Fotografia com lata e reciclagem de histórias

O projeto Photo da Lata: Instituto Luz Reveladora é realizado há 15 anos, pelo fotógrafo Jorge de Aguiar, nas periferias da Grande Porto Alegre. Após 35 anos como laboratorista e fotógrafo profissional, Aguiar decidiu compartilhar sua experiência com jovens em situação de vulnerabilidade social, e começou aos poucos as oficinas que originaram o projeto. A partir de uma lata com um furo pouco maior que o diâmetro de uma agulha, é construída uma câmera fotográfica adequada para o método pinhole.

Aposentado do trabalho de perícia criminalística, no final dos anos 90,  Aguiar teve a ideia das oficinas quando, em uma de suas jornadas fotográficas, conheceu um menino que pediu para ser fotografado, pois necessitava de um retrato para obter sua carteira de identidade. Ao chegar em casa, comentou a história com a esposa, que finalmente deu o empurraozinho que faltava: “Jorge, por que tu não ensina essas crianças a fotografar?”

Entre tantos frutos da lata

 Paulo César Cavalheiro, 38, decidiu abandonar a dependência química e se dedicar a um novo vício: a fotografia. Após um período de reabilitação, Cavalheiro teve o primeiro contato com o Photo da Lata  em um centro de assistência social. As 40 horas de curso o estimularam a se aprofundar no tema. Ele já tinha uma câmera digital compacta simples, mas desejava evoluir.

Sem recursos financeiros, o prestador de serviços gerais na comunidade decidiu economizar todas as moedas de um real que entrassem em casa. Em sete meses reuniu R$ 1,3 mil, que possibilitaram a compra de um equipamento mais adequado ao seu projeto. O faz-tudo tornado fotógrafo quer se qualificar e fotografar eventos. Cavalheiro já é fotógrafo da paróquia de sua comunidade, no bairro Intersul, de Alvorada. Já vendeu cerca de 800 fotos de batizados e primeiras-comunhões. Aos poucos ele recupera a confiança da comunidade como homem livre das drogas e competente catequista, voluntário ou fotógrafo. Perseverante, organizou uma exposição ao ar livre com suas fotos na Lagoa do Cocão, onde vive. Buscou elevar a autoestima dos moradores mostrando o lado bonito de uma área utilizada para o depósito de lixo e consumo de drogas. “Eu queria mostrar para as pessoas como é possível nos enxergarmos de forma diferente, e como podemos ser distintos. Se hoje a garça nada ao lado de uma sacola plástica, amanhã, a sacola poderá estar no lixo. Isso depende da comunidade”, explica. Cavalheiro dá continuidade aos ensinamentos absorvidos da latinha, em especial aos resgates de identidade e de autoestima.  Hoje, pai e filho compartilham o gosto por registrar os momentos da família. O filho de 10 anos herdou a antiga câmera fotográfica. O próximo passo será montar um minilaboratório de revelação para futuras fotos com a lata.

Histórias do tempo do buraco da agulha

Durante a oficina do Photo da Lata, realizada entre setembro e outubro, em Alvorada, o fotógrafo Jorge de Aguiar caminhava pelas ruas do bairro Umbu com as crianças, para realizar o passeio fotográfico, quando encontrou uma ex-aluna do curso. Após reconhecer as latas e o instrutor, ela o chama imediatamente pelo nome. “Eu não acredito que é o senhor, Seu Jorge!”, disse.

Elisete de Carvalho dos Santos, 43, participou da oficina há dez anos,  na mesma Escola Normélio Pereira Barcelos. Emocionada com a coincidência e rodeada pelas crianças com as latinhas prontas na mão, comenta a paixão pela fotografia, ainda que nunca tenha aprofundado os estudos.

“O seu Jorge me fez subir em uma árvore para bater foto. Eu tinha verdadeiro pânico de altura. Hoje já não tenho mais medo de subir em árvores, lembro sempre daquele dia”, conta. Ao ver uma foto que Jorge havia feito de seu rosto, Elisete não contém o sentimento de nostalgia, olha-se admirada com a sua juventude e as recordações da época. “Como eu era bonita, olha só, meu cabelo comprido. Essa foto eu guardo para sempre, é meu passado”.

A latinha tem foco

A ONG tem como objetivos promover a inclusão social e a geração de renda de jovens, adultos e idosos atráves do conceito “formar formadores”. Jorge acredita na recuperação de auto-estima, de identidades, uma vez que coloca o aluno como protagonista da ação, desde a construção do equipamento e captação de imagens ao processo de revelar. A interpretação, o senso da coletividade, da espera, de não saber como vai sair a fotografia, trabalha de forma subjetiva o imaginário dos oficineiros, e planta uma semente que pode fazer nascer um novo formador.

O primeiro reconhecimento público chegou em 2003: o Prêmio Direitos Humanos da UNESCO no Rio Grande do Sul foi entregue ao Projeto Photo da Lata. Na sequência, outra surpresa estava por vir. Durante o ano Brasil-França, 2005, surge um convite para levar a experiência à cidade de Nanterre, periferia de Paris. Jorge foi interceptado pela polícia da capital francesa, debaixo da Torre Eiffel: como explicar, em francês, que aquela lata enorme não era uma bomba ou problemas, mas uma intervenção artística? Jorge se orgulha: “Essas histórias são as minhas preferidas. Hoje se dá muita risada disso. Nunca imaginei que uma simples lata pudesse me levar tão longe”.

Jorge de Aguiar se orgulha também da bonita relação que construiu com o bairro Umbu nesses 15 anos de caminhada com a latinha nas mãos. O olhar afiado de fotógrafo, a intimidade com as ruas e pessoas da comunidade o fazem acreditar que “periferia é algo que não se explica, se vive. É preciso arregaçar as mangas e caminhar pelas ruas para entender a complexidade e beleza de suas histórias”.

Umbu na Lata

O Editorial J seguiu os conselhos do Jorge, caminhou pelo Umbu e conversou com uma série de personagens que deram origem a uma bonita e paradoxal história, o documentário Umbu na Lata. A periferia, as dificuldades, as alegrias e o projeto Photo da Lata. Assista agora:

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Confira as fotos da mais recente oficina de Photo da Lata, realizada na Escola Normélio Pereira de Barcelos, no Bairro Umbu, Alvorada. As atividades ocorreram entre setembro e outubro deste ano.

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via Flickr

 

Texto e fotos: Bruna Valentini

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