Faltam opções de transporte público para os boêmios de Porto Alegre

Porto Alegre conta com nove linhas de ônibus circulando durante a madrugada. Com nomes sugestivos como “corujão”, “madrugadão” e “noturna”, as rotas percorrem vias arteriais da cidade até os mais distantes recantos da periferia, como o Belém Novo, a Lomba do Pinheiro e o Parque dos Maias. O foco é o trabalhador que presta seus serviços em horários mais flexíveis, muitas vezes morador destas regiões distantes, conforme a EPTC.

As avenidas principais Assis Brasil, Baltazar de Oliveira Garcia, Protásio Alves, Oscar Pereira e a orla do Guaíba, em direção ao extremo Sul, são atendidas por coletivos com intervalo de cerca de uma hora.

“Não há demanda para que se sustente o serviço normalmente fornecido durante o dia”, afirma o presidente da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Vanderlei Cappellari.

Nenhuma das vias servidas atualmente tem tradição de vida noturna agitada, com presença de jovens que estejam procurando uma alternativa ao carro na hora de sair para a balada.

Circular Balada Segura

Aí é que entra, em teoria, a Circular Balada Segura (C4). A linha foi criada em dezembro de 2011 pela Carris, empresa comandada pela prefeitura da capital, para tentar oferecer meios de deixar o carro em casa e evitar a possibilidade de se dirigir alcoolizado. De meia em meia hora, promete a empresa, um ônibus pequeno passa por algumas das ruas das regiões boêmias da cidade: Centro, Cidade Baixa e Independência.

mapa rota c4 balada segura foto: divulgação prefeitura
Rota do C4 Balada Segura atende as zonas boemias da cidade, como o bairro Cidade Baixa e a avenida Independência
No entanto, a própria Carris reconhece que a linha dá prejuízo sistematicamente. São apenas dois mil passageiros por mês – a maior parte trabalhadores que usam a facilidade da segunda passagem gratuita para acessar as outras oito linhas e chegar em casa. Na média, cada viagem da linha C4 leva 4,2 passageiros.

Além de criar um fato novo, que pôde ser publicizado como uma iniciativa contra a embriaguez ao volante, a criação da nova linha veio a atender uma reivindicação do sindicato dos trabalhadores de estabelecimentos que atendem à vida noturna. O Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes viu com bons olhos a mudança.

“Nossos funcionários gastavam muito dinheiro com táxi para voltar pra casa e outros corriam risco andando tarde da noite na rua, quando a gente sabe que não tem muita segurança”, explica o presidente da entidade, José de Jesus Santos.

Nenhuma das linhas normais diurnas, usadas e conhecidas pela população em geral, tem circulação além da 1h. Não há planos para que isso aconteça, nem para que a oferta de transporte público em Porto Alegre seja ampliada.

Lotações

Os táxis-lotação, serviço que atualmente é considerado legalmente um tipo de transporte seletivo, quase não operam durante o período entre as 0h e as 6h. São cinco rotas com circulação de hora em hora. Os percursos são semelhantes e por vezes coincidentes com os disponíveis no transporte coletivo. A EPTC afirma não poder verificar o atendimento, já que não tem poder para cobrar assiduidade dos permissionários.

Um projeto de lei que tramita na Câmara de Vereadores altera a condição dos lotações de transporte seletivo para coletivo. Não há prazo para votação.

Outras cidades

O transporte público oferecido de madrugada na capital é condizente com o encontrado em municípios semelhantes dentro do Brasil. Em Curitiba, uma linha tem circulação de hora em hora pelas famosas canaletas da região central da cidade. Apelidado de “vermelhão”, o ônibus vê uso moderado dos notívagos paranaenses. Não é alternativa para ir e voltar de casa, conforme Felipe Florêncio, estudante de relações internacionais da Universidade Federal do Paraná:

“Quem mora no centro, pode ser que use, mas demora muito para passar”, opina o jovem de 22 anos.

O quadro muda à medida que a cidade aumenta. O Rio de Janeiro, famoso pela vida noturna populosa, tem circulação da maior parte das linhas comuns durante a madrugada – ainda que com intervalos mais dilatados. O metrô fica fora de funcionamento da meia noite às 5h.

Em São Paulo, 140 linhas circulam 24 horas por dia. Outras diversas rodam apenas de madrugada. O metrô encerra as atividades perto da meia noite, mas uma campanha saudável na Internet vem pedindo que a cidade se junte a outras metrópoles, como Nova York e Berlim, que têm metrô sempre aberto e funcionando, ainda que com um número reduzido de linhas. Outras iniciativas buscam convencer a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP) a fornecer ônibus nas mesmas rotas percorridas durante o dia pelos trens. O benefício: trajetos conhecidos por mais pessoas.

Na Europa, a circulação das principais linhas de ônibus é comum durante a madrugada. Países com legislação severa contra embriaguez ao volante oferecem ao público sedento por lazer opções razoáveis. Na Inglaterra, a figura do bêbado que exagerou no álcool é comum nos coletivos que circulam após a meia noite.

Texto: Igor Carrasco (8º semestre)

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