Exposição de arte cancelada traz debate sobre conservadorismo no Rio Grande do Sul

Exposição Queermuseu foi acusada de retratar relações sexuais e críticas ao cristianismo

  • Por: Guilherme Milman (2° semestre) | 12/09/2017 | 0

Na tarde do último domingo (10) quando a página do Facebook do Santander Cultural colocou uma nota de esclarecimento, informando suspender a exposição Queermuseu, um grande debate se instalou nas redes sociais. A mostra artística, que retratava  temas como a diversidade e o papel da comunidade LGBT na sociedade, foi motivo de críticas por apresentar pinturas que, de acordo com os manifestantes, retratavam práticas sexuais e críticas ao cristianismo. Devido à grande quantidade de reclamações, encabeçadas por grupos religiosos e políticos, o banco Santander resolveu cancelar a exposição, que estava sendo realizada há cerca de um mês, e duraria até o dia 8 de outubro.

A repercussão trouxe à tona discussões que põem em evidência o paradoxo entre o tradicional e o novo, tais como questão de gênero, sexualidade e o verdadeiro significado de arte. Em meio ao debate, os defensores da mostra divulgaram outras obras artísticas, expostas nos principais museus do mundo, em que o tema é a sexualidade. Com isso, muitas pessoas passaram a acusar a cidade de Porto Alegre,  juntamente ao estado do Rio Grande do Sul, como despreparada para receber eventos culturais deste tipo, por ser um ambiente conservador e preconceituoso.

Para o jornalista e coordenador da ONG Somos-Comunicação, Saúde e Sexualidade, Gabriel Galli, por mais resistente que seja a capital gaúcha, Porto Alegre não pode ser vista como uma referência para o conservadorismo no Brasil. “Existem outras culturas, como a do nordeste, por exemplo, que são mais conservadoras que a gaúcha”, explica. Além disso, Gabriel desmistifica o fato do gaúcho ser mais machista que as outras regiões do país. “A gente costuma falar isso (gírias de superioridade masculina) mas as outras regiões brasileiras também falam”, comenta. Mesmo assim, existem desafios particulares em solo rio-grandense que a comunidade LGBT precisa enfrentar, como a suposta falta de orçamento do governo do estado e da prefeitura de Porto Alegre para contribuir com estes movimentos. “Isso faz com que aumente a discriminação, pois falta suporte para estes grupos quando são discriminados e é papel do estado pagar por este tipo de trabalho”, argumenta Galli.

O confronto de ideias e pensamentos vai muito além da questão sexual. Obras polêmicas como as apresentadas pelo Queermuseu estimulam um debate sobre o verdadeiro significado de arte. De acordo com a professora de Estética e História da Arte da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, Paula Puhl, falar do significado da arte, bem como sua intepretação, traz grande complexidade por se tratar de um processo de criação do autor, somado ao comportamento individual de cada indivíduo. “Se eu sei de todo o contexto da criação da obra e características do artista, eu farei uma leitura, mas se eu me deparo com uma obra que chama a minha atenção e eu me encanto somente com a sua imagem terei outra interpretação que pode ser bem diferente da que o artista pretendeu mostrar”, relata a professora. Para ela, a forma única com que a arte se manifesta com cada espectador é o que traz o encantamento da questão. “Mesmo não tendo todas as informações sobre uma obra posso admirá-la, ter algum tipo de sentimento simplesmente pela fruição da obra em si”, finaliza Paula.