Feira do Livro, um bom negócio social

Ferreira Gullar, poeta brasileiro e crítico de arte já dizia: “A arte existe porque a vida não basta e os poetas escrevem sobre o que não tem sentido nenhum, mas comove”. Pode parecer uma declaração bastante radical, porém natural vindo dele. E neste sentido, ajuda a pensar sobre como as questões da tradição e do negócio envolvem as Feiras do Livro realizadas no interior do Estado.

No Rio Grande do Sul, 80 municípios, incluindo a Capital, realizam anualmente eventos voltados ao incentivo da cultura e do comércio literário. É justamente a dualidade existente na Feira que instiga. Trata-se de tradição cultural, puro comércio ou um pouco dos dois? O Editorial J conversou com alguns municípios e apresenta aqui um panorama do Estado.

É no mínimo curioso pensar o que faz uma pessoa, até mesmo a família inteira ir a uma Feira do livro, em plena praça da cidade, ou na escola, a céu aberto, onde na maioria das vezes multidões procuram os mesmos espaços e estandes. O costume do passado contrasta com as livrarias modernas de hoje, que cada vez mais oferecem ar-condicionado, tecnologia de última geração e até serviço de  cafeteria, sem falar que não há superlotação de espaços. Ou, esse último aspecto é justamente o interessante?

Cachoeira do Sul, considerada uma das quatro capitais farroupilhas, realiza em outubro a sua 28º Feira do Livro, e a programação da feira é o seu melhor atrativo. “A presença dos autores possibilita conhecermos um autor que admiramos, poder autografar um livro, além de que para algumas cidades pequenas é a única oportunidade de comprar livros”, garante Paulo Graczcki, da organização da Feira da cidade.

A cidade valoriza muito o evento. Com a criação do Circuito da Leitura, cujo objetivo é levar feiras para as escolas, o número de promoções chega a 20 no ano. A Caravana dos Escritores, projeto que leva autores brasileiros para diversos pontos do país, deixa marcas em Cachoeira. “Foi um grande avanço no sentido de possibilitar que pequenas cidades possam qualificar suas feiras com autores consagrados, além de fazer com que autores girem pelo Brasil aproximando-se da comunidade,” acredita Graczcki.

Na região metropolitana de Porto Alegre, a cidade de Canoas tem sua principal feira no mês de junho. Além disso, promove um Circuito de Feiras nos bairros. Isso descentraliza as atividades em diferentes locais, atingindo assim as pessoas que não costumavam sair de seus bairros para ir até a Feira. “Temos relatos de leitores que ficam aguardando a programação e acompanhando os blogs de seus escritores preferidos para saber se estarão presentes nas Feiras do município. Isso porque disponibilizamos livros para leitura prévia ao encontro do escritor,” conta Andrea Falkenberg, da Secretaria da Cultura. E na cidade de Canoas, o livro não fica só nas praças dos bairros e do centro da cidade, ganha os vagões do Trensurb, com intervenções culturais convidativas.

Ainda na região metropolitana, São Pedro da Serra também inclui as escolas na programação da Feira, com Mostra de Talentos. A Feira abre espaço para que outras temáticas sejam abordadas durante o evento. O livro ainda tem seu lugar de destaque, mas cada vez mais problemas sociais e culturais são discutidos neste ambiente. “O diferencial é a oferta de preços melhores, a presença de escritores, cantores e compositores, bem como de peças teatrais que tratam sobre drogas, trânsito, necessidades especiais, entre outras,” comenta Sirlei Maria Spohn Stein, da Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Lazer.

Antônio Prado, que também promove a sua Feira do Livro em outubro, com diversas mobilizações prévias. As ações também ganham as vitrines das lojas, mesmo aquelas que normalmente não vendem livros, e, principalmente, as escolas públicas, com incentivo através de trabalhos temáticos voltados para o evento. A atração principal é formada pelos benefícios financeiros que a feira possibilita. “O que leva as pessoas a procurarem pelos livros e respectiva aquisição no espaço da Feira são os descontos e as atrações artísticos-culturais promovidas,” garante Edson Luiz Carra, do departamento de Cultura. Mais o maior destaque mesmo na cidade é “a valorização e o incentivo dos talentos locais, na abertura de espaços para apresentações e exposições de trabalhos,” segundo Carra.

Na serra gaúcha, Gramado expande seus horizontes para além da temporada de inverno e Natal Luz, com uma Feira entre agosto e setembro. Ainda assim garante a adesão da comunidade e dos visitantes, pois é realizada na Rua Coberta, no centro da cidade. Esta estratégia garante que os passantes parem um pouco na Feira. “A maioria do pessoal visita a Feira por lazer, mas sempre acaba adquirindo um livro,” afirma Maria Celoí de Moura, coordenadora do evento. Ela ressalta que o espaço tem um valor imensurável aos olhos de quem acredita que não trata-se somente de uma tradição. “A leitura nos leva a obter um conhecimento muito grande e chega a levar muitas pessoas ao sucesso através dos livros,” ressalta Maria Celoí.

Em Santo Ângelo, conhecida pela sua história e arquitetura, a Feira do Livro surge junto da primavera há 3 anos. A comunidade participa nas atrações culturais, além de exibições de “cinema 6D”, concursos de danças, espetáculos teatrais, festivais de talentos, exposições e lançamentos. “A cada edição aumentam as vendas dos livros, mas ainda é desproporcional ao número de visitantes, que em 2012 foi cerca de 15 mil pessoas,” explica Dora Maria Dornelles, coordenadora pedagógica da Secretaria da Educação. Mais um projeto que não fica só na praça da cidade, o incentivo à leitura toma as escolas durante todo o ano. “A Feira do Livro, já faz parte do calendário da cidade e das escolas. Desde o início do ano, os alunos da rede municipal iniciam as leituras das obras, cujo autores participarão da Feira”, esclarece.

No litoral, Balneário Pinhal completa 16 anos de emancipação e 15 de Feira. Há espaço para os autores, não apenas aos livreiros. “É melhor para o leitor ter uma pessoa que com certeza saberá falar sobre a obra, e muitas vezes ajudando na escolha literária. O que nem sempre numa livraria temos esta atenção,” explica  Shyrley Terezinha Poffal, diretora da Cultura. Como uma cidade litorânea, a melhor época para a feira do Livro é o próprio verão. É na alta temporada de férias que a comunidade e os veranistas tem a oportunidade de visitar a Feira do balneário.

Por todos os cantos do Rio Grande do Sul, as Feiras do Livro harmonizam o negócio e a função social. Na grande maioria das cidades gaúchas, elas têm por objetivo mobilizar a comunidade para a importância da leitura como elemento facilitador da compreensão do mundo e da participação de cada um na construção coletiva da cidadania.

Confira o mapa com a localização das Feiras e as entrevistas na íntegra


Visualizar Feiras do Livro pelo Estado em um mapa maior

Texto: Melissa Maciel (8º semestre)

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