Faltam espaços para bandas locais se apresentarem em Porto Alegre

Poucos espaços para shows, divulgação dispersa e um público difícil de se conquistar são algumas razões para explicar por que a noite porto-alegrense é embalada, muito mais, por covers do que pela música produzida aqui. Não faltam artistas talentosos com trabalhos originais, mas poucos conseguem viver da música autoral morando no Rio Grande do Sul.

“As pessoas querem ouvir o que está na moda. A não ser que tu faças uma música super popular… E popular, hoje, é sertanejo e funk”, lamenta a cantora Lais Tetour, que toca em bares de Porto Alegre há 15 anos. Depois de sete anos à frente da banda Foxy Lady e de um CD original lançado, foi a opção pelo cover que deu estabilidade à carreira de Lais. Já para quem quer mostrar composições próprias, conseguir palco, cachê e audiência é um trabalho bem mais árduo.

No vídeo abaixo, Lais Tetour canta no bar Dublin:

Enquanto Lais se apresenta ao menos cinco vezes por semana, os meninos da banda Dingo Bells precisaram adiar duas vezes o show de lançamento do novo clipe. O problema foi o fechamento do bar Ocidente, durante a força-tarefa de fiscalização da segurança nas casas noturnas. A falta de estabelecimentos onde tocar em Porto Alegre não é recente, segundo os músicos. A agenda da maioria das bandas de rock oscila ente o Ocidente e o bar Opinião. A recompensa, ao driblar a escassez de palcos, chega com a conquista de novos fãs. “Nosso público comparece nos shows, os contratantes saem satisfeitos e assim podemos exigir uma boa contrapartida”, avalia o vocalista da Dingo Bells, Rodrigo Fischmann.

Veja abaixo o novo clipe da Dingo Bells:

Num contexto bem diferente daquele que consagrou dezenas de bandas entre as décadas de 1980 e 19990, o cenário independente continua forte na capital. Com mais de 22 anos de estrada na música, o vocalista da Ultramen, Tonho Crocco, acredita que Porto Alegre não consegue viabilizar tudo o que acontece nas esquinas culturais escondidas pela cidade. Hoje morando no Rio de Janeiro, o músico avalia o fechamento de bares no Rio Grande do Sul como uma repressão cultural enrustida. “No Rio, eu encerro um show numa segunda-feira às 3, quase 4 horas da manhã”, afirma. Para Tonho, o estado e, mais especificamente Porto Alegre, estão parados no tempo.

Além da falta de espaços e dos horários limitados, o público não está disposto a pagar mais do que cerca de R$ 20 para assistir a uma banda com poucos sucessos. E nem a comprar o CD, se as músicas podem ser ouvidas online. O desafio é usar a Internet como ferramenta de divulgação para levar mais gente às apresentações e, com o tempo, garantir que os poucos empresários dispostos a comprar o show paguem um cachê maior. Rodrigo Fischmann não acredita que os artistas gaúchos sejam as únicas vítimas dessas limitações. “A música autoral no Brasil demora para vingar e ser recompensada. Por isso que é preciso, também, diversificar, atacar outras áreas, ser bem relacionado, fazer música para cinema, teatro, publicidade, ter projetos com outros músicos, ensinar música, ser músico de estúdio, músico contratado e tantas outras coisas”, reflete.

O compositor Gabriel von Brixen resolveu expandir esse esforço até São Paulo, há dois meses. Com a namorada Luiza Caspary, também cantora, ele foi de mala e cuia tentar explorar o mercado de entretenimento do centro do país. Embora a diversidade seja maior, o músico já percebe que o suor dos artistas migrantes não é muito diferente dos que ficam em Porto Alegre. “A gente tem a oportunidade de ganhar mais, mas o custo de vida também é maior. Na balança, eu não sei se vai mudar muito”, prevê. Por enquanto, Gabriel e Luiza continuam fazendo shows de covers em São Paulo. “A galera quer ir tomar cerveja e, de vez em quando, escutar um minuto de música. Quem vai para um bar se divertir não está disposto a descobrir composições novas”, conclui o músico.

Texto: Bibiana Borba (7º semestre)

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