Jovens e independentes optam por ser donas de casa

“Ser dona de casa é uma escolha que eu tenho que fazer todos os dias. Não é fácil”, afirma Camila Reinke, 33 anos. A expressão dona de casa pode causar certa estranheza nos dias de hoje, mas ela é realidade para algumas mulheres. Apesar do número de brasileiras ocupadas ter aumentado de 35,4% para 43,9% entre 2000 e 2010, o que significa um aumento de 24% na proporção de trabalhadoras, de acordo com dados do IBGE, há mulheres na faixa dos 20 a 35 anos que ainda optam por ficar em casa e cuidar da família.

Esse é o caso de Camila Reinke. Formada em Direito e Artes Visuais, a advogada tomou a decisão de se dedicar somente ao lar e aos filhos. “Minha prioridade é a família. Acho que neste momento meus filhos precisam de mim”, diz.

Casada desde 2007 com o designer Roberto e mãe de Olívia,dois anos, e de João, dois meses, Camila cresceu em uma casa comum, na qual a mãe sempre trabalhou. Aos 19 anos, a jovem começou a freqüentar uma igreja evangélica, lugar onde conheceu seu esposo. “Minha conversão ao cristianismo foi uma mudança de vida e de valores. Entendi o verdadeiro significado da família“, afirma.

A nova crença fez com que Camila desse mais importância à ideia do casamento e da criação dos filhos.
Quando descobriu a primeira gravidez, sentou com o marido para conversar. Em comum acordo, o casal de classe média decidiu apertar as finanças para que os filhos tivessem a mãe em tempo integral nos primeiros anos de vida. A partir daí, a rotina de Camila mudou. Na época, a advogada estava terminando a faculdade de Artes Visuais e trabalhando na área. Após o nascimento de Olívia e João, o dia a dia como dona de casa apresentou novos desafios.

“Sou o tempo todo deles. Para tomar banho, preciso que minha mãe ou meu marido fique com eles, por exemplo. Enquanto o João dorme e a Olívia fica meio turno na escolhinha, eu dou conta dos afazeres da casa. É complicado”, revela.

O sonho de “ser a melhor arquiteta do Brasil” ficou para trás

A estudante de arquitetura de 22 anos já comemora os três meses de casada. Os projetos de decoração feitos na época da faculdade foram trocados pelos planos de reforma da nova casa. As maquetes foram substituídas pelos moveis de verdade.

O casamento nunca fez parte dos planos de Fernanda. Mas, no ano passado, ela conheceu o advogado Fernando,
e os planejamentos foram por água a baixo. A paixão de verão se tornou a prioridade na vida dos dois. A faculdade ficou para trás. “Vamos primeiro montar nosso apartamento direitinho, depois volto a estudar”, afirma Fernanda.

A decisão de largar os projetos e a possível realização profissional para ser dona de casa não assusta Fernanda. Tudo que ela almeja hoje é a felicidade da família. A mudança não foi só de sobrenome, também se adaptou à realidade do marido e aos filhos. Rafaela era recém nascida quando os dois começaram o relacionamento. Isso não foi empecilho para a convivência do casal. “Tenho a Rafa, filha do outro casamento do meu marido, como a minha própria filha”, diz Fernanda. Hoje, a dona de casa não pensa em ter outra rotina. Cuidar da casa e do marido e dividir a atenção com a pequena Rafaela parece já fazer parte da sua vida há anos.

“Ficar em casa é uma chatice”

A presidente do Movimento das Donas de Casa de Porto Alegre, Edy Maria Mussoi, afirma claramente, sem hesitar, que “esse tipo de mulher, dona de casa, não tem espaço no mercado. É um caminho sem volta. E ficar em casa, além de tudo, é uma chatice”. Por mais contraditório que isso pareça em um primeiro momento, Edy acredita que a dona de casa do século XXI é uma mulher que sabe administrar o lar, como se fosse uma “super ministra”, mas não deve deixar o mercado de trabalho de lado.
Com base nessa mentalidade, o Movimento das Donas de Casa, liderado por Edy há quase 25 anos, é, na verdade, uma maneira encontrada para auxiliar no planejamento de um orçamento doméstico.

De acordo com Edy, a mulher precisa, antes de tudo, exercitar suas capacidades pessoais e buscar uma satisfação pessoal, a qual deve vir antes do exercício de esposa ou de mãe. “Todo mundo tem que ter uma profissão. É um absurdo uma mulher que não se sustente sozinha”, resume.

As mulheres têm o poder de escolha

Para a psicóloga Gabriela Flores, as mulheres estão vivendo um momento no qual possuem o pleno poder de escolha. “As mulheres lutaram bravamente pela independência, e, no século XXI, podem fazer a escolha de seguir uma carreira ou de ser dona de casa conscientemente. Não é mais uma imposição”, diz.
Segundo Gabriela, as mulheres derrubaram barreiras e já alçaram posições de sucesso em quase todas as áreas. Agora, a tendência é que ocorra outro movimento, menos extremista.

“É uma característica do ser humano. Precisamos mostrar força quando queremos ser respeitados. Foi isso que a mulher fez para conseguir seus direitos, entrando no mercado de trabalho. Agora, a situação é outra. Não é preciso mais trabalhar fora para provar alguma coisa à sociedade, apesar de que o normal para todos seja que a mulher tenha uma carreira”, ressalta.

Diferentes fatores podem levar uma mulher a optar por ser dona de casa no século XXI. A psicóloga aposta em um conjunto de aspectos que, juntos, fazem as mulheres repensarem seu papel na família. Entre eles, estão a liberdade de escolha e o próprio ambiente familiar que a mulher foi criada. Além disso, o papel da avó também mudou. Mães de mulheres entre 20 e 35 anos são mais ativas e não dedicam, necessariamente, sua vida aos netos, como ocorria anteriormente.

“Hoje somos preparadas para escolher. As mulheres conquistaram seus direitos e um deles é optar por ser dona de casa. Ainda existe espaço para esse estilo de vida”, afirma Gabriela.

Text e fotos: Fernanda Ponciano, Nathália Carapeços e Suzy Scarton

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