Filme “No” faz um recorte original dos anos de chumbo

O Sala J de Cinema dá prosseguimento às suas análises com uma parada no Chile, para abordar pela primeira vez na série uma produção sul-americana. Do país, vem o filme “No”, indicado ao Oscar de melhor estrangeiro. Quem espera por minutos de muita história chilena e ares documentais, é melhor desconstruir a impressão e se preparar para um drama envolvente que coloca a vida de um personagem à frente do contexto vivido em 1988 no país, em que anos de opressora ditadura militar se despediam para não deixar saudade à boa parte do país.

Amparado na figura do publicitário René Saavedra, interpretado pelo consagrado ator mexicano Gael García Bernal, o filme do diretor e roteirista chileno Pablo Larraín tem visual arrojado e pode incomodar quem prefere películas mais tradicionais. Filmado em grande parte por U-matic, formato de vídeo que apresenta uma estética imagética de VHS, o longa por vezes atinge seu objetivo e parece transportar o espectador de volta ao final dos anos de 1980.

“No” retrata um momento turbulento do regime ditatorial de Augusto Pinochet, em que o oficial que liderara o país desde 1973 é obrigado, após grande pressão da comunidade internacional, a realizar um plebiscito em 1988. Nesse período, na expectativa de alavancar sua carreira, René Saavedra resolve aceitar o convite de criar a campanha publicitária do “Não” ao governo de Pinochet. Com a criação de um slogan publicizado em filmes e materiais promocionais, o personagem de Bernal tenta implantar métodos pouco convencionais nos 15 minutos de propaganda política e para isso se vê na obrigação de trazer um pouco da lógica mercadológica a um grupo de comunistas idealistas.

Saber a fundo a história do regime militar chileno não é um pré-requisito para quem assistir “No”. Diálogos realistas vindos de personagens nada convencionais em uma abordagem original fazem o longa escapar do senso comum. O diretor Larraín consegue mostrar que, numa luta pelo poder de um país, nem todas as motivações são políticas – por mais paradoxal que possa parecer.

Sangue e desespero para destituir o ditador

Mesmo fugindo de uma abordagem amplificada do Chile, “No” consegue traduzir o desespero da parcela que queria ver Pinochet longe do poder, bem como o sentimento de divisão na população do país. Havia, sim, quase metade dos chilenos interessados na manutenção do regime, que afugentava a ideia opositora vendendo a imagem da desordem em um país caótico sob comando de marxistas. O coordenador do departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Helder da Silveira, relata que o país vivia um momento de intenso dualismo em 1988.

“Temos sempre a imagem de uma sociedade contra um regime, mas aquele regime conseguiu uma base de apoio popular. Tanto que o plebiscito foi uma aposta do governo”, relata.
Um dos marcos para a convocação do plebiscito foi a pressão internacional, principalmente norte-americana, em contrariedade à ditadura. Vista por muitos como a mais sangrenta da América Latina. Os mesmos americanos que aplicaram um golpe de estado e depuseram o então presidente Salvador Allende em 11 de setembro de 1973 para colocar Pinochet no poder, clamaram por eleições 17 anos depois.

Legado da ditadura

Diferentemente de outros regimes militares impostos na América do Sul, o sistema implantado no Chile não contava com uma política de maior intervenção econômica do Estado no país. O governo de Pinochet é, inclusive, apontado como um exemplo de administração neoliberal no continente. O oficial privatizou diversos órgãos públicos no país.

Em 1990, quando o Chile foi redemocratizado, 38% da população estava abaixo da linha da pobreza, índice que se mantém aproximado até os dias de hoje. A privatização da previdência social também trouxe um legado negativo, que hoje se reflete nos milhares de pessoas que enfrentam problemas para encontrar estabilidade econômica após a aposentadoria no país.

“A ditadura chilena foi a que mais aplicou o modelo neoliberal. Se tu comparar com o Brasil, a participação do estado na economia aumenta muito. O Chile tem uma cartilha de privatização, uma politica econômica ortodoxa de controle fiscal. Até hoje, no Chile, um trabalhador de base não tem um sistema público de aposentadoria, eles desmantelaram isso”, diz o docente da PUCRS.

Texto: Vinícius Fernandes (7º semestre)
Foto: Divulgação

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