Ivette Brandalise: “TVE é emissora pública, mas não do governo do Estado”

Em entrevista ao Editorial J, a jornalista gaúcha falou sobre a carreira e o cancelamento do seu programa de entrevistas na TVE, após 22 anos no ar.

  • Por: Juliana Baratojo (3º semestre), Pedro Silva (5º semestre) | Foto: Juliana Baratojo (3º semestre) | 07/07/2015 | 0

_MG_8842

A televisão pública, como a TVE do Rio Grande do Sul, é pública, não do governo. “Ela é feita para servir ao público”, enfatizou a jornalista e psicóloga Ivette Brandalise que, até maio último, apresentava o programa “Primeira Pessoa” na emissora, quando o mesmo foi tirado da programação. Segundo ela, a seriedade e a responsabilidade são essenciais para fazer um programa nesse tipo de televisão, é preciso construir credibilidade e assim conquistar a audiência.

Em entrevista ao Editorial J, a jornalista que continua no programa da rádio Cultura – que juntamente com a TVE forma a Fundação Piratini – disse que ficou surpresa com sua dispensa do vídeo. Ivette Brandalise manteve o “Primeira Pessoa” por 22 anos na emissora. “Não esperava ser demitida, adorava fazer o programa e recebi a novidade muito mal”, admite. Em janeiro deste ano, houve corte de quase 53% de gastos do governo com a Fundação Piratini, o que reduziu as atividades das emissoras de televisão e de rádio. Na TVE, foram sete apresentadores demitidos. Eles mantinham seis programas, quatro deles foram extintos, um transformado e apenas um permaneceu com troca de apresentador.

Ivette foi uma das que teve o programa riscado da programação. Na rádio Cultura, onde apresenta o programa “As Músicas que Fizeram Sua Cabeça”, ela reconhece que sempre teve preferência pela rádio. “As pessoas têm uma intimidade com a rádio, o ouvinte escuta dentro de casa, quando está de pijama, quando vai ao banheiro, quando está indo trabalhar”, justifica. Sendo uma das primeiras mulheres a ter sua opinião exposta nessa mídia, Ivette ingressou, em 1968, quando Flávio Alcaraz Gomes a convidou para fazer comentários diários na Rádio Guaíba. Seu quadro na programação a Rádio Guaíba, chamado “Cinco Minutos com Ivette Brandalise”, envolvia opinião, o que na época tinha que ser feito de forma sutil. O programa durou 18 anos e, paralelamente, ela mantinha crônicas no jornal Folha da Tarde, outro veículo grupo Caldas Junior que circulou entre 1936 a junho de 1984.

A apresentadora diz ter tido sorte ao ser chamada para entrar na TVE, em 1987. No programa eram levados convidados para entrevistas, em que ela, de maneira envolvente deixava-os à vontade para conversar. Um bate-papo, como ela mesma define: “O importante é saber ouvir, e a partir disso pegar as deixas, tentar sair da imagem que eles vendem”. Usando sua formação que, além de jornalista cursou Psicologia e Ciências Sociais e aliando sua experiência no teatro, Ivette conseguia sem ter perguntas formuladas, conduzir o entrevistado de maneira informal e única.

Teatro de Equipe
Natural de Videiras, Santa Catarina, Ivette Brandalise veio para Porto Alegre em 1953. No começo, planejava estudar Engenharia Química, mas, influenciada por uma colega do Júlio de Castilhos, ingressou no curso de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, concluído em 1959.

Em Porto Alegre começou a trabalhar no Teatro Equipe – primeira experiência de teatro profissional no RS – onde atuava, fazia produção, fotografia e divulgação. Além de encenar espetáculos, o local era palco para laboratórios, debates e conferências que marcaram a cena cultural de Porto Alegre. Mergulhado em dificuldades financeiras, o Teatro de Equipe fechou as portas em setembro de 1962. Ivette afirma que foi bom o teatro ter falido, pois muitos de seus colaboradores poderiam ser presos quando a ditadura militar se estabeleceu no país a partir de 1964.

Em 1963, a jornalista começou a trabalhar no Diário de Notícias, fazendo a página feminina do jornal. Um ano depois ingressou na TV Gaúcha, atuando em um dos primeiros telejornais gaúchos, o Show de Notícias. No telejornal fazia participações críticas, curtas e sarcásticas em meio ao programa. “Eu não fazia nenhum comentário ostensivo ao governo na época, mas só minha expressão para a câmera já demonstrava dizer muita coisa”, ainda brinca pelo fato de seu olhar sério, característico no comentário. “Não era de propósito, eu tinha problema de visão, então olhava bem no fundo da câmera, o que trazia a ideia de olhar diretamente ao público em casa”.

No “Primeira Pessoa”, a apresentadora de 75 anos entrevistou pessoas de diversos segmentos: políticos, escritores, jornalistas, esportistas e artistas. Também levou ao seu programa personagens desconhecidos, cujas histórias de vida, entretanto, inspiram mensagens ao telespectador.