Funerais de luxo retomam tradição de ostentar na hora da morte

Casarões antigos revestidos com mármores, vitrais e decorações luxuosas. No cardápio, um buffet preparado para os convidados, além de muito champagne. A trilha sonora fica por conta de músicos contratados especialmente para a ocasião. O anfitrião pode chegar em grande estilo, transportado por um Cadillac dos anos 70. No fim do evento, todos os presentes ganham uma lembrancinha como agrado, o doce bem velado.

Desembolsar fortunas para realizar enterros e cerimônias fúnebres faz parte da história. Desde o século XIX, famílias tradicionais demonstravam status à sociedade construindo mausoléus e túmulos que se confundiam com verdadeiras obras de arte, a chamada Arte Cemiterial. Com arquitetura rebuscada, os ricos da época ostentavam esculturas, muitas vezes construídas por artistas famosos, que hoje são consideradas pontos turísticos, por sua importância cultural e histórica. Embora esta prática faça tenha ficado no passado, o mercado funerário lançou outros tipos de homenagens que atribuem o luxo e a elegância como características primordiais.

Vindas dos Estados Unidos, as funeral homes fazem sucesso no Brasil. Em 1898, o empresário americano Frank Campbell percebeu que estava se tornando impossível a realização de velórios em casa, pois a mobilidade de caixões era difícil, por isso, resolveu abrir a The Funeral Chapel, casa de solenidades fúnebres. Este serviço iniciou, em 2011, nas capitais de São Paulo e Minas Gerais, onde o diferencial está na infraestrutura e na personalização do trabalho prestado.

Em um casarão de 1950, inspirado na Casa Rosada, sede da república argentina em Buenos Aires, e de projeto do arquiteto italiano Romeu Di Paoli, funciona a Funeral House em Belo Horizonte, Minas Gerais. O imóvel é tombado pelo patrimônio histórico da capital mineira e resgata os mármores, vitrais e lustres mais requintados da época de sua construção. O local é dividido em três salas: Sala Órion, Sala Aquarius e Sala Phoenix e dependendo do desejo do cliente, elas podem ser escolhidas para o velório. Na reserva de uma das salas por 24 horas, com cerimonial religioso, transmissão online do evento e toda estrutura disponibilizada pela empresa, como segurança e internet, o valor pode chegar aos R$ 4 mil para cerca de 30 convidados. Porém, existe a possibilidade de acrescentar um buffet de salgados e doces, música ao vivo e locar a casa na totalidade para o velório, nestes casos a família deverá desembolsar até R$ 15 mil. O diferencial da empresa, porém, é um carro modelo Cadillac do ano de 1970 usado no transporte do corpo.

Segundo Wagner Santos, auxiliar administrativo da Funeral House, a demanda é grande e acontecem de 3 a 4 funerais por dia na casa. Santos acredita que o diferencial é a localização central do imóvel, bem como seu conforto e exclusividade. “Os nossos clientes procuram o serviço para não se preocuparem com funções burocráticas de um velório. Realizamos tudo para que eles apenas cheguem e aproveitem com seus convidados a despedida do ente querido”, afirmou.

Em São Paulo, casa oferece até lembrancinha: o “bem-velado”

Bem-velado é oferecido como lembrancinha aos convidados
Bem-velado é oferecido como lembrancinha aos convidados

Em São Paulo também está a Funeral Home, situada próxima à Avenida Paulista, que mantém em uma mansão de 739m², construída em 1928, 26 ambientes, sendo quatro salas de velórios, uma capela ecumênica, terraço, deck e até uma sala equipada com televisão de 42 polegadas e computadores conectados à internet. Entre os serviços prestados como buffet especial, música ambiente e o processo burocrático de atestado de óbito e comunicado em jornais e revistas, está o famoso bem-velado. O docinho conhecido em casamentos como bem-casado, ganhou um novo propósito. Agora, enrolado em papel preto, a guloseima serve como lembrancinha e afirma a opulência do evento fúnebre.

Na Funeral Home de São Paulo, o velório básico, em uma das salas, que oferece café, água, chá e bolachas doces e salgadas, custa R$ 4 mil. Para quem opta por maior exclusividade e prefere fechar a casa para a cerimônia, e ainda ter o pacote com comidas finas, doces e salgadas, e champagne entre as bebidas servidas, deve desembolsar cerca de R$ 40 mil.

Por outro lado, na região sul do país, o mercado de funerárias de luxo se diferencia. Segundo o secretário executivo do Sindicato dos Estabelecimentos Funerários do Rio Grande do Sul, Alexandre Nunes, não existe um estudo que aponte este tipo de serviço, por isso, se desconhece a existência deste nicho no estado. Porém, ele afirma que algumas famílias preferem gastar mais e realizar uma despedida personalizada, com um cerimonial específico. “Temos o exemplo de uma senhora, falecida com certa idade, que gostava de tomar um bom vinho. Em determinado momento do velório foi servido aos convidados uma taça da bebida preferida da ente querida. Pode-se dizer que vai da família fazer a escolha dos serviços e pensar no limite de seus gastos”, conta Nunes.

Apesar de o mercado no Estado não ter grande procura, o Crematório Metropolitano oferece serviços de luxo para aqueles clientes que buscam diferenciação. Urnas de bronze, porcelana ou mármore estão entre as opções. Os preços de toda a cerimônia podem variar de R$ 4 mil a R$ 17 mil, valores semelhantes ao dos enterros oferecidos pelas funerárias da capital.

Os custos da morte

Para diversas famílias, a atmosfera luxuosa na despedida de um ente querido não é uma opção viável financeiramente. Apesar de encontrarem mercado para alguns serviços personalizados e de alto custo, as funerárias de Porto Alegre são obrigadas a oferecer o sepultamento simples, cujo preço de R$ 741,72 é tabelado pela Prefeitura de Porto Alegre. Este é valor mínimo a se desembolsar em caso de morte na capital. O custo prevê caixão de madeira, atividades de vestir e transportar o corpo, além de organização do velório e apoio aos familiares. A lei também inclui no cálculo uma margem de lucro para as funerárias, mas a porcentagem que isto representa no valor final não é especificada. Após 3 meses e 1 ano, a família ainda precisa arcar com os custos de manutenção do corpo no cemitério.

O município é o responsável por realizar o sepultamento digno daqueles cujos familiares não têm condições financeiras necessárias para arcar com o serviço particular. O atendimento é custeado pelas funerárias pagas, em contrapartida para que obtenham liberação para explorar o mercado privado. Neste caso, o parente deve comprovar renda de até dois salários mínimos e provar que o falecido era morador Porto Alegre.

A Central de Atendimento Funerário (CAF) oferece as mesmas atividades das funerárias particulares, como a preparação do corpo, o transporte e o sepultamento, que é feito no campo santo do Cemitério da Santa Casa ou no Cemitério São João. Porém, o momento de adeus não recebe o caráter de cerimônia dos eventos luxuosos realizados nas funeral homes. “A família tem direito a uma breve despedida, que não é considerada velório. São alguns minutos antes do sepultamento”, afirma Isis Fontoura, gerente geral do CAF.

Texto: Anahís Vargas (6º semestre) e Daniela Flor (6º semestre)
Fotos: Divulgação

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