Há 40 anos, Movimento de Justiça e Direitos Humanos salva vidas

Fuga cinematográfica do biofísico uruguaio Claudio Benech foi um dos resgates realizados

  • Por: Rariane Costa (3º semestre) | Foto: Acervo Movimento de Justiça e Direitos Humanos | 01/04/2019 | 0

Eram 22 horas de 31 de dezembro de 1980 quando um arriscado plano de fuga começava a ser colocado em prática envolvendo brasileiros e uruguaios que tentavam tirar das garras da ditadura militar uruguaia o biofísico Claudio Benech que estava preso naquele país. Naquela hora, os filhos de Benech deram uma volta no quarteirão da casa da família em Montevidéu para se certificar de que não havia militares os vigiando. Depois, no carro da cunhada, o biofísico, sua esposa e os dois filhos mais velhos pegaram a estrada em direção ao Brasil, onde eles tentavam chegar fugindo do seu país.

“O biofísico tinha sete filhos, mas foram apenas os dois mais velhos que embarcaram porque os pais tinham receio de que seriam perseguidos em caso de represália”, explica Jair Krischke, presidente e fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) , organização não-governamental que, neste final de março, completa 40 anos defendendo pessoas, entidades e ideias em favor da democracia, da liberdade e dos direitos humanos na América Latina.

   Ainda antes de março de 1979, quando o MJDH foi oficialmente fundado, Krischke e demais apoiadores já desenvolviam ações em defesa dos direitos humanos não apenas no Brasil, mas também em favor de argentinos, uruguaios e chilenos que enfrentavam governos de repressão política assim como os brasileiros. Naquela entrada de ano novo, 1981, Jair Krischke e seus companheiros, mais Carlos Alberto Kolecza, na ocasião repórter da Zero Hora, aguardava no lado brasileiro da fronteira de Chuí, a chegada do carro que trazia a família Benech que buscava abrigo no Brasil.

Ao longo do caminho, o carro apresentou um problema em uma das rodas, temendo não conseguir chegar à fronteira a família buscou ajuda em Punta Del Este. Um amigo se dispõe a levá-los até o Chuí, onde o grupo brasileiro os esperava. Devido ao problema com o carro, Benech e a família se atrasaram e eles chegaram apenas por volta das cinco horas da manhã, conta Kolecza relembrando os momentos de angústia vividos.

Apesar do atraso, tudo correu bem, mas a chegada gerou apreensão, já que o combinado era que a família chegaria no carro da cunhada de Benech. “Você pensa sempre o pior” relata Krischke. Por se tratar de uma passagem de ano, Kolecza afirma que o ambiente não era de grande tensão “pelo foguetório e comemorações a gente estava relaxado porque embora precisasse passar pelos controles, ele iria passar no meio de muita gente que estava comemorando, não havia aquela vigilância habitual”.     

Cláudio Benech era biofísico de renome internacional, preso pela repressão de seu país em 1980. Essa operação é conhecida pelos colaboradores da ONG como “Operação Mundialito”, porque a fuga aconteceu no período do mini campeonato mundial de futebol de 1980. Na ocasião, Krischke recebeu um pedido de ajuda de Graziella Gulla, esposa do cientista. O apelo veio através de uma carta onde era descrito como ele havia sido preso. Segundo Krischke, Graziella estava desesperada e sua carta era um pedido de ajuda, pois “a pobre da senhora nem sabia onde ele se encontrava”.

Diante da situação, e de posse da carta, o presidente do MJDH organizou denúncia pública e através da mídia nacional e internacional buscou pressionar o embaixador brasileiro no Uruguai para intervir no caso. Após a denúncia, se descobriu que ele estava no 13° de Infantaria, local conhecido como “El Infierno”, por ser um ambiente onde a prática da tortura era frequente.
Imediatamente, a mídia foi sinalizada de que Benech havia sido encontrado. Graziella enviou carta com agradecimentos pela descoberta do paradeiro do marido. Além dos agradecimentos, ele fazia um apelo “pelo amor de deus não falem mais nisso”, pois temia que a divulgação do caso fosse prejudicial ao marido. Krischke relembra “que ela era médica pediatra, não tinha noção de como trabalhar com a ditadura”.

Todo o plano de fuga foi montado através de conversas por meio de um interlocutor já que, segundo Krischke, além da censura, a comunicação era precária. Ariel Celiberti fazia a interlocução, “ele tinha dois filhos pequenos, e a mulher do cientista como pediatra atendia os filhos dele. Nada mais natural, nesse momento era feito essa sintonia, sem censura”, conta o presidente do MJDH.
Enquanto isso, Benech montava o perfil psicológico de seus carcereiros. Nesse momento percebeu um detalhe importante para sua fuga, segundo Krischke. “ele analisou seus algozes e percebeu que eles tinham graves desfios sexuias, começou a trabalhar nisso”. A liberação para passar o Natal com a família veio por iniciativa do biofísico que dizia ter saudades da mulher e montava uma cena sexual para convencer os militares. Interessados narrativa das aventuras sexuais de Benech, os algozes concederam saída para o Natal. Krischke conta que nessa noite os detalhes da fuga foram acertados, “a mulher e ele com mais liberdade, arquitetaram a fuga, esse era o espaço para combinar as coisas porque na visita, no quartel, não dava pra falar”.

Com a volta para o quartel, Benech relatou os supostos acontecimentos da noite, “criou um relato de suas relações, fantasias sexuais, os carcereiros se entusiasmaram”, conta o fundador do MJDH. Dessa forma, induziu novamente que o liberassem para ir para casa na passagem do ano. Mais uma vez, obteve sucesso na liberação e foi colocado em prática o plano de fuga.
Além dos companheiros de luta, o presidente do MJDH relembra que o convite para que os jornalistas o acompanhassem no resgate foi pensando na segurança. “Pensamos em levar a imprensa porque poderíamos ser presos, mas não iriam nos matar”. Kolecza afirma que a presença da imprensa realmente foi uma espécie de salvo conduto na operação, “pode-se dizer que fomos sim uma espécie de dispositivo de segurança”.

Ao chegar em território brasileiro, Benech solicitou um café e em seguida pediu para que Krischke o acompanhasse no banheiro. Nesse momento, o biofísico abriu uma das mãos deixando cair uma cápsula de cianureto “não trai meus companheiros”, dizia chorando, caso fosse pego o cientista iria se matar.
No Brasil, Benech conseguiu status de refugiado do Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR). O biofísico e sua família permaneceram no país durante cinco anos. Em 1985 com a redemocratização do Uruguai, todos retornaram ao país de origem.
Cláudio Benech, hoje falecido, foi uma das milhares de pessoas que viveram sob regimes totalitaristas do Cone Sul. O Movimento de Justiça e Direitos Humanos esteve envolvido em ações, junto ao ACNUR, para asilar cerca de duas mil pessoas em países europeus. Em comemoração aos 40 anos da ONG, teve início, no dia 26 de março, a exposição multimídia que apresenta a história do Movimento e seu importante papel no processo de redemocratização brasileira. Os documentos utilizados como base para essa reportagem estão expostos no evento que permanecerá aberto até o dia 14 de abril no Memorial do Rio Grande do Sul. A ONG fundada e presidida por Krischke luta pela garantia dos direitos humanos universais, trabalho que é reconhecido não apenas no Brasil, mas na América Latina e na Europa.

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