Falta de investimentos prejudica futebol americano no RS

Longe do glamour e da fama do esporte nos EUA, times brasileiros lutam contra falta de investimentos e se sustentam por força própria

  • Por: Arthur Löser (2º semestre) | Foto: Divulgação/FGFA | 24/09/2018 | 0

Termos como touchdown e tackle já estão cada vez mais inseridos no vocabulário do brasileiro. A popularidade do Futebol Americano só aumenta e, junto disso, o número de praticantes também. O número de jogadores que atuam nas ligas nacionais já se aproxima de 6000, segundo Ítalo Mingoni, consultor da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), em contato com o jornal El País. No Rio Grande do Sul, destacam-se o Santa Maria Soldiers e o Juventude Futebol Americano (Caxias do Sul), ambos membros da BFA (primeira divisão do campeonato nacional). Contudo, a ausência de patrocinadores e apoiadores impossibilita um crescimento maior do esporte, que está longe de se tornar profissional.

 

Jogadores do Soldiers reunidos durante a final do Campeonato Gaúcho de 2017. Foto: FGFA

O Santa Maria Soldiers é conhecido por ser um dos mais antigos e tradicionais representantes do futebol americano do estado. O time de Santa Maria já venceu o campeonato gaúcho em cinco ocasiões, sendo a final de uma delas disputada no estádio Beira Rio, no Gaúcho Bowl. A equipe, atual tricampeã, conta com diretoria, comissão técnica e departamento médico. Além disso, disputa campeonato em duas modalidades: fullpads – modalidade que faz uso de proteções -, com time masculino, e flag football –  versão do esporte sem contato  -, com equipe feminina.

A carga de treinos é intensa e ocorre três vezes por semana, tanto para homens quanto para mulheres. Mas não é só isso. Há também demanda por atividades na academia e estudo  de jogo. Para suprir essa demanda de fora dos gramados, o time faz uso do software Huddle. Através da plataforma, os atletas analisam as jogadas, os adversários e os treinos – que são todos gravados.  

Uma das grandes diferenças do time da região central do Estado para outras equipes é que os jogadores são isentos de qualquer cobrança financeira. Para se sustentar, a equipe conta com o patrocínio de estabelecimentos da cidade e uma loja virtual própria, onde vende produtos com a logomarca. Mesmo com o apoio financeiro recebido, o time não arrecada quantidade suficiente. Por isso, não paga nenhum dos 110 atletas que compõem o elenco. William Araújo de Freitas, presidente do Santa Maria Soldiers, ressaltou que a Federação não auxilia o time financeiramente, somente em questões administrativas.

A equipe conta com jogadores estrangeiros, mas nenhum é remunerado. “Os atletas estrangeiros recebem local para morar, ajuda com alimentação e academia. Pela familiaridade com a língua inglesa, normalmente eles acabam dando aulas em espaços dos nossos patrocinadores”.

Segundo o dirigente, algo que ajuda com a receita do time é a visibilidade. Os títulos e até mesmo a foto de Tom Brady segurando uma camiseta do time personalizada, aumentam a projeção da equipe. O retrato foi postado na página oficial da equipe no Facebook. “A gente já tinha um público fidelizado em Santa Maria e no Rio Grande do Sul. (A foto) Mostrou a nossa marca para um público que não atingiríamos normalmente, como pessoas do Nordeste e Centro-oeste.”

Quando perguntado sobre a hegemonia do clube no cenário gaúcho, William foi enfático e relacionou à esfera nacional. “Por mais que sejamos uma potência gaúcha, o Soldiers ainda é um time muito novo, está no segundo ano disputando a primeira divisão. Ainda temos que buscar nosso espaço e pensar em chegar ao topo”, projetou. Em 2017, a equipe venceu o Coritiba Crocodiles, por 31×21, mas, em setembro, perdeu para o time paranaense por 15×7, em partida válida pela BFA.

Gravataí Spartans em ação contra o Bulldogs Futebol Americano, de Venâncio Aires. Foto: Gravataí Spartans

Diferente do time santa-mariense, o Gravataí Spartans é um dos mais recentes times do estado. Com atividades desde 2016, a equipe começou a disputar o campeonato gaúcho somente em 2018 e enfrentou grandes dificuldades na disputa do competição, terminando em último lugar no grupo B.

Os treinos ocorrem aos domingos, em um campo cedido por parceiros, na cidade de Gravataí. O projeto ainda é recente, está em fase de estruturação e é afetada pela falta de verbas. Para angariar fundos, o time cobra um valor mensal de cada jogador e promove eventos. Em uma situação ideal, o capital arrecadado deveria ser de aproximadamente R$ 6500, conforme o diretor esportivo Roger Rodrigues. Com  isso seriam feitos investimentos para contratação de um headcoach – treinador principal -, melhora de infraestrutura e compra de equipamentos. Assim como ocorre com o Soldiers, a federação não concede ajuda financeira ao Spartans.

Um dos problemas que frustraram a participação da equipe na competição foi a debandada de atletas para times melhor estruturados, revela Roger. “Nós começamos o campeonato gaúcho com 72 atletas. Do primeiro para o segundo jogo, o número já caiu para em torno de 50. Disputamos o último jogo da competição com 32.” Além do campeonato gaúcho, a participação na Copa RS também foi comprometida devido ao baixo número de jogadores, afastando o time do torneio.

A direção ainda espera a confirmação da primeira edição de uma segunda divisão do campeonato gaúcho. A esperança é de que, assim, os jogos fiquem mais equilibrados e o campeonato mais competitivo. O foco seria, então, a volta à elite estadual.

Responsável pela organização do Campeonato Gaúcho e da Copa RS, a Federação Gaúcha atua também em outras questões administrativas. A estreita ligação com os times permite a ela dar ajuda em relação a outros tópicos, como o posicionamento das marcas online, nas transmissões ao vivo, e também na captação de recursos, além de disponibilizar um mapeamento do consumo dos fãs. Para isso tudo, conta com um patrocínio, provindo de uma fornecedora de materiais esportivos de São Paulo. “É costumeiro a gente entrar em contato com empresas para financiar os custos do campeonatos. Com algumas a gente obtém êxito, mas com outras, não”, explica Henrique Riffel, secretário da Federação Gaúcha de Futebol Americano (FGFA).

Algo bastante pertinente na atuação da FGFA é o fato de que, para jogar as competições organizadas pela entidade, todos os atletas devem ser federados. Segundo Henrique, a qualidade técnica em relação a outras regiões, principalmente Sul e Sudeste ainda existe, mas vem diminuindo com o passar dos anos. No futuro próximo, o plano é mapear o número de atletas e de times. Ainda buscam ter um sistema de jogadores federados e que haja mais valorização do campeonato.

Perguntado sobre o quão longe está a profissionalização do esporte, Riffel foi pontual “ainda estamos muito, muito distantes”. Conforme ele, os próximos passos são dados em direção ao nível semi-profissional, mas projeta a profissionalização “passar para o nível profissional não pode ser uma federação, não pode ser um time. Tem que ser todos juntos e isso ainda vai demandar muito tempo. Provavelmente duas, três, quatro décadas”.

Os jogos do campeonato gaúcho iniciam só no próximo semestre, mas ainda estão sendo disputadas partidas da Copa RS, da Liga Nacional e também da BFA. Regularmente, a FGFA disponibiliza em sua página no Facebook informações sobre os eventos.

 

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