Filhos de 22: herdeiros do antigo PCB disputam legado histórico da sigla

  • Por: Gabriel Gonçalves (5º semestre), João Pedro Arroque (6º semestre) | 27/04/2015 | 0

Há mais de duas décadas dividido em três diferentes siglas, o antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) completou 93 anos de fundação no último mês de março. Criado em 1922, a sigla deixou de ser uma influente instituição de esquerda, para se tornar objeto de uma disputa que já dura 23 anos e envolve o trio de herdeiros que são: o Partido Popular Socialista (PPS), Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o novo Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Frutos da desintegração do PC original, os grupos se autodenominam herdeiros legítimos do chamado ‘Partidão’ e disputam entre si o legado da sigla originária de 1922, em um racha que envolve diferentes versões sobre a história recente do comunismo no Brasil. Segundo o vice-presidente do PPS no Estado, Sérgio Camps de Morais, o Partido Popular Socialista “é o filho mais legítimo da tradição política do PCB”. O político alega que o seu partido foi fundado em um congresso oficial da sigla de 22 e acusa o PCdoB de ter rompido com a matriz ideológica dos Partidos Comunistas, ao dar apoio aos modelos chinês e albanês de comunismo, nos anos de 1960.

Em defesa do Partido Comunista do Brasil, o presidente municipal da sigla, Adalberto Frasson, afirma que quem melhor defende as ideias de 1922 são aqueles que “melhor procuram lutar efetivamente pelo socialismo”. Segundo ele, o Partido Popular Socialista se distanciou do espectro de esquerda no qual foi fundado: “O PPS se organizou vindo do PCB, no primeiro momento se situaram na esquerda. Conforme o neoliberalismo ganhou hegemonia, o partido foi seduzido pelo neoliberalismo e mostrou a que veio, para se opor ao socialismo”, alega Frasson.

O racha e as novas correntes
Para entender o início da disputa pela continuidade histórica do Partido Comunista, é preciso voltar a 1962. Após divergências entre os núcleos internos da sigla sobre o rumo do comunismo stalinista, implementado pela União Soviética até a década de 1950, uma corrente do PCB desligou-se do partido para fundar o atual PCdoB. Mas o racha que esfacelou o Partido Comunista em três diferentes siglas só ocorreu 30 anos depois, em 1992, durante o 10º Congresso Nacional do PCB.

Em meio à decadência do modelo soviético, desgastado pelas décadas de Guerra Fria, o encontro ficou marcado pela votação que transformou o PCB em PPS. Liderado pelo então presidente do partido, Roberto Freire, o evento selou o fim do Partido Comunista, através dos votos de 738 delegados presentes no congresso, que concordaram em trocar a ideologia do comunismo pelos ideais da social-democracia.

“O que aconteceu foi que, em 1992, um grupo direitista do Partido (atual PPS) resolveu realizar um congresso fraudado, onde não filiados podiam votar, com o objetivo de acabar com o PC”. As acusações sobre a votação que mudou a identidade do partido são de Edmílson Costa, candidato ao Senado em 2014, pelo novo PCB. A sigla do político também disputa o legado da continuidade histórica do antigo Partido Comunista. O novo grupo foi registrado em 1993, após o fim do PCB original. Ainda assim, Edmílson Costa afirma que o atual partido faz parte da mesma corrente e ideologia da sigla fundada no início do século passado: “O PCB de hoje é o mesmo PCB de 1922. O PPS não tem nada a ver com a esquerda e o PC do B é uma dissidência do PCB de 1962, que se transformou de comunista num partido reformista”, afirma.

Embora não tenha participado da articulação do PPS em 1992, a trajetória do vice-presidente estadual da sigla, Sérgio Camps de Morais, se confunde com o caminho trilhado por alguns grupos comunistas após a Guerra Fria. Militante do também extinto Partido Comunista Italiano (PCI) durante a sua juventude, o político trocou a foice e o martelo pela moderação de uma social-democracia sustentada pela economia de mercado. Camps define esta transição ideológica, ocorrida com parte dos grupos de esquerda no final do século 20, como uma “abertura para um novo programa da esquerda democrática”.

Em 2014, o presidente e fundador do PPS, Roberto Freire, registrou em sua página pessoal no Twitter que “o PCB ao se transformar no PPS-1992 reconheceu a derrota histórica da experiência do socialismo real”. Enquanto isso os remanescentes das ideologias comunista e socialista entendem que o atual PPS representa um programa político à direita do PSDB. “Surgiu como a negação do socialismo e da crise do leste europeu”, critica Adalberto Frasson, do PCdoB, sobre o PPS.


Sem ditadura do proletariado
Aliado político dos tucanos, hoje o PPS faz oposição à coalização de siglas de esquerda liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Camps admite que o núcleo do programa da sigla é o reconhecimento da democracia como valor fundamental da atividade política, e não como um meio para a transformação social. “Não convivemos bem com uma parte da esquerda que ainda acredita em ditadura do proletariado, ou governos populares, coisas desse estilo, como hegemonias sociais duradouras”, revela.

Dos três políticos entrevistados, apenas Edmílson Costa, do PCB, defendeu a ideia de continuísmo à ideologia comunista, próximo ao que fora concebido em 1922. O ortodoxismo da sigla, porém, resulta em menor representatividade política. Segundo levantamento estadual realizado em novembro de 2012, o novo Partido Comunista aparece com apenas 218 filiados registrados no Rio Grande do Sul. Neste quesito, o PPS encabeça a disputa, com 29 mil pessoas vinculadas à sigla, seguido pelo PCdoB, com 20 mil seguidores registrados no Estado.

Na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, o PCdoB possui a maior representatividade, com duas cadeiras no plenário. O PPS possui apenas um representante, enquanto o PCB não tem deputados eleitos no Estado.Em 2012, a fundação do extinto partido comunista completou exatos 90 anos. Na época, as três siglas dissidentes do velho PCB não perderam a chance de comemorar seus supostos nonagésimos aniversários. Acusado de dissidente pelos adversários comunistas, o PCdoB comemorou os 90 anos com a realização de uma festa para três mil participantes, realizada no Rio de Janeiro. O PCB lembrou da data promovendo o seminário “PCB – 90 anos de luta”. No Distrito Federal, a Assembleia Legislativa do Estado comemorou o aniversário do Partido Popular Socialista, com o lançamento do livro “PCB-PPS e a Cultura Brasileira”. Nas eleições de 2014, PPS e PCdoB elegeram dez deputados federais cada um, enquanto o PCB não conseguiu colocar nenhum representante na Câmara Federal.