Homens jovens usam saias como forma de ação política

Depois que estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) vestiram saias, em 16 de maio, como resposta aos comentários hostis que o aluno de Design Têxtil da USP Leste, Vitor Pereira, havia recebido nas redes sociais por usar a peça, o saiaço chamou a atenção da imprensa por sua peculiar reivindicação, o direito de homens usarem indumentária do universo feminino.

Não há proibição para o uso de saia pelos homens, uma lei suntuária (que controla hábitos de consumo) como aquela instaurada em 1800 na França. Após a Revolução Francesa (1789), uma lei vetou que mulheres usassem roupas masculinas, a não ser que tivessem autorização da polícia. A liberdade e a igualdade pregada naquele período pouco tinha a ver com o guarda-roupa e com a situação das mulheres de maneira geral. Embora no século 20 uma emenda tenha sido adotada na lei, que permitia o uso de calças em situações específicas – passeios de bicicleta ou a cavalo –, somente em 4 de fevereiro deste ano a lei foi cassada.

Ao contrário do caso francês, no qual havia uma lei que era desobedecida, as saias são permitidas, mas, moralmente, não são aceitas como parte do vestuário masculino. Antes de entrar nesse assunto, é preciso apontar alguns obstáculos morais presentes na história das saias.

Emancipação feminina

Por alguns séculos, as saias foram apenas longas, podendo cobrir camadas de anáguas e armações que atribuíam volume à região dos quadris, valorizando a área que representava o principal papel da mulher: a reprodução. Os movimentos de emancipação feminina do século 20 e as guerras resultaram em uma simplificação do vestuário feminino, que, além de eliminar as armações, passou a reduzir o comprimento das saias. Na década de 1910, elas estavam abaixo dos tornozelos; na década seguinte, quase chegavam aos joelhos.

Esse movimento não aconteceu sem ressalva e protestos dos conservadores. James Laver escreve no livro A roupa e a moda que, em 1925, o encurtamento das saias foi acusado como responsável pelas catástrofes naturais que aconteciam no período, como o terremoto em Amalfi, na Itália. Para o arcebispo de Nápoles, era a “ira de Deus contra uma saia que apenas cobria os joelhos”. O historiador de moda ainda afirma, em sua obra, que legisladores dos Estados Unidos tentaram em Utah, aprovar um projeto de lei que previa multa e prisão para aqueles que usassem saias com comprimento inferior a oito centímetros acima dos tornozelos, e outro que proibia o uso de saias que não chegassem ao arco dos pés por mulheres acima de 14 anos. A tentativa de impedir o encurtamento das saias não evitou que, na década de 1960, ele atingisse seu auge, revelando as coxas femininas.

O saiaço que aconteceu em São Paulo não foi o primeiro, em outras ocasiões jovens saíram às ruas pelas saias. Em 1967, em plena ditadura militar, estudantes do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, protestaram na frente da escola contra uma nova medida da direção, que proibia o uso das minissaias. O fato foi publicado no dia 4 de abril pelo jornal Zero Hora, que exibiu alguns comentários dos envolvidos. A proibição da minissaia era vista pelos alunos como uma afronta à democracia.

Voltando aos homens que não só defendem as saias, como também as integram em seu guarda-roupa, o britânico Chris Whitehead, de 12 anos, optou por peça como um protesto contra a norma do Impington Village College, localizado em Cambridge, sudeste da Inglaterra. Como as bermudas e shorts não eram permitidos nos uniformes, e as regras da instituição não deixavam clara a proibição de saias para os meninos, Whitehead usou a peça como uma manifestação pacífica de sua reinvindicação por roupas mais apropriadas para o verão.

Cabe lembrar que nem sempre eles receberam destaque por sua rebeldia, porque, enfim, não era uma rebeldia. Hoje, na Escócia, é comum homens usarem o kilt, espécie de saia masculina. Na Antiguidade e na Idade Média, as roupas pouco divergiam, os dois sexos usavam túnicas que se diferenciavam apenas pelo decote, que cobria os seios das mulheres. A partir do século 14, com a evolução da alfaiataria, as vestes dos homens tornaram-se mais justas e curtas, e começou a maior diferenciação do vestuário. O historiador Thomas Laqueur explica que, na Era Vitoriana, no século 19, os gêneros passaram a ser marcados por suas diferenças biológicas, o que teve consequências na aparência e no vestuário. Movimentos feministas no século 20 – e, também, a evolução da moda – provocaram mudanças nos papéis femininos, formas da mulher se comportar e vestir, auxiliando na apropriação de algumas peças de roupas masculinas, o que se torna cada vez mais comum. Contudo, o armário do homem pouco se apropriou de roupas femininas.

