Falta tempo, interesse e vontade de ler aos brasileiros

Os brasileiros leem pouco. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro no primeiro semestre deste ano, indica que a média é de quatro livros por ano. Nesse mesmo estudo foi revelado que 50% das pessoas entrevistadas não leem por falta de tempo. Ou seja, é como se levassem três meses para ler uma obra, apenas. Na França, em contrapartida, no decorrer dos doze meses, a população lê mais de onze obras, segundo a Associated Press.

Para o escritor e professor Cláudio Moreno não está nas mãos de quem escreve a responsabilidade por esses índices tão baixos, mas sim na falta de interesse dos leitores que vem desde a infância, consequência de uma fraca educação básica. “As pessoas sabem que não ler é ruim e então elas tentam usar como desculpa o fato de não terem tempo. Países de ledores leem no ônibus, no trem, no elevador. A verdade é que o Brasil não tem essa cultura”, afirma.

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Cláudio Moreno: “Todo escritor é um grande leitor”

Ilustrando a ideia de política de investimento em pequenos leitores, uma pesquisa realizada pelo Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia do Japão, mostra que as crianças orientais leem, em média, um livro a cada dez dias. No último ano, os estudantes de escola primária retiraram 35,9 livros por criança em bibliotecas públicas no país. “Isso é muito anterior ao escritor e ao preço do livro. O problema é que a escola brasileira não está preparando leitores como em outras partes do mundo”, relata Moreno.

Segundo o Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Osvaldo Santucci Junior, o hábito da leitura tem de vir do berço. “A criança tem que ter o primeiro contato com o livro em casa. Se ela não tiver consciência que tem que ler, não irá ler. É fundamental que a família incentive a formação de leitores”, diz. Santucci ainda ressalta que projetos simples são tão eficazes quanto os que precisam de milhões de reais em investimento: “O mais importante é que a ideia valorize o livro, que chame a atenção e que faça as obras circularem. Não precisa ser complicado, basta que a comunidade apoie”.

O que pensam os governantes

O Rio Grande do Sul tem 534 bibliotecas e 105 feiras do livro, dados favoráveis em comparação com o resto do país, mas ainda são necessárias novas iniciativas e um trabalho constante para que o hábito da leitura faça parte do cotidiano do gaúcho.  O foco da Secretaria de Cultura do Estado busca modernizar as bibliotecas tornando-as mais vivas e atraentes, semelhantes a centros culturais, manter a política de levar escritores às escolas, agentes de leitura às comunidades e formar professores e famílias leitoras.

Cláudio Moreno, livro, leitura, literatura, livros, pesquisa, brasileiros, brasil, índice, Foto: Karine Flores
Jéferson Assumção: “O nosso papel é de criar condições para que as ações aconteçam”

Para o secretário adjunto da Secretaria de Estado da Cultura, Jéferson Assumção, cinco elementos são encontrados em uma sociedade de leitores: “Nela o livro ocupa um lugar de destaque no imaginário coletivo, existem escolas que formam leitores culturais e não apenas educacionais, as famílias são leitoras, há um fácil acesso à literatura (número suficiente de bibliotecas e de produção de obras) e o preço dos livros é acessível”.

Assumção ainda expõe que o Estado vai continuar fazendo a sua parte, mas que a sociedade também tem que contribuir. “O nosso papel é de criar condições para que as ações aconteçam. Já o envolvimento da família com a leitura nas suas casas é algo que depende muito do cidadão, como, por exemplo, diminuir o tempo que ficam em frente à televisão e colocar aos poucos um momento de leitura dentro do seu cotidiano”, afirma.

Assim como o que ocorre em todo o Estado, a cidade de Canoas investe na popularização da leitura e é a primeira com o Plano Municipal de Livro, Leitura e Literatura (PMLLL) do País, além de contar com a segunda maior feira do livro do Rio Grande do Sul em quantidade e qualidade de programação. Uma de suas iniciativas mais recentes foi a criação de Bibliopraças, que disponibiliza livros nas cinco principais praças do município para que as pessoas possam ler e locar o material. Para a gestora de Livro, Leitura e Literatura da cidade, Andrea Falkenberg, é fundamental fomentar o gosto pelos livros em todos os ambientes. “Já que as pessoas alegam ter tão pouco tempo disponibilizamos essas obras para que a leitura aconteça no intervalo do almoço, enquanto esperam o ônibus, ou em uma passada rápida pelo local”, conta.

Para o secretário de Cultura de Canoas, Flávio Adonis Oliveira, é uma obrigação do poder público incentivar a leitura, visto que ela é fundamental na construção da cidadania. “Nós trabalhamos para fazer com que a população tenha acesso aos livros e que eles estejam visíveis nos mais diversos lugares e eventos, pois essa oferta irá gerar a demanda. Quanto mais investirmos nesse segmento mais retorno teremos”, explica.

Texto: Karine Flores (2º semestre)

Fotos: Kimberly Winheski (2º semestre)

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