Gastronomia erótica: É pra ver, pra comer e pra sentir

Uma das piadas mais comuns nos almoços em família aos domingos atinge a sobremesa Pavê. Sempre alguém pergunta: “é pavê ou pacomê?”. Pois, eis que chega a Porto Alegre a gastronomia erótica, um conceito gastronômico que é para ver, além de saciar o paladar e estimular os cinco sentidos.

A ideia foi trazida pelo administrador Bruno Bubadra, pelo relações públicas Guilherme Alf e pelos publicitários Alexandre Godoy e Maurício Alves, que recentemente abriram o Valentina, bar com temática erótica, localizado na Zona Norte de Porto Alegre. Sobre o que acontece no bar e a gastronomia no local, Maurício alerta que a proposta é apenas o erotismo, sem vulgaridades ou pornografia explícita. “Se você vai para um lado de erotismo muito forte, acaba sendo casa de swing, que não é a ideia. Na culinária, a gente foge do clichê ‘linguiça com ovo’, pois entraria na linha do vulgar”, explica.

Para trabalhar com a gastronomia propícia à temática do empreendimento, os sócios viajaram para Europa e pesquisaram sobre o assunto, visitando bares europeus que trabalham de forma semelhante. Também buscaram o apoio do consultor gastronômico Zi Saldanha, que, até então, não conhecia a fundo o conceito, e também estudou para conduzir o projeto Valentina. Ele afirma que, inclusive, buscou referências literárias na obra Afrodite, da escritora chilena Isabel Allende, para a preparação do cardápio. “No livro, ela cita que framboesas e morangos são os mamilos frutíferos da natureza. Então, peguei essas brincadeiras”, conta.

Assim que se abre o menu, um convite ao prazer proporcionado pelas comidas e bebidas eróticas: “Food Porn – para comer com os olhos, boca e imaginação”. (Na verdade, o termo “food porn” costuma se referir à publicação de imagens de tema gastronômico em redes sociais e não tem necessariamente uma relação com erotismo.) À medida que se folheia as páginas, são encontradas diversas brincadeiras e referências históricas, literárias ou mitológicas sobre elementos que compõem os pratos. Saldanha, formado em Turismo e Hotelaria e gastrônomo autodidata, crê que a gastronomia erótica não possui um conceito definido. “Nada mais é do que vender experiências e surpreender as pessoas. Não é só o prato, é o conjunto todo de seduzir o cliente desde a entrada”, argumenta. Para a professora de Vendas e Gestão da Inovação e Liderança no curso de Gastronomia da Unisinos, Fernanda Zilles, a proposta vai passar por um rigoroso teste de aprovação na cidade. “Os consumidores gaúchos são bem críticos, o que faz do mercado um berço para o teste e lançamento de novos produtos e serviços”, sentencia.

Hambúrguer de salmão com cebolinha, creamcheese e alface americana; acompanha duo de batatas e molho de páprica picante.
Completando a proposta gastronômica, o ambiente é decorado com quadros e monitores de LED que exibem fotos e vídeos eróticos, cortinas de algemas dividem espaço entre algumas mesas, poltronas e sofás rústicos e de couro convidam o cliente a relaxar. Na entrada do prédio, uma moça vestida como manda o figurino erótico vende lingerie, e os garçons, vestidos de preto de forma elegante, atendem aos consumidores aderindo às brincadeiras e à proposta da casa.

Apetite saciado sem estimular a libido

Ansiosa por conhecer o bar e por usufruir o máximo possível do que o local oferece, a estudante Carolina Diniz pediu Frango Teriyaki, na primeira vez em que foi ao Valentina, durante o aniversário de um amigo. Por estar em uma reserva para mais de seis pessoas, sentou-se em um sofá um pouco distante da mesa, dificultando saborear o jantar. “Eu gostei do lugar, achei bem diferente, exótico e com todo tipo de público. A comida eu achei normal, nada de muito distinto do que é servido em restaurantes ‘comuns’. Por ser um lugar com proposta diferenciada, achei que a comida também seria. É um prato gostoso, mas normal”, afirma.

Na comida, Saldanha toma o devido cuidado para colocar elementos afrodisíacos de forma erótica em suas criações, sem cair no vulgar: “Há uma linha muito tênue entre o bagaceiro e o sedutor”, afirma. De fato, o sócio Maurício Alves e ele acreditam que esse tipo de gastronomia pode estar presente em qualquer ambiente, mas terá proposta diferente: “O grande charme está na busca por temperos afrodisíacos. Aqui ela tem como função completar os cinco sentidos”, diz Maurício. Zi Saldanha acrescenta que a gastronomia erótica aposta em alguns ingredientes afrodisíacos clássicos, como Catuaba, mas foca principalmente em elementos não convencionais que possuem a mesma propriedade.

Ingredientes afrodisíacos

– Quimicamente afrodisíacos: Nó de Cachorro (planta revigorante conhecida como “Viagra natural”, encontrada principalmente no centro-oeste brasileiro); Frutos do mar, como ostras, lulas e mexilhões, que são ricos em ômega 3 e zinco. “O zinco é um mineral que aumenta a produção de testosterona e, consequentemente, torna a libido do homem mais forte”, conta.

– Mitologicamente afrodisíacos: elementos ligados à Afrodite, como mel, canela (considerada o perfume de Afrodite), framboesas e morangos.

Carolina aprovou o local, mas esperava sentir algo diferente ao jantar a comida do bar.

Alternativa “ousada” tem condições de fazer sucesso

A proposta da inserção da gastronomia erótica no primeiro bar com temática erótica de Porto Alegre não tem garantias de sucesso, mas pode consolidar um novo mercado na gastronomia local. De qualquer forma, os proprietários se mostram animados com o começo: “A gente aposta na comida como um dos pilares da casa, para chamar atenção. Temos recebido muitos elogios”, diz Maurício.

Para Fernanda Zilles, a proposta é, “sem dúvidas, ousada por ser diferenciada, e que, se baseada em conhecimentos mercadológicos, tem tudo para ser um sucesso”. Ela também garante que explorar a gastronomia erótica ainda não se constitui em mercado, mas sim “em nicho bem específico e em uma forma de se posicionar no mercado para fazer frente à concorrência”.

Maurício é categórico ao tratar sobre a gastronomia e o posicionamento do bar no comércio porto-alegrense. “A gastronomia é um dos nossos focos. Assim como a decoração, demos bastante atenção para gastronomia. Para nós, não é modinha”, diz. Para Zi Saldanha, não se trata nem de nicho, nem de moda, pois não envolve apenas o comércio de comidas e bebidas, mas “conceitos e experiências” que são vendidos.

Texto: Alysson Mainieri
Fotos: Alysson Mainieri e Alexandre Godoy/Divulgação

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