Estilo unissex

Na década de 1960, surgiu um brasileiro disposto a quebrar essa regra. O arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho, em outubro de 1965, lançou um estilo unissex, que ironizava a importação de modelos europeus de vestuário, impróprio para o clima tropical brasileiro. Carvalho apontava para a importância de haver uma moda que servisse a ambos os sexos, uma vez que aumentava a igualdade entre homens e mulheres. Fazia parte do estilo “uma saia de brim, acima dos joelhos, com pregas largas, [que] davam a liberdade aos movimentos”, descreve o historiador de moda João Braga, no livro História da Moda no Brasil. Braga afirma que a moda unissex não pegou. “Mas, mais importante que o modelo em si, porém, foi seu propósito, que acabou se tornando corriqueiro: usar a roupa para questionar ou sugerir valores à sociedade”, explica o historiador.

Formado em Design de Moda pela Faculdade Santa Marcelina, Victor Hugo Yuuki decidiu ir à sua formatura utilizando kilt. “Usei a kilt para causar impacto nas pessoas, pois a sociedade brasileira em geral ainda é muito careta, e usar calça e bermuda todo dia me cansa, brincar com a moda é muito divertido”, afirma Yuuki. Para o jovem, o kilt deixa o look com cara de punk, tirando o foco da saia como algo exclusivamente feminino.

Quando decidiu que o kilt comporia seu visual para a formatura, seus pais desaprovaram a decisão, pois achavam que a saia era feita somente para mulheres usarem. Mas o jovem não se limita ao que a sociedade diz ser exclusivamente masculino, e aproveita para comprar em brechós roupas e acessórios femininos, além das peças apropriadas do guarda-roupa da avó, que usa com peças masculinas. “Para não ficar caricato”, afirma.

Quem também já possuía adereços femininos desde os 13 anos, é Ali Savage, personagem da matéria publicada pelo Editorial J impresso. Diferente de Yuuki, Ali busca com a sua vestimenta desconstruir a estética masculina. A pior reação em relação a seu vestuário também veio de casa: “Minha mãe, quando me viu de saias, foi horrível”, afirma.

A mãe de Raphael Jacques aceitou bem no início, quando, influenciado pelo movimento Queer, o jovem começou a se apropriar de parte do guarda-roupa feminino, mas depois de se envolver com a religião, começou a repreender o jovem. Para Raphael, essa postura faz parte de uma mentalidade do interior do Rio Grande no Sul, onde as crianças são mais podadas, formadas para atender aos padrões estabelecidos do que é ser homem (virilidade) e do que é ser mulher (passividade, submissão).

Transgressão de gênero

Ali e Raphael se diferem de Yuuki no sentido de não assumirem a identidade masculina. Nem a feminina. Essa posição é o que pode ser chamado de transgressão de gênero. Eles não seguem regras pré-estabelecidas socialmente que dizem o que é ser homem e o que é ser mulher. É o caso do cartunista Laerte, também citado pela matéria, que se veste com roupas de mulher. Um dos episódios envolvendo o uso de saias por homens que atraiu a atenção da mídia também pode ser localizado no contexto da luta contra padrões de gênero. Este foi o caso do alemão Niels Pickert, que, ao perceber que o filho era ridicularizado no jardim da infância por gostar de usar vestidos, decidiu servir de modelo e, para isso, colocou saias e saiu para passear com o menino pelas ruas.

Como nem todas as manifestações têm as mesmas causas e objetivos, e os protestos pelas saias não são diferentes, os jovens de São Paulo não queriam, necessariamente, transgredir gêneros, mas se colocaram em defesa do direito de um colega se vestir da forma que desejasse. Um mês depois, foi a vez de outro saiaço acontecer na capital paulista, dessa vez, por alunos do ensino médio. No dia 10 de junho, cerca de 250 alunos do Colégio Bandeirantes, meninos e meninas, foram às aulas de saias. Assim como o ocorrido anteriormente, o protesto era em defesa de dois colegas que foram reprimidos pela utilização da peça. Desta vez, não foram comentários nas redes sociais, mas ordens da direção do colégio.

Um dos estudantes decidiu utilizar saias para uma festa junina, enquanto o outro já fazia a utilização de vez em quando. Em relação ao primeiro, um dos professores o levou à direção alegando que a festa não era uma parada gay. O outro foi proibido de entrar no colégio e enviado para a coordenação, que ligou para sua mãe. Ao contrário das mães de Yuuki, Ali e Raphael, a mãe do estudante do Bandeirantes, em defesa do filho, apontou para o saiaço que aconteceu na USP e opinou que o colégio deveria aderir à discussão e não proibir os alunos do uso.

Texto: Anna Fernandes (7° semestre)

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