza no extremo sul de Porto Alegre

Enquanto a duplicação da avenida Beira Rio leva à derrubada de 75 árvores exóticas, uma área nativa de mais de 400 hectares é desmatada, no extremo sul de Porto Alegre, para a construção de uma nova unidade do condomínio Alphaville. Na mesma região, edifícios do programa Minha Casa, Minha Vida são erguidos em áreas de proteção natural permanente. Tanto os investidores da rede imobiliária de luxo quanto os beneficiários do projeto do governo federal estão indo morar em terrenos de aterros habitados, até hoje, por centenas de espécies de animais silvestres que dependem da vegetação nativa para sobreviver.

De acordo com os estudos do Instituto Econsciência, vinculado a grupos de pesquisa em Biologia e Geografia da UFRGS, o crescimento populacional de Porto Alegre não justifica a urbanização do extremo sul. “O que se vende hoje é um conceito do mercado imobiliário de uma casa no meio do verde. E, para isso, o verde está sendo destruído”, alerta um dos diretores da ONG, Felipe Viana. Os voluntários do instituto trabalham num mapeamento da disputa territorial em toda a região sul da capital. Além de proteger a fauna e a flora, o objetivo é tentar garantir a permanência de produtores agrícolas e de comunidades indígenas caingangues e guaranis.

O bugio-ruivo é uma das espécies naturais do extremo Sul de Porto Alegre, ameaçada pelo avanço da urbanização.
Os especialistas em gestão ambiental não negam que a retirada das árvores em frente à Usina do Gasômetro também é símbolo do privilégio preocupante ao concreto, mas travam uma luta muito maior para que a especulação imobiliária não destrua a única região da capital que ainda pode ser chamada de rural. Ou melhor: rururbana. Foi essa simples mudança de definição no Plano Diretor, em 1999, que permitiu o avanço da ocupação imobiliária na zona sul. “O que a gente tem hoje são porteiras abertas. Não existe um planejamento da cidade como um todo. O mesmo tipo de condomínio pode ser construído na avenida Bento Gonçalves ou no Lami”, ressalta Felipe.

A revisão das políticas de planejamento urbano na zona sul foi uma das promessas do prefeito José Fortunati, em 2012. Representantes de entidades civis chegaram a ser convidados para formar um Grupo de Trabalho, que acabou extinto no final de outubro do ano passado – logo depois da reeleição do representante do PDT. Procurada pela reportagem, a Prefeitura afirmou, por meio de assessoria de imprensa, que a discussão sobre a zona rural deve ser retomada até o final de 2013, depois das avaliações da reforma administrativa do município para o novo mandato de Fortunati.

A esperança mais concreta dos ambientalistas, no entanto, tramita hoje na SMAM (Secretaria Municipal do Meio Ambiente). A zona sul pode ser classificada como uma APA, uma área de preservação ambiental de trechos de ecossistemas do Pampa e da Mata Atlântica. O instrumento oficial não impediria a construção de novos empreendimentos, mas pode criar delimitações importantes para questões mais urgentes, como a manutenção dos índios e a remoção de famílias de baixa renda para a região.

O representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) no Conselho do Plano Diretor da capital, Fernando Campos Costa, também chama a atenção para a questão social da transferência de moradores. Muitos ainda devem ser desalojados em razão de obras, por exemplo, da região da avenida Tronco e da Vila Cruzeiro do Sul, sob a promessa de moradias melhores em bairros mais afastados da zona sul, como a Pitinga. “Lá não tem infraestrutura, não tem transporte, posto de saúde, escola. A gente quer evitar que essas famílias vivam uma situação como a da criação da Restinga, que foi muito difícil pra quem foi levado para lá”, lembra o conselheiro. Ainda, os arquitetos reforçam a causa dos ambientalistas com o argumento de que as edificações construídas em áreas de aterro podem ter problemas estruturais em poucos anos.

Com a divulgação de um levantamento georreferenciado, prevista ainda para este ano, o Instituto Econsciência espera ganhar mais apoio para pressionar as autoridades a intervirem na especulação imobiliária na zona sul de Porto Alegre. Ações judiciais já têm conseguido pequenas vitórias, como a suspensão de licenciamentos ambientais em pontos onde é proposto um estudo mais detalhado da possibilidade de preservação. “A preocupação é com a expansão urbana desordenada e com a falta de aprofundamento. Porto Alegre ainda tem a possibilidade de construir uma cidade mais saudável, mais sustentável para as próximas gerações”, acredita Fernando.

Texto: Bibiana Borba (7º Semestre)
Foto: Divulgação/Instituto Econsciência

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