Fragmentos de uma febre nacional

De sucesso nos anos 1960, o telecatch reunia atletas de diversos países, que competiam em combates de luta livre com fins pré-determinados. Cinco décadas depois, no coração de Porto Alegre, a federação de luta livre - South Wrestling Union - enfrenta falta de apoio e de visibilidade para manter tradição viva.

  • Por: Gabriel Bandeira (3º semestre) | Foto: Igor Janczura Dreher (3° Semestre) | 20/03/2017 | 0
South Wrestiling Union, no Centro de Porto Alegre
South Wrestiling Union, no Centro de Porto Alegre


Sempre aos sábados, 20 horas, as televisões dos cariocas encontravam, em 1965, a hoje extinta TV Excelsior do Rio para ver o mocinho Ted Boy Marino entrar em cena para combater mais um de seus adversários. Entre pancadas e sujeiras do oponente, apoiava-se em sua técnica e suporte dos fãs para reverter a situação. Para ganhar, segurava o oponente com os ombros na lona para uma contagem até três do árbitro. Se bem sucedida, conquistava a vitória, acertada antes do combate. Num embate épico entre o bem e o mal, o telecatch, nome criado pela TV Globo, trazia a novidade da luta-livre para o povo brasileiro.

Naquela época, as lutas tomavam conta de capitais como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital gaúcha, chegou como Ringue Doze, apresentado pela TV Gaúcha, hoje RBS TV, e filmado no Ginásio da Brigada Militar. Em pleno Governo Militar, não demorou muito para haverem alegações de má influência para os jovens.  Aida Serdan, esposa do famoso lutador, Michel Serdan, operante da empresa Gigantes do Ringue, em São Paulo, relata o ocorrido: “Houve influência, mas foi muito sutil. Eles obrigaram os canais de TV à passar o programa às 23h. E foi o que aconteceu. O povo não ficava acordado até tão tarde, a audiência caiu, os patrocinadores fugiram. Acabou”, conta sua mulher.

Contando apenas com shows em pequenas cidades, o telecatch não durou muito, forçando o fechamento de diversas companhias. Em 2017, no Centro Histórico de Porto Alegre, uma federação continua lutando para manter viva a tradição do telecatch. Nascida em 2011, a South Wrestling Union surgiu após rompimento com a federação Titãs do Ringue, que também atuava na cidade. Membro fundador da SWU, “Rusher”, nome artístico de Eduardo Goulart, conta que a separação se deu na procura por um produto mais moderno, afastado do ‘hit’ de décadas anteriores.  “O mundo todo se atualizou, os golpes estão mais complexos e existem nomenclaturas mundiais que todos os lutadores devem saber para fazer a marcação de uma luta”, explica. À frente da companhia, também estão Matheus Bauer, André Machado e Ismael Goulart. No mundo da luta-livre, conhecidos por “Nefastus”, “André “O Ogro” e “Frank Rocco.

Foto I
Eduardo Goulart luta há 8 anos.

O mundo da luta livre é cercada por generalizações. A fama de falso ou encenado, provenientes do produto americano, acaba desviando o foco do esforço dos atletas. Apesar da desinformação em relação à prática, Eduardo Goulart conta que procura sempre esclarecer  os curiosos. Segundo ele, “a luta livre pode ser comparada a um filme, entretanto a história é contada ali na sua frente, ao vivo. Na luta livre, tudo tem uma explicação, toda luta conta uma história, exatamente como um filme”.

Apontados como os principais fatores do abandono do interesse, a falta investimento e de recursos tornam complicado o trabalho dos envolvidos. Para Goulart, as concessões de TV, que marcaram o ápice do esporte, mudariam drasticamente o atual cenário de estagnação do produto, mas as mídias digitais não devem ser descartadas.

Na SWU, ninguém recebe salário. Quem quiser iniciar seus treinos, deve pagar uma mensalidade de R$ 50, que é revertida para o aluguel do espaço dos treinos e na estruturação da companhia. Recentemente, a nova geração do telecatch porto-alegrense pode ser vista em eventos multitemáticos voltados para o entretenimento de jovens, com foco em animes e mangás, como AnimeXtreme e AnimaTinga. “O pessoal começa de fato vendo o show por causa do ringue montado no meio de algum lugar e ficam curiosos. De começo, olham meio desconfiadas, mas quando percebem, já estão torcendo ou vaiando”, analisa Goulart.

Na busca por novos membros, a SWU proporcionou uma aula de graça, em academia, com foco em movimentos básicos como quedas e rolamentos, no dia 11 de março. Procurando uma forma de entrar na companhia que captou seu olhar durante uma apresentação ano passado, prestes a completar 22 anos, Evandro Duarte, estudante de Química Industrial, disse que pretende voltar para continuar o treino. “Gostei bastante. O pessoal é dedicado e sabe ensinar. Acho que eles tem futuro. Vou voltar no próximo sábado”.

O elenco é composto por dez lutadores e conta com cinco formandos, que ainda estão treinando para poder subir ao ringue. Até a estreia, exige-se – em média – um ano de preparação, que, em decorrência do esforço, leva alguns a desistirem.

Parte dessa estimativa, o estudante de Publicidade e Propaganda, Marc Geller, 19 anos, revela que a entrada para a faculdade e a convivência com as dores foram os fatores primordiais que levaram à desistência. “A faculdade estava chegando e eu não estava mais pilhado de acordar com roxos e dores no corpo, então decidi parar. Um treino, tudo bem, mas quando tu mistura três treinos por semana fica difícil. Eu estava esgotado demais fisicamente. Foi uma experiência divertida, dolorosa e cansativa.”

Entrando no seu segundo ano de treino, Arthur Mello, estudante de Medicina, conta outra história. Entusiasta da luta livre desde 2015, trabalhou como voluntário em uma apresentação na AnimaTinga. Em seguida, foi convidado para treinar com a equipe. Nas primeiras semanas, Mello sentia dores enormes, mas “quem quer trabalhar com luta livre deve estar acostumado a isso”. O estudante vê seu envolvimento com a federação como um ponto importante no controle da sua raiva. “Lá eles têm muita base para trabalhar as nossas personalidades, principalmente, devido ao envolvimento de alguns professores com o teatro”.

Os treinos ofoto IIcorrem nas quartas e sábados e somam seis horas no total. Apesar de ser comum entre os novatos, até os mais experientes na companhia estão sujeitos a acidentes. Goulart, que compete há 8 anos, relembra que, durante um golpe mal aplicado, acabou sentando em cima dos dedos de um dos pés. O pé chegou a ficar inchado, porém, não quebrou

Em outro momento, relata a lesão de um colega que quase quebrou o pescoço, após queda sobre o cimento do lado de fora do ringue. Casado e pai de uma menina de três  anos, Goulart pensa no que falar à filha, caso ela deseje seguir os seus passos. “Aconselharia ela a ter cuidado e treinar como uma campeã. Nada em abundância, mas também nada de ficar parada.”

“O acordo com a AnimeXtreme está praticamente fechado. 95%”, comemora Goulart, em conversa com outros membros. Até a apresentação em maio, ainda resta muito treino. Não há tempo para pensar no futuro. Em cima do tatame azul, o professor ensina o próximo movimento. No silêncio da academia, escondida na rua Siqueira Campos, no Centro Histórico, os lutadores de Porto Alegre continuam alimentando a esperança de uma vida mais fácil. Sonham com holofotes e fãs ensandecidos. Homens e mulheres que carregam consigo a tradição do que fora um dia, na euforia de um sábado à noite, uma febre nacional.